Depois de ter vencido as eleições presidenciais de 3 de novembro, Joe Biden põe hoje fim ao que tem sido um conturbado processo de transição de poderes ao tomar posse enquanto Presidente dos Estados Unidos da América, sucedendo a Donald Trump. O ambiente, porém, não é de celebração, nem a cerimónia tentará fingi-lo.

Biden vai herdar um país flagelado pelos estragos económicos e humanos causados pela pandemia da Covid-19 e por um clima de convulsão social e clivagem política alimentada pelo seu antecessor, que colocou em causa a sua vitória nas eleições e que é acusado de ter incitado os seus apoiantes a invadir o Capitólio a 6 de janeiro e interromper a certificação dos resultados eleitorais.

O episódio, para além dos cinco mortos que causou, deixou o país em estado de alerta, em particular Washington DC, a capital onde o ataque se deu e onde Biden vai assumir os desígnios do país.

Washington é hoje uma fortaleza militar, onde estão estacionados mais de 25 mil agentes da polícia e membros da Guarda Nacional, muitos destacados de outros estados, alguns deles já instalados na capital desde a semana passada, imortalizados nas fotografias em que foram captados a dormir no chão das alas do Congresso norte-americano.

A sua missão é patrulhar as ruas e guardar o perímetro de segurança junto do Capitólio, delineado com veículos blindados, blocos de cimento, cercas e arame farpado e fechado ao público, sendo apenas acessível a pessoas credenciadas. Dividida entre essa zona vermelha e uma zona verde, mais segura mas acessível também apenas a residentes, Washington mais se assemelha neste momento a Bagdad, no Iraque. Crê-se, aliás, que haja mais forças de segurança que espectadores na cidade. 

A cerimónia da tomada de posse, habitualmente festiva e caracterizada por multidões dispostas ao longo do National Mall — o parque relvado que se estende do Capitólio até ao Lincoln Memorial — já teria contornos distintos devido à pandemia da covid-19, mas os riscos de segurança precipitaram o total encerramento da área. Ao invés, onde estariam pessoas foram colocadas 200 mil bandeiras do país e dos seus 50 estados a simbolizar a sua ausência.

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créditos: AFP or licensors

Dos 12 guardas afastados aos jornalistas com coletes à prova de bala: a segurança mais apertada do que nunca

Desde o primeiro momento em que Donald Trump sugeriu que não se comprometeria a uma transição de poder pacífica que se temeu que este dia de tomada de posse fosse marcado por episódios de violência. O Presidente cessante, entretanto, garantiu uma passagem de pasta tranquila, mas apenas depois de um assalto ao Capitólio abalar o país e obrigar as autoridades a tomar todas as precauções possíveis.

Se uma cerimónia desta natureza já seria alvo de um extenso plano de segurança em condições normais, o ataque de dia 6 levou à adoção de uma política de tolerância zero. Para além disso, as autoridades federais detectaram várias conversas online de grupos milicianos quanto ao possível planeamento de novos protestos, inclusive de uma nova invasão ao Capitólio, não só em Washington DC, como noutros pontos do país.

Por isso mesmo, os EUA estão em alerta máximo desde o passado fim de semana, quando membros da Guarda Nacional foram mobilizados em vários estados e cercas foram erguidas em torno de alguns parlamentos locais, como nos estados da Califórnia e do Minnesota. De resto, alguns protestos pró-Trump decorreram durante o fim de semana, se bem que com menos pessoas do que estava previsto, e apenas alguns pequenos grupos de manifestantes armados se reuniram em estados como Ohio, Texas, Oregon, Michigan e Kentucky, monitorizados por um forte dispositivo de segurança que os superou em dimensão.

Antes do fim de semana, no passado dia 15, um homem fortemente armado foi detido em Washington enquanto tentava passar por um dos muitos postos de controlo perto do Capitólio. Dando pelo nome de Wesley Allen Beeler, o homem, proveniente do estado vizinho de Virgínia, foi detido durante a noite tendo em sua posse uma pistola carregada e mais de 500 cartuchos de munição.

Beeler tentou usar uma acreditação falsa para ter acesso à área restrita onde será realizada a cerimónia e foi detido por acusações que incluem porte de arma de fogo não registada e porte ilegal de munições. O homem, porém, rejeitou qualquer intuito malévolo, dizendo que se perdeu na cidade e que foi parar ao posto de controlo. "Foi um erro de boa fé", disse ao jornal Washington Post, após ser libertado.

Apesar destas ações não terem tido consequências — e de grupos milicianos de extrema-direita como os Oath Keepers e os Proud Boys terem anunciado ficar de fora dos protestos —, o risco, todavia, mantém-se, até porque um relatório dos Serviços Secretos dá conta de que os grupos extremistas responsáveis pelo ataque ao Capitólio consideraram a ação um sucesso passível de ser repetido, sendo força de motivação para novos protestos violentos.

Tais ameaças levaram, por exemplo, Joe Biden a desistir da sua ideia inicial de se deslocar de Wilmington, Delaware, a sua cidade de residência e onde se encontra a sua sede de preparação para a transição presidencial, para Washington de comboio, obrigando-o a seguir de avião para a capital.

Outra das consequências foi o afastamento de 12 soldados da Guarda Nacional do dispositivo de segurança, informou o Pentágono nesta terça-feira, num processo em que o FBI ajudou a fazer “pente-fino” a cada um dos 25 mil militares destacados para despistar ligações à extrema-direita ou ao ataque ao Capitólio e, assim, evitar possíveis ataques a partir de agentes infiltrados. 

Dos 12 removidos, dois foram por "comentários ou textos inapropriados", especificou o comandante da Guarda Nacional, o general Daniel Hokanson, sendo que a razão para o afastamento dos outros 10 é, à data, incerta, mas "não teve nada a ver com os incidentes no Capitólio ou com ligações com extremismos", disse o porta-voz do Departamento de Defesa, Jonathan Hoffman, que adiantou que esta ação foi tomada “por excesso de cautela”.

Para que se compreenda o nível de alerta atualmente vigente, sucedeu-se até à data outro sobressalto, quando na segunda-feira o ensaio para a cerimónia de tomada de posse foi interrompido devido “a uma ameaça externa”, levando à retirada dos participantes — nem Biden nem Harris estavam presentes — para o interior do Capitólio, tendo de ficar confinados e de manter-se afastados das janelas.

Mais tarde, soube-se que a causa do alarme foi apenas um pequeno incêndio num campo de tendas para pessoas em situação sem abrigo nas redondezas, causado pela explosão de um aquecedor que uma mulher — que susteve apenas ferimentos ligeiros — ligou para se tentar manter quente. A proximidade ao Capitólio, todavia, motivou a tomada das mais estritas regras de segurança.

Igualmente cautelosas estão algumas redações dos meios de comunicação que irão enviar jornalistas para cobrir a inauguração, tendo munido os seus repórteres de coletes à prova de bala e máscaras de gás, assim como providenciado formação quanto ao que fazer se houver incidentes violentos. Pelo menos nove jornalistas foram atacados durante o assalto ao Capitólio de dia 6.

De resto, a própria cidade de Washington está a fazer de tudo para evitar a violência e impedir que as pessoas se desloquem para assistir à cerimónia, sendo que a circulação de automóveis e o transporte público foram afetados pelo dispositivo de segurança. Para além disso, tanto a plataforma de aluguer Airbnb como várias cadeias hoteleiras anunciaram o cancelamento e o bloqueio das reservas na capital durante esta semana. Já a companhia aérea Delta advertiu, que os passageiros que voarem para a capital não poderão transportar armas na bagagem e serão sujeitos a controlos especiais.

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Com Trump em Mar-a-Lago, Pence vai estar ao lado de Biden

Nas derradeiras horas da sua presidência, Donald Trump não comparecerá na cerimónia para simbolicamente passar a pasta a Joe Biden, voando para o seu clube em Mar-a-Lago, na Flórida, a partir de onde deverá assistir televisivamente à tomada de posse, na companhia de alguns assessores.

No entanto, em consonância com o que foi o seu mandato presidencial, não só o presidente cessante não estará em Washington, como vários meios de comunicação avançam que Trump tentou marcar a sua própria cerimónia de saída, para decorrer nesta manhã, antes da tomada de posse.

Marcada para a Base aérea Andrews, no estado de Maryland e onde se encontra estacionado o avião presidencial Air Force One, Trump queria alegadamente que a cerimónia tivesse uma forte presença militar, mas o Pentágono não terá autorizado, especialmente tendo em conta os acontecimentos de 6 de janeiro e o facto do Presidente cessante ter sido alvo de impeachment pela segunda vez no seu mandato. Ao invés, autoridades estarão a preparar um evento que se assemelhará, em termos de figurino protocolar, a uma visita de Estado, com um tapete vermelho, banda militar e saudação de 21 tiros.

Mas se Trump não estará presente em Washington para a tomada de posse de Biden — nem receberá o novo inquilino da Casa Branca, marcando nova quebra na tradição —, o mesmo não se pode dizer do seu vice-presidente Mike Pence, que confirmou a sua presença no Capitólio.

Marcada para as 11:00 horas em Washington (16:00 em Lisboa), a cerimónia de tomada de posse terá início após Biden chegar com a caravana presidencial ao Capitólio, subindo a um palco montado na escadaria ocidental do edifício em frente à vasta esplanada do National Mall. 

Após as apresentações musicais das cantoras Jennifer Lopez e Lady Gaga, que cantará o clássico "Star-Spangled Banner", Biden e Kamala Harris, a sua vice-presidente, farão o juramento precisamente às 12:00 horas, respeitando assim a 20ª emenda da Constituição dos EUA. A récita do juramento será levada a cabo por Andrea Hall, a primeira mulher afro-americana a tornar-se capitã do departamento de Bombeiros de South Fulton, no estado da Georgia.

Seguir-se-á então o discurso inaugural do já Presidente, que deverá ter entre 20 a 30 minutos e no qual expressará a sua perspectiva de "derrotar a pandemia, reconstruir, unificar e curar a nação", de acordo com o comité organizador. Ao todo estarão presentes 2000 pessoas, entre as quais 200 convidados sentados com distanciamento social e munidos de máscara.

Antes de ir ao Capitólio, porém, Biden desloca-se ainda à Catedral de São Mateus, para assistir a uma missa com os líderes do Congresso de ambos os partidos, numa tentativa de amenização política. Estarão presentes então a presidente da Câmara dos Representantes, a democrata Nancy Pelosi, o líder democrata no Senado, Chuck Schumer, e os líderes republicanos de ambas as casas, Kevin McCarthy e Mitch McConnell.

Já depois da cerimónia da tomada de posse, no início da tarde, Biden viajará para o Cemitério Nacional de Arlington, não muito longe do Capitólio, para deixar uma coroa de flores no Túmulo do Soldado Desconhecido, junto com os ex-presidentes Barack Obama, George W. Bush e Bill Clinton e as suas respectivas esposas (Jimmy Carter, o mais velho ex-presidente ainda vivo, não vai comparecer). O Presidente retornará então em caravana à Casa Branca, parando a algumas dezenas de metros para que Biden entre a pé, cercado por uma escolta militar. Já instalado, deverá assinar os seus primeiros decretos presidenciais logo de seguida.

Órfã de público, a cerimónia será alvo de uma extensa cobertura televisiva, que contará com um programa especial transmitido por vários canais e com a participação de várias figuras do mundo do espetáculo, começando à tarde e estendendo-se pela noite dentro.

Apresentado pelo ator Tom Hanks, Biden e Harris falarão à nação durante o especial, intitulado "Celebrando a América", e que contará com muitos convidados musicais a tocar de vários pontos do país, incluindo Jon Bon Jovi, Foo Fighters, John Legend, Demi Lovato, Bruce Springsteen, Justin Timberlake e Luis Fonsi, entre outros.

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