Diário de um pai em casa. Dia 44


Numa das muitas corridas com o Tejo a meus pés, fui tropeçando, a espaços, numa frase que acompanha um rosto. "Meet Vincent van Gogh". Palavras garrafais e uma cara sobressaem nas quatro paredes de uma tenda de cor amarela que não é indiferente a quem por ali passa, no Terreiro das Missas, em Belém, Lisboa.

O subtítulo, "Experience a journey trought his life" convida-nos para uma viagem multissensorial e imersiva pela obra e vida do pintor holandês. Seja através da perceção sobre telas e cores, por um lado, seja pela descoberta dos sentimentos e angústias por detrás de cada pintura e da sua vida, por outro.

A exposição "Meet Vincent van Gogh" estava na minha agenda. No entanto, permanece vedada ao olhar e ao tato. Está fechada. À espera do regresso à normalidade.

Provavelmente, foi por causa dessa negação que comecei a olhar para o que tenho pendurado em casa. Pura curiosidade. Ou se calhar, porque as semanas de confinamento claustrofóbico levaram-me a este exercício introspetivo.

Imaginei salas de um qualquer museu ou galeria. Substituí-as pelos corredores de casa. Por ali ando. Por ali me encontro. De corredor em corredor. De uma porta para outra. Portas, que abrem para outros espaços. Novos quadros, outras realidades. No sítio do costume.

Vejo quadros nas salas de jantar e de estar. Na cozinha. Tenho outros que aguardam, pacientemente, no corredor a troca de moldura e um lugar para ficar. Estão ali desde os primórdios do Estado de Emergência, quando julgava ter tempo para ter tempo. Não temos tido tempo.

A exceção, é a casa de banho. Não há registos. Lembro-me que tinha, há muitos anos, um que via quando me olhava ao espelho. Um daqueles desenhos, Pop Art, no caso, que compramos à saída dos museus. Era do Roy Lichtenstein e mostrava uma mulher, na banheira que se destacava pelos lábios de cor vermelha. Não sei se ainda o tenho.

De regresso ao presente. Há muito tempo que não olhava para dentro de casa. Para o que tenho na parede. Comecei a fazê-lo depois de ter confessado à minha filha Francisca que iria fotografar cada um deles. Para tentar perceber o significado. E descobrir porque é que eu tenho esses e não outros.

Tal como nos caminhos entre salas de museus e galerias, faço pausas entre espaços. Estas são, seguramente, mais demoradas. Tenho tempo. Muito mais tempo. E acima de tudo, um poder que me é conferido por estar no meu leito. A repetição. O voltar atrás. Dia após dia.

Deparo-me com uma linha condutora em quase todos. A cidade de Lisboa. O Chiado. Os telhados. Alusões ao Tejo, aos cacilheiros e à época dos descobrimentos. Os quiosques. Quase todos são despidos de presença humana. Curioso.

Tenho também pequenos desenhos pintados por mãos anónimas. E um preto e branco do movimento de duas baianas a dançarem, assinado por um artista brasileiro, de Salvador da Baía, comprada numa viagem ao Brasil.

Não tenho muitos quadros, diga-se de passagem. E pouco valem para além do valor sentimental, um valor que a bola do meu filho mais novo teima em não respeitar.

Nesta incursão, deparo-me com uma surpresa. Há mais de 14 anos emoldurado, um desenho da ilustradora Carla Potte, alude, com dedicatória e tudo, ao primeiro aniversário do meu filho mais velho. Um registo que mereceu, por estes dias, o dedo apontador carregado de inveja de uma das irmãs. Porque é que também não tinha um dedicado a ela, confidenciou-me, quando os dois olhávamos, pausadamente, aquele boneco sem razão que o justificasse. Olhávamos, por olhar.

Estou longe de ser um conhecedor de arte com a profundidade que estas linhas possam transparecer. Conheço artistas e correntes. Identifico épocas. Mas se pedirem uma explicação demorada sobre a pintura, talvez me fique por um parágrafo.

De entre os quadros que tenho revisitado, um destaca-se. Está à saída do meu quarto. É uma serigrafia de Francisco Simões, "Cabeça Feminina", 1991. É o desenho de um rosto feminino. Tem um poema que o bordeja: Tudo que nos assombra tem um rosto / enigmático anónimo severo / sob o senso mistério do cabelo / tanto melhor quanto é mais belo. 

"Efeito Mona Lisa". Sabem o que é? É o que sinto. Aquela figura olha para mim. Pressinto que me observa. A mim e a todos. Os risos e os amuos. As discussões. Os locais que frequentamos. Vê o que vestimos. Sabe os horários a que saímos de casa e quando entramos. Anota as horas que nos deitamos e acordamos. Sabe tudo sobre nós e nós não sabemos nada sobre ela.

Apetece-me convidar o meu braço direito e fazer-lhe o gesto do Zé Povinho. Acho que vou mudar o quadro de sítio. Hoje mesmo.

E não estou a entrar numa fase de alucinação. Não virei Van Gogh. Continuo igual a mim mesmo. Talvez esteja a necessitar de respirar ar. Ou então de uma nova decoração onde caiba o Palhaço Violoncelista, de Júlio Pomar. Um desejo da minha mulher. Desde que a conheci.

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