“Até haver evidência científica mais sólida do que temos agora, as superfícies e objetos podem indiretamente ser considerados como potencial fonte de transmissão da doença”, salientou esta quarta-feira a Graça Freitas, Diretora-Geral da Saúde, na habitual conferência de imprensa de atualização dos dados da pandemia de Covid-19.

O tema está na ordem do dia. A Organização Mundial de Saúde referiu que não é possível confirmar se o SARS-CoV-2 infeta seres humanos após o contacto com superfícies contaminadas. No entanto, a higienização e desinfeção de superfícies e objetos tem sido um dos principais pontos no combate à pandemia provocada pelo novo coronavírus.

Do outro lado do Atlântico, parecem existir mais certezas. O Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CCPD) dos Estados Unidos, afirmou esta semana que o vírus não se dissemina facilmente através de superfícies ou do contacto com animais.

De acordo com o CCPD, tocar em objetos ou superfícies contaminadas não aparenta ser um modo de transmissão “significativo”, salientando que o principal foco é o contacto entre pessoas.

Em Portugal, a DGS, destaca que “uma das coisas que caracteriza esta pandemia é o grau de incerteza”. A própria OMS “continua a recomendar fortemente a higienização de superfícies e de objetos para minimizar o risco de contágio”, disse Graça Freitas. E por isso, em Portugal, esta é a norma.

Esta “incerteza” parece ser contraditória com os estudos publicados desde o surgimento da pandemia que revelavam que o vírus se mantém ativo durante algum tempo em superfícies como plástico ou metal. Miguel Castanho, investigador principal do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (iMM) e Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, explica que “os estudos científicos são feitos em condições controladas, tipicamente com superfícies de materiais puros, limpos, em temperatura e humidade controlada".

"Estes estudos estabelecem que o SARS-CoV-2 tem um potencial de se manter ativo por períodos mais ou menos longos, que variam entre horas e dias. O que a OMS vem dizer é que esse potencial pode eventualmente não se concretizar na maioria das condições práticas do dia a dia, isto é, não existe prova que esse potencial esteja a ser efetivamente uma via de contágio muito significativa”, refere através de comunicado.

"Um vírus não tem metabolismo próprio nem se multiplica por si só – para isso precisa de uma célula. Não é considerado vivo por esta razão, embora consiga interferir com a vida", explica. Porém, "quando interage com células onde consegue entrar, transforma as células em “fábricas” de novos vírus", dia ainda o investigador.

"Contudo, para interferir com uma célula, os vírus têm de ter composições e estruturas bem definidas. As moléculas que compõem os vírus e a sua organização são relativamente frágeis. Dentro do organismo do hospedeiro as condições são amenas para os vírus: a temperatura varia pouco, o pH é relativamente constante e todo o ambiente é biológico”, clarifica Miguel Castanho.

No entanto, as condições acima descritas não acontecem na maioria dos meios em que vivemos e onde o vírus está sujeito a condições físicas e químicas, como variações de temperatura, desidratação ou oxidações que podem acabar por destabilizá-lo e inviabilizar a sua ação.

Desta forma, o professor e investigador acredita que a “transmissão mais significativa e mais favorável aos vírus é a passagem de uma pessoa diretamente para outra pessoa, em partículas exaladas por uma e inaladas por outra. Havendo contágio através dos objetos, ele não será tão significativo; além das condições adversas que os vírus podem enfrentar sobre os objetos, a transmissão é muito indireta: exalação de uma pessoa – mão dessa pessoa – objeto – mão da outra pessoa – cara da outra pessoa – vias respiratórias”.

As considerações, porém, não implicam que deixemos de ser “cautelosos”, salientando que existem alguns procedimentos simples que podem fazer a diferença como o “uso de máscara sempre que há proximidade de outras pessoas e lavagem das mãos”.

“Não podemos controlar a desinfeção de todos os objetos, mas podemos controlar a lavagem das nossas mãos e mantermo-nos protegidos”, sublinha Miguel Castanho.

Por cá, Graça Freitas, mantém a cautela e deu como exemplo a orientação para transportes públicos que continua a dar muita ênfase à desinfeção das superfícies. Estes transportes “têm indicações muito precisas sobre higienização das superfícies onde as pessoas possam tocar e as pessoas têm obrigação de tocar o mínimo possível nessas superfícies”, frisou a Diretora-Geral da Saúde.

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