Diário de um Pai em Casa. Dia 48


Chega ao fim este Diário. As minhas histórias aqui relatadas. Uma confissão diária que nunca pensei alguma vez conseguir fazer. Mas não chega ao FIM esta caminhada iniciada há mais de 45 dias com a declaração do Estado de Emergência. Entramos na fase de Estado da Calamidade de sobreaviso que podemos dar sempre um passo atrás, antes de dar meio passo à frente.

Olho para este dia como o fim de um princípio e não como o princípio de um fim que nos está destinado. Porque sei que tudo o que experienciamos e estamos a viver terá um fim em si mesmo.

Olho para trás e apercebo-me que a promessa de viagens vínicas diárias depressa se esfumaram com a perceção que não seria um recolhimento que passasse num abrir e fechar olhos.

Mas não foi essa a razão. Quis ter uma memória bem presente destes tempos. Que não sei se são, ou não, irrepetíveis.

Uma reminiscência não me bastava. Queria fotografar tudo o que acontecia, minuto a minuto. Quis viver acordado, ver o que se passava dentro de casa e no mundo que nos rodeia.

Recordar-me dos meus cães que vivem agora à porta da minha cozinha, do meu vizinho de baixo, que bebe e fuma nas escadas com vistas para um quarteirão virado para dentro, do som das aulas de música que sopram da casa que está à venda.

Relembrar-me do bairro que hibernou, do casal de velhos, de mão dada, que foi indo todos os dias só ali às compras, de sentir o comércio local autorizado, passear em ruas desertas de Lisboa, das máscaras que tardavam em chegar, das conferências de imprensa diárias, com direito a perguntas e respostas, passando pelos dislates que escutava nos EUA e Brasil, às tragédias vividas em Espanha e Itália, os lives do Bruno Nogueira, os concertos diários ou o futebol, ténis, râguebi revisitado porque não há nada para ser visto ao vivo.

Queria apalpar uma maternidade a despertar em mim. Sim, porque se à partida diria que estar em casa com os filhos, em especial com um de seis anos de quem faço de tutor escolar, seria um sonho de uma qualquer mãe que rapidamente se tornaria um pesadelo de um pai, revelou-se surpreendentemente o oposto.

Esta relação com o outro estende-se obviamente aos demais filhos. Com uns fui ter com o mundo deles e não impus que viessem ao meu. Um processo moroso, sim, com discussões, sim. Não é imediato. Nem está a ser fácil.

Se ao princípio, logo nos primórdios, temi o pior, de que a casa viraria um caos, que ninguém se entenderia na organização de espaços, depressa todos eles me surpreenderam. Cada qual no seu canto. Ligados. O dia escolar todo. Sem atropelos.

Se, no início, logo ao princípio, estava mais desperto em apanhar o copo de água esquecido na sala, rapidamente dei-me conta de quão ridículo estava a ser. O que era uma casa tentativamente arrumada quando o mundo se desmoronava.

No meio do turbilhão inicial em que vivi, a serenidade da Urbi et Orbi do Papa Francisco e a Via-Sacra, a que assisti, em silêncio e sem aviso prévio, marcou um ponto de viragem na forma como deveria abordar o tema doravante.

Deposito e reforço a minha fé na ciência. Seja a medicina ou a matemática. O mundo está nas suas mãos e nas nossas na forma como vamos lidar com cada um de nós.

Todos os dias, quase religiosamente, fui falando com amigos. Uns à hora marcada, outros quando podia.

Falei com quem está na linha da frente disto tudo e que não vê a mulher e filhos desde meados de março. Com quem tem empresas e que não sabiam como e quando podiam retomar a atividade e que se viram forçados a fazer contas à vida, entre lay-offs e decisões de garantir ordenados a quem tinha tido filhos no mês antes.

Falei com pais e mães. As suas experiências. Falei com o meu pai e com a minha mãe. Sem temas marcados. Da banalidade à profundidade.

Saí em reportagem. Mergulhei (com a Comunidade Vida e Paz) no mundo dos sem-abrigo e da sua aflição. Fiz entrevistas com quem tem a seu cargo os idosos (Misericórdias), aqueles a quem temos sempre que dar a mão pela história que carregam consigo e não apontar que são eles as vítimas descartáveis do presente.

Dei notícias de um mundo empresarial e de uma sociedade civil que se uniu e senti os pés a tremeram, o mundo a ruir, com a possibilidade de não ter, daqui a uns tempos, um lugar para escrever.

Sim, o setor dos media e comunicação, onde construi toda a minha vida profissional, deparou-se com o maior desafio que provavelmente enfrentou ou imaginou. Ver a redação do SAPO24 em que cada qual em suas casas, uma nova temporada do programa The Next Big Idea que se estreou durante o Estado de Emergência (na SIC Notícias) ou ver um jornal desportivo (A Bola), trabalho esse extensível a todos os meios de comunicação social, online, papel e televisão, serviu-me de doses diárias de kryptonite.

Voltei a ouvir música enquanto trabalhava. Criei a minha playlist. Infelizmente não tive tempo para o tsunami de séries anunciadas nas redes sociais. Felizmente não fui convidado por ninguém para apresentar o Top 10 de livros e discos.

Resisti à tentação de deixar crescer a barba ou cortar o cabelo à Ronaldo. Necessito de cortar o cabelo, sim, mas quem o fará é quem sempre o fez. Ponto.

Descobri que há um epidemiologista, virologista, pneumologista, matemático, investigador em casa janela da Internet. Fiquei contente de não sermos só um país com jeito para o pontapé na bola. Temos também gigantes profissionais de saúde e professores que viraram estrelas de apresentação.

Ao longo destes 45 dias fiz dezenas e dezenas de quilómetros a correr. Pela cidade e à beira-rio. Eu e os meus ténis. Grande parte mergulhando na escuridão e submerso nos meus pensamentos. Ajudou-me, e de que maneira, a viver tudo isto.

Tenho saudades do mar e de um jogo/treino de râguebi. Segunda-feira pego na prancha e entro dentro de água. Depois publico as fotos da libertação.

Isto não acaba aqui. Permanecerei em casa não só até à data que me autorizarem voltar à redação. Em casa ficarei até finais de junho porque é aqui que permanecem os quatro filhos ligados ao Zoom. Por isso, terei que me desdobrar até lá.

Será a nova normalidade. A minha realidade mais próxima.

Para o fim, algo que é dito sempre no início. Obrigado Zezinha. Para quem não conhece, é a minha mulher.

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