A cerimónia decorreu em Oliveira de Azeméis, município de onde é natural José Ferreira de Castro (1898-1974), e evocou o autor que, com romances como "A Selva" e "Os Emigrantes", foi durante décadas o escritor português mais traduzido, como realçou Carlos Reis, presidente do júri que avaliou as quase 70 obras inéditas apresentadas a concurso por autores lusófonos de 15 países.

O ensaísta e professor admitiu que a primeira edição do prémio instituído pela Imprensa Nacional Casa da Moeda em parceria com o Ministério dos Negócios Estrangeiros revelou vários outros talentos literários, mas realçou que os trabalhos de Irene Marques e Marcus Vinicius Quiroga se destacaram ao demonstrar qualidade de escrita e também adequação ao gosto do júri, por muito que esse critério seja "relativo" e, como tal, "questionável".

Em todo o caso, Carlos Reis enalteceu o romance "Uma Casa no Mundo", de Irene Marques, pela "solidez de construção" de um relato sobre identidade e memória no contexto da Guerra Colonial, e elogiou o conjunto de poemas reunido em "Não Viajarei por Nenhuma Espanha", de Marcus Vinicius Quiroga, pela sensibilidade expressa na "unidade temática e estilística" da sua abordagem à cultura ibérica.

Irene Marques agradeceu o prémio e referiu que a sua opção pela carreira literária se pode explicar com uma frase da autoria do próprio Ferreira de Castro: "Eu ‘tinha pão, mas queria mais'. A literatura oferece-me algo que a vida real não oferece. Expande a minha vida, permite-me viver vidas que não experimentaria de outra forma".

Marcus Vinicius Quiroga, por sua vez, dedicou (postumamente) o prémio aos seus avós portugueses, que, oriundos de Viana do Castelo e Vila Real, se conheceram no Brasil e lhe despertaram um interesse duradouro pela cultura e literatura lusas.

Além de um prémio individual de 5.000 euros, os autores de "Uma Casa no Mundo" e "Não Viajarei por Nenhuma Espanha" verão essas obras editadas pela Casa da Moeda, que anuncia para setembro uma primeira tiragem de 500 a 1.000 exemplares para cada título.

O diretor editorial e de cultura da Imprensa Nacional, Duarte Azinheira, classificou a estreia do novo prémio como "um sucesso" e encara a iniciativa como "uma oportunidade de promoção da diáspora portuguesa, que mudou muito nos últimos anos" e envolve agora um tipo de emigração muito distinto daquele que se verificava no século XX, quando o próprio Ferreira de Castro esteve emigrado no Brasil, ainda jovem.

"Depositamos muita esperança neste Prémio como meio particular de divulgação da língua e da cultura portuguesas, em particular da literatura produzida pelos nossos emigrantes e pelos lusodescendentes na diáspora", afirmou.

Também a secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, Berta Nunes, expressou à Lusa essa expectativa, ao notar que "há muitos talentos na comunidade emigrante portuguesa" e que "é importante dá-los a conhecer e valorizá-los", sobretudo quando, no contexto específico da literatura, esses criadores já têm obra editada noutras línguas e noutros países (como acontece com Irene Marques) e ainda não estão disponíveis no mercado nacional, no seu idioma nativo.

Berta Nunes realçou ainda que a difusão desses autores é determinante para uma reflexão apurada sobre problemáticas contemporâneas, como a emigração.

"As experiências vividas na primeira pessoa por estes escritores constituem um relato particularmente valioso da realidade, ajudando a reforçar a própria identidade portuguesa", observou.

O presidente da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis, Joaquim Jorge Ferreira, defendeu que o Prémio Literário Ferreira de Castro, enquanto estímulo à produção de autores na diáspora, facilitará também "a afirmação da cultura portuguesa nas suas comunidades de acolhimento".

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