Num fórum virtual realizado pela agência Efe, intitulado “mulheres isoladas: o aumento da violência contra a mulher durante a pandemia de coronavírus”, o debate entre especialistas contou com a consultora da ONU Mulheres, Ana Paula Antunes, e com Gabriela Manssur, fundadora da “Justiça de Saia”, uma plataforma na ‘online’ que oferece apoio a mulheres vítimas de violência doméstica.

Para Ana Paula Antunes, a violência de género é um problema “brutal, duro e global”, uma “verdadeira pandemia enfrentada há anos” e que mata mais de 1.300 mulheres todos os anos no Brasil.

No entanto, a consultora da ONU apontou que a crise económica e de saúde causada pelo novo coronavírus, que levou milhões de pessoas ao confinamento, “intensificou” a violência de género, sendo que muitas mulheres foram forçadas a compartilhar o mesmo teto com seus agressores.

“Existe um fator comum entre a pandemia e a violência contra as mulheres, que é o medo”, disse.

O medo “é paralisante, compromete a individualidade, o esforço pela autonomia”, reforçou Ana Paula Antunes.

Desde o final de março, vários estados do Brasil, o quinto país com mais feminicídios no mundo, adotaram medidas de isolamento social para travar a disseminação da covid-19, mas permanecer em casa tornou-se “muito mais perigoso” do que sair, segundo as oradoras do fórum.

“A moradia nunca foi um lugar seguro para as mulheres no Brasil. Um lugar que deveria ser acolhedor tornou-se muito perigoso, porque elas estão sob o olhar e o controlo do agressor”, disse Gabriela Manssur, fundadora do projeto Justiça de Saia.

Manssur acrescentou que 87% das mulheres que recorreram ao seu projeto em busca de ajuda foram agredidas dentro de suas próprias casas e por pessoas próximas, na maioria companheiros ou ex-companheiros.

De acordo com dados oficiais, os pedidos de medidas restritivas feitos por mulheres contra os seus agressores aumentaram 30% em São Paulo durante a pandemia, enquanto que no Rio de Janeiro esse aumento foi de 50%.

Para as especialistas, a quarentena e a complexa situação política e social do Brasil são alguns dos fatores que “intensificaram” os conflitos domésticos, especialmente em situações em que já prevaleciam “abusos de poder, agressões psicológicas e verbais, controlo excessivo e machismo”.

A esses fatores junta-se a “tensão” gerada pela dura crise económica pela qual o país atravessa, cujos efeitos começam a ser sentidos em vários indicadores e no desemprego, pontuou Vivian Machado, chefe da área de Diversidade e Inclusão do Grupo Carrefour Brasil.

“A tensão de viver um momento financeiro mais complicado e difícil pode exacerbar a violência em casa”, argumentou Vivian.

Para o mundo pós-pandemia, as participantes concordaram que é “essencial” investir em políticas públicas eficazes para a prevenção da violência sexista, além de criar canais de denúncia de fácil acesso para auxiliar as vítimas.

“É hora de investir na cooperação internacional e nos esforços do Governo que envolvem diferentes atores, articulando a implementação e o aprofundamento da participação social das mulheres”, disse a consultora da ONU Mulheres.

O evento da agência EFE contou ainda com a presença do cônsul geral da Espanha em São Paulo, Ángel Vázquez, o embaixador da União Europeia no Brasil, Ignacio Ybañez, entre outros.

Até segunda-feira, o Brasil contabilizou 23.473 óbitos e 374.898 pessoas diagnosticadas com covid-19, desde o início da pandemia no país, registado oficialmente no final de fevereiro.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 346 mil mortos e infetou mais de 5,5 milhões de pessoas em 196 países e territórios.

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