Tudo começou há menos de dois meses. Um conjunto de coletivos, dedicados a temas como a crise climática, a habitação, a educação, a saúde, juntou-se no final de abril. No início de maio estava convocada a manifestação.

“Não existe um plano sério para resgatar as pessoas e para reorientar a economia para o cuidado com a vida, sentimos que tínhamos mesmo de organizar algo para o início do primeiro momento de pós-confinamento”, explicou ao SAPO24 Diogo Silva, porta-voz e co-organizador do movimento “Resgatar o futuro, não o lucro”.

Entretanto, por causa do contexto da luta antirracista que existe neste momento e de toda a onda de protestos nos EUA, juntámos forças com outro movimento que se criou muito mais rapidamente”, acrescentou. “Hoje estamos a mobilizar contra o racismo para resgatar o futuro”.

“Decidimos desafiar os coletivos que estão nesta manifestação de hoje para dar uma centralidade política à questão racial, tendo em conta o momento político que vivemos”, contou-nos Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo, uma das organizações promotoras da manifestação “Vidas Negras Importam” e uma das principais vozes na luta contra o racismo em Portugal.

O responsável destacou a rapidez e eficiência do “esforço de convergência que existiu entre os movimentos”: “É uma coisa inédita em Portugal, num tempo tão curto, conseguirmos consensualizar uma manifestação convocada por uma diversidade de organizações que se centrasse e que desse prioridade à questão racial atendendo àquilo que tem acontecido e que está acontecer pelo mundo fora”.

A 25 de maio, George Floyd, um norte-americano de 46 anos, foi morto na rua por suspeita de ter usado uma nota falsa de 20 dólares (cerca de 18 euros). As imagens de um polícia a pressionar o joelho sobre o pescoço do homem, durante quase nove minutos, levando à sua asfixia, deram origem a uma onda de protestos nos Estados Unidos, que se prolonga há quase duas semanas, e em várias partes do mundo.

Milhares marcharam pacificamente pelas ruas de Lisboa. De máscara, mas com pouca distância

A mobilização na capital do país juntou mais de cinco mil pessoas. O ponto de encontro estava marcado para as 16h45 na Alameda D. Afonso Henriques, e a marcha começou pouco depois das 17h e percorreu, durante mais de duas horas e meia, a Avenida Almirante Reis até ao Largo do Martim Moniz e, finalmente, Terreiro do Paço.

Com bombos a marcar o ritmo, o ‘grito’ de protesto mais ouvido foi “Black Lives Matter” ("Vidas Negras Importam"), mas os cartazes que muitos seguravam tinham centenas de outras mensagens como “não quero ter medo da PSP”, “a quem ligamos quando a polícia mata”, “stop killing us” ("parem de nos matar"), “isto não é um filme americano” ou “a roupa para lavar é a única coisa que se deve separar por cores”, relata a agência Lusa.

À frente, vários agentes da PSP abriram caminho, num convívio entre forças policiais e manifestantes que se fez de forma pacífica. Nos EUA, tem havido vários casos de confrontos entre a polícia e os protestantes.

Uma das preocupações da organização era garantir que “todos os cuidados” de saúde eram salvaguardados, tendo sido disponibilizada no site “informação muito explícita" sobre como é que as pessoas se podiam organizar e havendo pessoas destinadas a assegurar “todos os cuidados e toda a segurança” no local também, detalhou Diogo Silva, garantindo que a manifestação foi autorizada pelas entidades competentes.

No entanto, a distância social imposta pela prevenção da covid-19 não foi cumprida, embora a maioria dos manifestantes estivesse de máscara.

Várias cidades portuguesas juntaram-se ontem à campanha de solidariedade mundial contra o racismo.

O racismo não acabará por magia

Mamadou Ba disse-nos que consideraria bem sucedida a manifestação de ontem se “conseguisse trazer para a rua as vítimas do racismo” e se, ao mesmo tempo, tivesse “também uma boa presença das pessoas da maioria da sociedade”, porque este “não é só um problema das pessoas racializadas”. “O futuro coletivo da sociedade portuguesa depende da forma como conseguimos enquanto comunidade combater o racismo”.

Questionado sobre o que estará a mobilizar tanto as pessoas, em particular desde a morte de George Floyd, o responsável identificou dois motivos. Por um lado, “a capacidade de trazer maior consciência global relativamente ao fenómeno racial”, desde o “assassinato do Eric Garner [2014] e do Trayvon Martin [2012], que deram origem ao movimento Black Lives [Vidas Negras Importam], que depois se replicou por várias partes do mundo”. Por outro lado, “a necessidade de mobilização para enfrentar a extrema-direita”, que tem visto “um crescimento um pouco por toda a parte”.

O racismo “é um problema da democracia. Não é viável uma democracia em que haja pessoas que são questionadas por aquilo que são, por serem negras”, afirmou Mamadou Ba.

“Vamos imaginar que amanhã acordamos e que, durante a noite, se deu uma magia e estamos num mundo sem racismo mas ninguém nos avisou. Quando saímos à rua, o que é que vemos à nossa volta que nos mostra que estamos num mundo sem racismo?”, perguntámos a Mamadou Ba. A resposta fez-se acompanhar de alguns risos e de um alerta: o racismo não acabará por magia. O desafio era apenas um exercício para identificar alguns exemplos que ajudem a ilustrar a experiência do racismo no dia a dia.

“[O mundo sem racismo] é quando eu, enquanto pessoa racializada, sair à rua e não for olhado de lado, não for impedido de entrar num espaço porque sou negro, ninguém for impedido de alugar uma casa porque ser negro, puder andar sem ter medo de ser revistado ou seguido numa loja, puder entrar em qualquer espaço público sem que alguém disso faça um problema”, descreveu Mamadou Ba.

“No dia em que eu conseguir ser tratado com dignidade na rua, nesse dia não haverá racismo, digo eu”, terminou.

Várias causas, uma raiz?

Quando perguntámos a Diogo Silva o que é comum aos dois movimentos - “Resgatar o futuro, não o lucro” e “Vidas Negras Importam” -, o responsável rapidamente respondeu: “Em primeiro lugar, é esta questão de sermos contra o racismo. Defendemos que a situação atual do racismo em Portugal é estrutural. Não são casos pontuais de racismo. Vivemos num país em que a cor da pele condiciona as oportunidades que as pessoas podem ter na vida”, avançou.

Depois, acrescentou, “é a questão de todos identificarmos que, da mesma forma que existe um racismo estrutural, existe um sistema económico que promove todas estas divisões estruturais” e que “não permite uma vida digna a todas as pessoas, independentemente das suas condições”.

“Estamos a juntar aqui a luta pela justiça climática, a luta antirrascista, a luta feminista, a luta pela habitação, pela saúde, porque tudo tem a mesma raiz, que é o sistema económico em que vivemos”, resumiu.

“É isso que estamos a defender hoje: que tenhamos serviços básicos universais para todas as pessoas, independentemente da cor da pele e de quaisquer outras condições, e que também que se reoriente a economia para o cuidado com a vida”.

Uma economia orientada para o cuidado com a vida. O que é isso?

“Tem de ser uma economia em que tanto a saúde, como a educação, a alimentação, a habitação, têm de ser serviços básicos universais a que todas as pessoas têm acesso. É algo que hoje em dia não existe”, considera Diogo Silva. “Independentemente de até podermos ter um Serviço Nacional de Saúde, ainda assim não é suficiente e vimos isso durante esta pandemia”, exemplificou Diogo, licenciado em economia.

Diogo e o movimento que representa consideram que o plano que o Governo português apresentou para recuperação da economia “é manifestamente insuficiente”: “É um plano que está muito orientado para o resgate às empresas, e não às pessoas, com uma premissa base que é de que se se resgatarem as empresas se está a resgatar as pessoas, que é uma premissa que identificamos como falsa”.

“Por outro lado”, continuou, “precisamos mesmo de travar a crise climática, um fator essencial da orientação da economia”. “Temos de reduzir emissões de gases com efeito de estufa a uma velocidade sem precedentes e isso não é de todo aquilo que o Governo está a fazer neste momento”, defendeu.

No fundo, segundo Diogo, é uma questão de mudança de foco: passar de “uma vida ao serviço da economia” para uma “economia para o cuidado com a vida”.

Hoje foi “um primeiro grande momento de mobilização pós-confinamento, mas não será de certeza o último”, adiantou Diogo. “Já estamos a convocar também uma nova mobilização para o final de julho, com data a anunciar. Além disso, sabemos que em setembro voltamos todos à rua de certeza absoluta”, afirmou em nome do movimento “Resgatar o futuro, não o lucro”.

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