Foi o caso de Nuno Miguel Santos, de 35 anos, que começou a ser seguido no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, há cerca de seis meses.

Com 270 quilogramas no arranque deste acompanhamento hospitalar, o assistente comercial de ‘call center’ foi finalmente sujeito a uma cirurgia bariátrica na última quarta-feira, quando pesava 214 quilogramas, depois de quase dois meses de espera imposta pela pandemia do novo coronavírus.

“Não basta a cirurgia, é precisa força de vontade. Era para ter feito a cirurgia em março ou no início de abril, porque já andava com muita dificuldade com as muletas e era só mesmo para ir à casa de banho. Isso também me obrigou a ter de me aguentar”, conta à Lusa Nuno Miguel Santos, que sempre teve um historial de excesso de peso e já era acompanhado noutra unidade hospitalar há cinco anos sem resultados visíveis.

A espiral de obesidade tornou-se irreversível a partir de 2014, quando começou a ter ataques de ansiedade. Ato contínuo, uma depressão atirou-o para o “fundo de um poço”, onde já não queria mais estar com os amigos ou ter o prazer de cozinhar para a família. E nem o facto de ter uma mãe que também é médica conseguiu evitar a chegada a um ponto de não retorno, apesar de todos os esforços em sentido contrário.

“Não tinha mais a que me agarrar, por isso agarrei-me à comida. Desta vez, o clique foi mesmo ter ficado o Natal e a passagem de ano em casa, sem conseguir estar com os meus amigos ou a minha família. Passei-os a chorar”, recorda, acrescentando: “Percebi que tinha mesmo de fazer [a cirurgia], senão ia morrer. E eu gosto de viver. O que posso dizer é que estou preparado para levar isto até ao fim. Ainda não acabou, mas vou conseguir”.

No Hospital da Cruz Vermelha (HCV) encontrou o apoio do médico Rodrigo Oliveira, diretor do serviço de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, e da respetiva equipa. Com mais de 7.000 doentes com obesidade operados ao longo da carreira, o cirurgião, de 50 anos, destaca o caso de Nuno por se situar numa categoria de “super obeso”, pouco comum em Portugal.

“O Nuno estava praticamente no momento de ser operado quando apareceu a pandemia e foi interrompido quando precisava de continuar o tratamento. Mesmo com este cenário da covid-19, ele é um doente de alto risco e precisava de continuar. Podia perder o ‘timing’, voltar a engordar e todo aquele tratamento de seis meses podia ser perdido”, observa o clínico, que conduziu a cirurgia ao longo de quase duas horas, juntamente com dois anestesistas, uma assistente e três enfermeiros.

O caso de Nuno Santos é um exemplo extremo de um retrato da população portuguesa, em que 67% tem sobrepeso ou obesidade, “ou seja, vive em risco de desenvolver várias patologias, como diabetes, hipertensão ou enfarte agudo do miocárdio”, sustenta Rodrigo Oliveira, que aponta ainda a obesidade – diagnosticada quando o índice de massa corporal é superior a 30 - como “epicentro das principais doenças do mundo” e como fator de risco determinante para o óbito na covid-19.

“O principal fator que leva à morte no doente com infeção pela covid-19 é a obesidade. Há um estudo americano com 5.000 doentes que mostra que a cada 10 doentes que morreram pela covid-19 na Europa, sete eram obesos. Várias pesquisas estão a avançar com o intuito de identificar porque é que no doente obeso a doença foi tão grave e identificámos um fator inflamatório: a interleucina-6”, explica.

Sublinhando a complexidade de uma doença que “passa por todos os órgãos do corpo humano e todas as especialidades médicas”, o cirurgião, natural do Rio de Janeiro, lamenta ainda o “tabu” que diz existir na sociedade em relação à obesidade e a resistência política para ver como uma prioridade médica uma patologia que já figura na lista de doenças da Organização Mundial de Saúde desde 1980.

“A maior fila de espera no Serviço Nacional de Saúde é hoje para a cirurgia de obesidade. É muito impactante uma paragem destas nestes doentes. Se nesta pandemia os não obesos já engordam um bocadinho, imagine um doente obeso”, afirma Rodrigo Oliveira, deixando um alerta: “Portugal é o quinto país do mundo com mais obesos per capita. A abordagem tem de mudar muito.”

Portugal contabiliza 1.289 mortos associados à covid-19 em 30.200 casos confirmados de infeção, segundo o último boletim diário da Direção-Geral da Saúde sobre a pandemia.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 335 mil mortos e infetou mais de 5,1 milhões de pessoas em 196 países e territórios.

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