Há muitas formas diferentes de definir os Estados Unidos da América: tudo depende das lentes com que se queira olhar para este imenso país continental. Há uma, porém, que é consensual, a de que esta é uma nação assente nas mais profundas contradições. Hoje foi um dia onde isso ficou bem evidente.

Depois de uma tentativa falhada na passada quarta-feira, hoje o mau tempo na Flórida deu tréguas e o Falcon 9 pôde descolar do Centro Espacial Kennedy, propulsionando a cápsula com dois astronautas norte-americanos em direção à Estação Espacial Internacional.

O dia foi um marco histórico por diversas razões: não só foi a primeira vez desde 2011 que os EUA conseguiram colocar astronautas no espaço de forma autónoma — nestes últimos anos estiveram dependentes da Rússia depois de sucessivos desinvestimentos na NASA — como foi uma missão ineditamente realizada por uma empresa privada, a SpaceX.

Formada em 2002, a empresa do magnata Elon Musk passou por inúmeras etapas — se o Falcon 9 tem este nome, é porque houve outros oito modelos para chegar até aqui, e o próprio modelo já fez viagens não tripuladas — e, se tudo correr bem (os astronautas ainda têm de chegar à ISS e depois regressar em segurança), este pode significar um novo paradigma na exploração espacial.

Depois de ter colocado um carro Tesla vermelho em órbita em 2018 e de ter batido recordes de lançamento de satélites para procurar dotar toda a humanidade de Internet, Musk — ele próprio uma personalidade polarizante e controversa — vê-se assim mais próximo do seu sonho de chegar a Marte e tornar as viagens espaciais acessíveis a civis (e a Tom Cruise).

Naturalmente que, sendo uma missão realizada em conjunto com a NASA, o Governo norte-americano não quis deixar de comparecer nas cerimónias, com Donald Trump a assistir ao lançamento.

Mas Trump deslocou-se ao Cabo Canaveral sabendo que tem um país neste momento a ferro e fogo, e este passo dos EUA foi dado em direção ao futuro com inúmeras mãos a puxá-lo de volta ao passado.

“Eu não consigo respirar”. Estas foram as palavras de George Floyd, ditas antes de morrer às mãos de Derek Chauvin, polícia que o deteve de forma extremamente violenta na cidade de Minneapolis. Porém, também foram as de Eric Garner, igualmente morto por um agente da autoridade, desta feita em Nova Iorque. Aquilo que os separa são seis anos entre as suas mortes; o que os une, é o facto de ambos serem afro-americanos.

A última década viu os EUA serem varridos por inúmeros casos de homens e mulheres que morreram em contexto de abuso policial, tendo como característica comum serem de raça negra. Trayvon Martin, Michael Brown, Keith Lamont Scott ou Willie McCoy foram apenas alguns dos nomes que deram azo a uma frase que se tornou um mote para uns, um lema de vida para outros: Black Lives Matter (As Vidas Negras Importam).

A morte de Floyd voltou a trazer todas as tensões raciais ao de cima num país que nunca pareceu saber superá-las. Ontem foi a quarta noite consecutiva de motins e protestos em várias cidades do país, e durante esta madrugada, o cenário dantesco de chamas e confrontos parece voltar a repetir-se e agravar-se.

Para Mineápolis, epicentro dos desacatos, foram destacados 1000 agentes da Guarda Nacional, ou seja, neste momento o exército já está nas ruas nos EUA e Donald Trump já fez questão de saber que não tem medo de pedir mão pesada e de executar ordens de disparo. Aliás, foi isso que o fez ser novamente penalizado na sua rede social preferida.

As roupagens são outras, mas há algo nestes desenvolvimentos que fez o país retornar aos anos 60, nem que seja pelas frases que o presidente emprega. A mesma década que levou os EUA à Lua numa demonstração de poderio mundial foi a que foi pintada de vermelho pela luta dos direitos civis por ativistas negros e os inúmeros motins que a flagelaram. É caso para dizer que a História não se repete, mas rima.

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