Disse recentemente que "este não é o tempo para entregar o nosso descontentamento ao conforto aparente da vida digital ou à negação plena da vida física". Qual é a importância de voltar aos palcos e de fazer disso bandeira?

[Essa] é uma postura humana. Claro que é também uma postura artística... Mas é, sobretudo, um sinal de que há que enfrentar esta crise com dignidade. E essa dignidade é transversal a toda a economia. Dentro das possibilidades, dentro daquilo que nos é possível fazer, sanitariamente, não colocando em risco a saúde pública — porque nós, músicos de palco, temos noção de que a nossa atividade ao vivo só existe se existir multidão. Feita esta ressalva, desde que haja condições para que essa "multidão" esteja segura, nós, músicos, temos que dar um sinal claro de liderança à própria economia, porque é também disso que se trata.

É um ato de, se quiser, viver frontalmente neste tempo, porque viver num tempo de pandemia não é viver a sucumbir à pandemia. É viver com a pandemia, a instabilidade. É como viver com um terramoto, um furacão. Mas não necessariamente viver dentro da caverna, e dentro do bunker. Não. É enfrentar este desafio da natureza, porque é disso que se trata, com a dignidade do homem, que é ir à luta.

Já fizemos dezenas de espetáculos. Até agora, não houve um único surto que tivesse ocorrido [decorrente] desses espetáculos

E como é que tem sido a resposta do público? Recordo que o Pedro foi um dos primeiros a fazer concerto em formato drive-in...

Já fiz um pouco de tudo... Comecei por fazer concertos online — e fiz bastantes, até. [Desde] concertos privados, no sentido corporate, com uma série de entidades (o Theatro Circo, o Montepio...) [às] transmissões pessoais, a partir do meu estúdio. Depois, o drive-in. Fiz o primeiro concerto deste estilo em Portugal. E o meu primeiro concerto de desconfinamento foi em Ovar — era o sítio mais flagelado pela pandemia e foi simbólico tê-lo escolhido. Seguiram-se os festivais - não é bem festivais, que não se pode fazer festivais —, como as Noites de Verão, em Gaia, as Noites Eka (Noites ao Largo). Já fizemos de tudo e mais alguma coisa.

Eu acho, claramente, que há uma apetência do público para partir para esse lugar de magia e de arrebatamento que é o espetáculo. O público quer. Por outro lado, também se sente que o público tem receio, o que é absolutamente legítimo. Apesar de nós termos mantido salas esgotadas, sempre (as vendas demonstram uma apetência do público), também se nota que há um menor acorrer aos bilhetes. Isso demonstra, não falta de vontade, mas sim temeridade.

O próprio público também deve começar a pensar nesta situação muito clara: nós já fizemos dezenas de espetáculos. Até agora, não houve um único surto que tivesse ocorrido [decorrente] desses espetáculos. Pelo contrário: as distâncias são muito seguras, tenho um protocolo de saída em que peço às pessoas para saírem uma a uma, enquanto eu fico a tocar no palco — no final, a sala está completamente vazia e os músicos continuam a tocar no palco. Isso tem contribuído para uma grande segurança.

O que eu queria dizer é que o público tem que demonstrar uma certa temeridade não só em relação ao espetáculo, mas em relação ao país, em geral. Tem que fazer a mesma coisa enquanto público que nós artistas fazemos enquanto artistas: sair, consumir (dentro das possibilidades, logicamente), usufruir — e eu acho que o público o tem feito, de uma forma mais tímida.

Só para terminar, como sabe, em Espanha, o senado mandou para o Governo uma diretiva extremamente importante, a considerar a cultura como um bem essencial. Como a água, a comida e a saúde. E isso quer dizer muito acerca do papel da cultura, e da arte, e do entretenimento, na saúde mental da humanidade. As pessoas têm, portanto, que voltar ao seu recinto de ontologia que é a plateia.

Compete aos artistas marcar as salas, pôr bilhetes à venda e vender os bilhetes. Isso chama-se economia de mercado

Esses concertos que mencionou têm sido iniciativa de quem? Da classe artística, das autarquias, do Governo? Ou, por outro lado, de quem é que deveriam ter sido iniciativa?

Bom, quem tem tido a iniciativa têm sido, claramente, os privados. Mas atenção, que não estou a ser completamente justo. Tem havido, de algumas autarquias, também essa preocupação — nomeadamente as de Faro e de Gaia e, neste momento, também a de Lisboa. Porque são parceiros, mas são parceiros mesmo: o ónus da responsabilidade e  grande parte dos encargos financeiros recai sobre os artistas e as promotoras, neste caso a Sons Em Trânsito. A Sons Em Trânsito tem-se revelado tenaz nesta matéria; reagiu imediatamente, organizou eventos, e tem tido os artistas a rodar de uma maneira homogénea. O António Zambujo, eu próprio... De uma forma, enfim, regular.

E há, aqui, uma nota que eu gostava de ressalvar, que é para ficarmos muito claros em relação a isto: compete aos artistas, isto é, os artistas não podem esperar que as autarquias e o Governo venham em seu socorro. Não pode ser! Nós não dependemos do Governo nem das autarquias. Nem de subsídios, nunca! Compete aos artistas marcar as salas, pôr bilhetes à venda e vender os bilhetes. Isso chama-se economia de mercado.

Nesse sentido, eu próprio dei instruções para marcar uma digressão inteira minha, comigo sozinho ao piano, mas em que eu vou à bilheteira, como é lógico: sou empresário, gosto de arriscar, e não tenho medo do meu "produto", neste caso a minha música. É arte enquanto existe na minha cabeça, é arte enquanto veículo de expressão de magia, assim como é arte uma pintura de Picasso (e não me quero estar a comparar...), mas no momento em que entra no mercado também é um produto.

Portanto, o artista, o músico, se acredita na sua produção, tem que colocá-la também no mercado e dizer: "vou fazer vinte teatros, e vou ver o que é que o público acha da minha música. Se esgotar, quer dizer que claramente existe mercado para a minha música; se não esgotar, se calhar não existe". A arte também tem uma função altamente dinâmica, de uma aula à economia de mercado e aos discursos tontos que colocam alguns artistas como pessoas dependentes de subsídios — o que não é, de todo, verdade.

Tenho visto muitos títulos referentes ao Pedro. Sente que a imprensa o tem procurado mais pelo que diz, e não pela sua música?

Não. O que digo é igual ao que faço enquanto artista, não vejo diferença. A minha música não é um algoritmo; não algoritmizei a minha música. Não pretendo fazer parte de playlists onde funcionam algoritmos. Não quero que gostem da minha música por ser parecida com outras coisas. A minha música é o que é. E, portanto, quem vai à procura da minha música sabe ao que vai: vai à procura da palavra, vai à procura da profundidade, da seriedade do trabalho musical.

[A Media Capital] será um mero investimento numa área que é contígua àquilo que eu já faço

Eventualmente, se a minha música tocar nas rádios com pujança, maravilha... Mas, se não tocar, não fico preocupado com isso. Porque o percurso do artista é um percurso de "eu preciso de fazer enquanto criador"; não é um percurso de "eu preciso de fazer para agradar". O que eu noto é que há uma sintonia muito grande entre os media, que me procuram por algumas teorias que eu possa ter sobre o estado do país, ou o estado da cultura, e a minha própria música. Há uma consanguinidade, a música não é independente das minhas ideias - aliás, a minha música é as minhas ideias.

Pegando nesta sua frase: "Sou empresário, gosto de arriscar". Foi recentemente notícia de que tem acordo para ficar com 2% da Media Capital, dona da TVI. A que se deve esta decisão e esta vontade de adquirir uma parte de uma empresa que detém vários meios de comunicação?

Como sabe, não sou eu quem adquirirá esse capital, mas a minha empresa, a Boom Studios. A Boom Studios é uma empresa, já ela própria, de media e de comunicação — qualquer visita ao site poderá mostrar exatamente o que é. Portanto, será um mero investimento numa área que é contígua àquilo que eu já faço.


O Lisboa ao Palco tem em cartaz mais de 20 artistas nacionais. Desde 11 de setembro que a Quinta da Alfarrobeira, em São Domingos de Benfica, em Lisboa, é palco — como o próprio nome já diz — deste ciclo de concertos.

Por lá já passaram nomes como António Zambujo, GNR, Moonspell ou HMB. Seguem-se, este e no próximo fim de semana, mais uma mão cheia de espetáculos. A saber: Miroca Paris e Carolina Deslandes & Maro  (26 set); Tainá e Bárbara Tinoco (27 set); Irma e Diogo Piçarra (2 out); Viva o Samba e Amor Electro (3 out) e, a fechar, Elisa Rodrigues e Pedro Abrunhosa (4 de outubro). Os concertos têm início pelas 19h00 e os bilhetes estão à venda, nos locais habituais, pelo valor de 15 euros.

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