Depois de dois meses de confinamento, em muitos países — em particular na Europa —, as restrições foram aliviadas neste fim de semana. Com isso, os adeptos de futebol puderam sentar-se em frente à televisão para reviver velhas sensações, ou sair para tomar uma bebida e, para os mais privilegiados, até molhar os pés na água do mar.

A Bundesliga foi o primeiro grande campeonato a ser retomado. Depois dos jogos de sábado, o Bayern de Munique, líder da competição, voltou a campo neste domingo e venceu por 2 a 0 o Union Berlim num jogo sem público, sem apertos de mão e sem crianças a acompanhar os jogadores.

Mais de cinco meses após o surgimento na China, a pandemia que colocou a economia mundial em xeque segue a sua corrida mortal, embora em três dos países mais afetados neste fim de semana o número de mortos tenha sido o mais baixo desde que foram impostas as medidas de confinamento.

Tanto Itália, quanto Espanha e Reino Unido, que registaram respetivamente 145, 87 e 170 óbitos nas últimas 24 horas, pareciam ver a luz no fim do túnel neste domingo.

É preciso, no entanto, levar em conta que estes números de fim de semana podem estar incompletos, como já aconteceu no passado.

A África do Sul, pelo contrário, anunciou neste domingo 1.160 novos contágios, o balanço diário mais alto desde 1 de março, quando começaram os registos.

Enquanto isso, na América Latina, o Brasil superou a barreira das 16.000 mortes e os 240.000 casos neste domingo.

Os especialistas consideram que as estatísticas ocultam uma realidade muito mais trágica, enquanto o presidente Jair Bolsonaro continua a criticar o confinamento decretado por alguns governadores.

"Desemprego, fome e miséria serão o futuro daqueles que apoiam a tirania do isolamento total", escreveu o presidente brasileiro no sábado, na rede social Twitter.

Neste domingo, Bolsonaro voltou a participar num ato em Brasília, acompanhado por vários dos seus ministros. Usando máscara, cumprimentou centenas de seguidores que se aglomeraram em frente ao Palácio do Planalto para apoiá-lo.

A região da América Latina e do Caribe superou os 508 mil casos de contágio e dos 28.700 mortos por covid-19.

"Ficar para trás"

Os Estados Unidos, o país mais afetado do mundo em números de casos e mortos por covid-19, registou neste domingo uma queda na contagem de mortes diárias, com 820, elevando o total de óbitos a quase 90 mil.

No país, que totaliza 1.486.376 casos de contágios do novo coronavírus, enquanto aumentam as críticas ao presidente Donald Trump pela gestão da pandemia, a Casa Branca criticou duramente o trabalho dos Centros de Prevenção e Controle de Doenças (CDC), que culpou pelos atrasos iniciais do país na deteção da doença.

"No começo da crise, os CDC, que desfrutavam da maior reputação nesta área em nível mundial, realmente dececionaram o país nas testagens", afirmou o assessor económico da Casa Branca, Peter Navarro, à emissora NBC.

"Além disso, conceberam um teste mau. E isso fez-nos ficar para trás", acrescentou.

Na Europa, milhões de pessoas aproveitam o primeiro fim de semana de relativa liberdade.

A França abriu muitas praias. Várias delas foram literalmente inundadas de pessoas ansiosas para dar um mergulho depois de dois meses em casa.

"Eu realmente senti falta da praia. Estávamos apenas à espera disso: o anúncio da reabertura!", celebra Nathanael, de 28 anos, em Saint-Malo (oeste).

Neste país que registou mais de 28.100 mortes, as viagens ainda são limitadas a um raio de 100 quilómetros de casa, e as praias são reservadas para atividades "dinâmicas", sem a possibilidade de se deitar na areia para apanhar sol, como em Portugal.

"Risco calculado"

A Grécia também abriu as suas praias particulares, mas com a condição de que sejam respeitadas algumas instruções estritas, como a proibição de colocar um guarda-sol a menos de quatro metros do vizinho. As praias públicas abriram a 4 de maio.

No Reino Unido, que totaliza 34.600 mortes por covid-19, as pessoas correram para os parques, dificultando o respeito às medidas de distanciamento social, no primeiro fim de semana de flexibilização do confinamento.

A Itália (mais de 31.900 mortos), muito dependente do turismo, anunciou a suspensão da quarentena obrigatória para todos os visitantes estrangeiros e a reabertura das fronteiras para todos os turistas da União Europeia a partir de 3 de junho.

"Enfrentamos um risco calculado, sabendo que a curva epidemiológica pode subir de novo", afirmou o primeiro-ministro, Giuseppe Conte.

A Espanha, onde foram registadas 27.650 mortes, pretende reabrir as fronteiras aéreas para espanhóis e residentes na Espanha.

Anúncios unilaterais de reabertura de fronteiras estão em debate na União Europeia, cuja Comissão deseja uma reabertura "concertada" e "não discriminatória" de fronteiras internas.

O facto de proceder unilateralmente "não fortalece o que devemos fazer para trabalhar em solidariedade", defendeu o ministro francês do Interior, Guillaume Castaner.

Vigilância na China

A Grécia também suavizou as restrições nas fronteiras para facilitar a chegada de mão de obra estrangeira essencial para a agricultura, especialmente no caso dos vizinhos albaneses, que não são membros da UE.

"Sem os albaneses, não teríamos nem um pêssego", diz Panagiotis Gountis, agricultor de Veria, no norte do país.

Já a Noruega teve de abrir mão de atos previstos para este 17 de maio, dia da sua Festa Nacional, no qual muitos noruegueses se contentaram em cantar o hino a partir  das respetivas varandas.

A Índia prolongou em duas semanas as medidas de confinamento, até 31 de maio, mas revelou que algumas emendas poderão ser aprovadas para "facilitar a atividade económica".

Na Nova Zelândia, a primeira-ministra Jacinda Ardern não conseguiu entrar num café, devido às regras de distanciamento social definidas pelo seu próprio governo. Ela queria tomar um café com um grupo de amigos na capital, Wellington, mas foi impedida. O local já tinha atingido o número máximo de pessoas permitido.

Neste domingo, o Qatar começou a aplicar as sanções mais severas do mundo contra pessoas que não usem máscara de proteção em público. O infrator pode ser condenado a até três anos de prisão e a multas de mais de 50 mil euros.

Em todas as partes do mundo, vigilância é a palavra de ordem, enquanto se espera uma possível vacina. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta regularmente contra o risco de uma segunda onda de infeções.

Na China, onde o coronavírus estava sob controlo, as autoridades levam essa possibilidade muito a sério.

"Enfrentamos um grande desafio", disse à CNN Zhong Nanshan, um dos principais assessores do Ministério da Saúde, observando que uma "maioria" de chineses "provavelmente será infetada" no futuro.

Zhong também reconheceu que as autoridades de Wuhan, o epicentro da pandemia, ocultaram a amplitude da pandemia quando ela surgiu no final de dezembro.

Nesta segunda-feira (18), os 194 Estados-membros da OMS farão uma reunião por teleconferência para tentar coordenar a resposta à pandemia, um compromisso sob a ameaça de um confronto direto entre Washington e Pequim.

*Por Christophe Beaudufe, com José Vicente Bernabeu em Paris e delegações da AFP no mundo