Hoje, lojistas e funcionários que por lá permanecem desde o início referem-se ao Amoreiras Shopping Center como um espaço inovador para a época, com público fidelizado que “já vem de há duas ou três gerações”, clientes que são “quase amigos, um familiar” que os visita.

Três anos depois do início das obras, o Centro Comercial Amoreiras foi inaugurado em 27 de setembro de 1985 pelo então Presidente da República, Ramalho Eanes, contando a festa com mais de 10 mil convidados.

Célia Santos é administrativa no Amoreiras desde que este ainda não tinha estreado. “Já me sinto um bocadinho dinossauro”, brinca, explicando à Lusa que quando iniciou funções ia com uma planta nas mãos para não se perder, devido às obras, que estavam a terminar.

“Foi uma surpresa muito grande. Era um conceito totalmente novo, não havia nada parecido, era um risco e seguiu-se com o risco, um grande desafio”, afirma Célia Santos, que nos 35 anos de casa já passou pelas áreas comercial, técnica e de marketing.

Considera que foi tudo “novidade e espanto”, um misto de emoções. Hoje, com outra maturidade adquirida, e embora veja algumas coisas “de forma diferente”, considera o Amoreiras “o melhor centro comercial”, frisando não estar a ser tendenciosa. Toda a envolvência da área onde se insere, diz, faz a diferença também.

Teve alguns receios com a abertura de outro espaço direcionado ao mesmo tipo de clientes não muito longe, mas a quebra nas vendas acabou por não acontecer, já que cada um “tem o seu papel” na cidade.

Fernando Oliveira, administrador da Mundicenter, empresa gestora deste “centro resiliente”, também destaca a capacidade de adaptação perante vários desafios: “Uma forte concorrência, além de ter de ultrapassar crises económicas e financeiras, como todos”.

Uma dessas crises, com “um impacto muito grande”, foi aquando da construção do túnel das Amoreiras, situação ultrapassada com o apoio também dos lojistas.

O administrador, na casa há 18 anos, sublinha que se estabeleceu “uma fronteira do que era o comércio a retalho antes e depois da abertura”, até na publicidade, como ilustra a célebre campanha da alface, com o slogan “o coração alfacinha da cidade”.

Manuel Catarina, hoje com 54 anos, chegou ao ‘shopping’ dois anos depois da abertura.

“Era muito jovem, foi o meu primeiro trabalho a sério. Não havia nada com esta dimensão e variedade. Foi complexo, por um lado polémico, porque rasgava com a arquitetura de Lisboa, e com a oferta de tantas lojas num só espaço. Passavam por cá milhares de pessoas”, recorda.

Pela área geográfica onde se insere, de habitação de valor elevado, o Amoreiras também chamou um público diferente. De um momento para o outro, Manuel Catarina passou a ver à sua frente as pessoas que lhe apareciam na televisão: “O Herman José às compras ou o Júlio Isidro a sair do ‘health club’”. Contudo, os famosos sempre tiveram toda a privacidade e ninguém os incomodava, tal como agora.

O espaço, acrescenta, “sempre foi muito à frente do seu tempo a embarcar na modernidade” e até hoje soube adaptar-se ao crescimento da própria cidade e ao aparecimento de outros centros comerciais.

“Tínhamos poucos anos depois do 25 de Abril, acabados de entrar na CEE, tudo era novidade. Quando tivemos cá o Michael Knight [personagem interpretada por David Hasselhoff na série “O Justiceiro”] e o carro, o “Kit”, em 87, foi uma loucura. Com corridas de seguranças, pessoas, o parque de estacionamento repleto, não estávamos habituados a este tipo de convívio, de quase histeria”, conta.

Ficam também na memória os característicos desfiles de moda que enchiam de pessoas os dois pisos da Praça Central, com os ‘vip’ a marcar presença. Somou-se a Noite dos Óscares, com a participação de atores e atrizes nacionais para seguir o que se passava no 'tapete vermelho' em Hollywood.

Pela sua experiência, Manuel Catarina reconhece que algumas marcas estrangeiras vieram testar no Amoreiras se valia a sua expansão internacional. Começar aqui “era como se fosse pela porta grande, era um género de laboratório de marcas”.

Embora admita que por ter sido o primeiro possa ter “algumas limitações”, o assistente operacional - “os olhos da administração no terreno” pelo trabalho que hoje desempenha - diz que o ‘shoppping’ “continua muito acolhedor”.

“Todos os nossos lojistas continuam na escola de acolher as pessoas, agradar. Temos clientes que são quase nossos amigos, é curioso ver todas as novas gerações dizer que vinham para aqui andar com os pais quando eram mais novos e hoje vêm com os próprios filhos”, exemplificou.

O Amoreiras conta atualmente com uma área total de 45 mil metros quadrados e mais de 200 lojas, 50 restaurantes e sete salas de cinema, possuindo no topo um miradouro de 360º graus.

Além de outros prémios, o complexo das três Torres das Amoreiras valeu aos seus proprietários e ao criador, o arquiteto Tomás Taveira, a atribuição do Prémio Valmor e Municipal de Arquitetura em 1993.

Manuela Saldanha, proprietária da Loja das Meias, diz que esta foi considerada uma “loja âncora” no ‘shopping’, surgido no mapa de Lisboa quando ainda só existiam nem meia dúzia de galerias comerciais.

“Todos os centros têm a sua própria dinâmica e identidade, mas este é diferente, é o topo dos centros comerciais de Lisboa. Há 35 anos era enorme, com dois pisos de lojas, dois pisos de estacionamento, vários cinemas… fez furor na cidade, associado à sua arquitetura”, descreve. A responsável reconhece igualmente a fidelização e orgulha-se de ter clientes dos tempos de abertura que passaram a referência a filhos e netos.

Inês Cateñeira, proprietária do Garden Burguer, uma das primeiras hamburguerias da cidade e desde o primeiro dia no Amoreiras, explica também a importância dos clientes para o sucesso.

“Estamos num cantinho mítico, sempre nos mantivemos no mesmo sítio e quando aconteceu a remodelação da área da restauração estivemos muito tempo com tapumes sem qualquer tipo de dizer. De longe observei as pessoas aos saltos quando viram que finalmente tínhamos aberto e por cá continuávamos, foi muito gratificante”, diz.

Depois de muitos anos, a concorrência surgiu em força, mas conseguiram resistir. “O segredo foi manter sempre a sua essência e é por isso que é impossível falar da história do Amoreiras sem falar no Garden”, sublinha.

Agora, em tempo de pandemia, o desafio é, segundo o administrador Fernando Oliveira, ultrapassar a atual crise, uma preocupação visível na obrigatoriedade da máscara e no distanciamento.

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