Vivo mesmo ao lado de um desses enormes centros comerciais na margem exterior da Circunvalação, no Porto. Durante todo este tempo, fui lá várias vezes. O monumento era um lugar sombrio: os corredores, se não estavam fechados, estavam vazios. Desertos de gente, de fachadas escondidas, com os manequins glamorosos debaixo de coberturas — à espera.

Hoje é o dia do regresso. Não do regresso à normalidade, mas a um posto intermédio. O normal já não existe.

A terceira fase do desconfinamento traz duas grandes alterações: deixa de existir o dever cívico de recolhimento e passam a ser permitidos os ajuntamentos até vinte pessoas — o limite, até agora, era de dez pessoas. Limite que se mantém na Área Metropolitana de Lisboa (ou seja, nos concelhos de: Alcochete, Almada, Amadora, Barreiro, Cascais, Lisboa, Loures, Mafra, Moita, Montijo, Odivelas, Oeiras, Palmela, Seixal, Sesimbra, Setúbal, Sintra e Vila Franca de Xira).

Agora, são permitidas as celebrações comunitárias. O teletrabalho — para aqueles que o podem ter — deixa de ser obrigatório. Reabrem os casinos e até os centros de tatuagens.

Volta a ser possível ir ao cinema (se tiver filmes); ao teatro (se estiver aberto) e aos auditórios (se se passar alguma coisa lá dentro). Nestes casos, vai ser também obrigatório usar máscaras, vão existir lugares marcados.

Abrem igualmente os ginásios e academias, bem como as piscinas. Os balneários é que ficam bastante condicionados.

Regressa o pré-escolar.

E, claro: os centros comerciais. Deixam de estar abertas apenas aquela meia dúzia de lojas essenciais que se mantiveram a funcionar. Sobem-se as grades das outras todas — mas num cenário que nunca é equivalente ao que havia antes.

Em Lisboa, os centros comerciais ficam fechados, bem como as Lojas do Cidadão. Também há limites na estrada: "prevê-se que os veículos com lotação superior a cinco pessoas apenas podem circular com dois terços da capacidade, salvo se todos os ocupantes integrarem o mesmo agregado familiar", explica o Conselho de Ministros.

A espaços, vão chegando nesta terceira fase as coisas banais: o futebol, a praia, o resto.

Devagarinho, vamos vendo por aí os indícios do que fomos. Mas mesmo que lutemos para recuperar o tempo perdido — reiniciando os processos, voltando às temporadas de exposições, teatros, filmes, músicas, livros, modas, cozinhas, cuja estreia esteve interrompida —, há qualquer coisa de extemporâneo.

O tempo em que nasceram já não é o tempo delas.

Estamos noutro mundo: cheio de condições de acesso e segurança. Ele há de chegar, o tempo normal. Mas vem lento.

Permitam-me ir buscar um poema, para fechar isto. Um poema ou parte dele, que nas poesias nunca sabemos bem onde começam e onde acabam os pedaços, não fossem eles todos suspiros do mesmo ar.

A manhã trouxe o calor por que esperávamos há tanto tempo. Algumas árvores arriscam um pouco de verde, muito pouco ainda, a antever a diferença que haverá amanhã, daqui a dias, as grandes copas cheias de folhas. Mas tudo se passará quase imperceptivelmente, e não como na passadeira antes de atravessar a rua: “para obter o verde, carregue aqui”. A grande fábrica de verde é lenta, trabalha a desoras, no escuro e não tem (felizmente) nenhum comando à superfície.

Rosa Maria Martelo, Verde II, Matéria (em Siringe, 2017)

O verde é o amanhã, esse lugar para onde atiramos o depois disto tudo, seja ele diferente ou só o mesmo — porém, pejado de esperança.

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