À flor da pele, é assim que andamos todos por estes dias. Mas a crise também pode trazer consequências positivas, e quem sabe deixamos de ser a sociedade competitiva que somos para passar a ser uma sociedade mais cooperativa. A análise do psiquiatra Coimbra de Matos.

Aos 90 anos, António Coimbra de Matos, psiquiatra e psicanalista, nunca viu uma pandemia assim. Mas os anos de vida e de profissão já lhe mostraram muito, e se sabe alguma coisa, é que o ser humano tem uma enorme capacidade para se reinventar.

Especialista em depressão, lembra que em tempo de crise as pessoas superam-se. No entanto, são precisos interlocutores lúcidos. Geralmente nos momentos de crise diminuem os surtos de depressão e suicídios, porque há uma maior exteriorização da agressividade. É por isso que é bom que as pessoas exprimam os seus afetos.

Em Espanha o estado de emergência já foi prorrogado por mais 15 dias. Quanto tempo vamos aguentar esta situação?

[Ri] Não sei. Este primeiro mês vai-se aguentando, depois disso é que já não sei. Eu próprio deixei de dar consultas desde o dia 12 para ficar mais recolhido em casa. Depois disso, começa a ser mais difícil.

Vive-se um período de ansiedade coletiva como não há memória. Como se lida com isto?

Em termos de pandemia não há memória. Houve a peste pneumónica, mas já não há ninguém desse tempo. Tenho 90 anos e não me lembro de ver nada igual. Apesar de tudo, penso que as pessoas não estão muito ansiosas, estão relativamente tranquilas para um tempo que é pesado, de isolamento, de quebra da rotina.

"O que eu temo é que as pessoas comecem a não cumprir as regras"

Onde podem as pessoas ir buscar conforto psicológico?

Atualmente, com as diversas formas de comunicação, a Internet, as redes sociais, torna-se mais fácil comunicar. Claro que é diferente do contacto presencial, mas as pessoas não ficam tão sozinhas. O que é importante é preencher o tempo, aproveitar para fazer coisas que habitualmente não temos tempo para fazer, como ler livros. Recordo algo semelhante ao tempo em que fui para a tropa: saí de Lisboa e fui 11 meses para o quartel que fica em Santa Margarida, onde a vida era chata que se fartava. Aí aproveitei para pôr as leituras em dia. As pessoas vão tentando entreter-se com várias coisas, mas depois começam a sentir a falta da sua rotina, somos animais de hábitos, começa a ser difícil manter esta mudança súbita. O que eu temo é que as pessoas comecem a não cumprir as regras. Na primeira semana cumpriram bem, mas daqui para a frente as pessoas mostram uma certa saturação por estarem confinadas em casa e é provável que um maior número de pessoas comece a incumprir as regras, o que vai prejudicar a luta contra o vírus. Mas também pode acontecer que as pessoas encarem isto de forma positiva e vão descobrindo formas de estar em casa e de se entreter a fazer coisas, prescindindo do convívio habitual. Porque temos essa capacidade de adaptação.

A comunicação é mais fácil e a informação circula mais rapidamente. Todo o tipo de informação, às vezes sem filtros. Que efeitos pode ter?

É verdade que há muita informação pouco importante, mas também há boa informação. É preciso manter uma certa tranquilidade, dar mensagens positivas, mas falar a verdade.

Sem otimismos exagerados?

Não, não. Isso é psicoterapia barata, como costumo dizer.

Quando perguntei se aguentamos, foi porque me parece que tendemos para a entropia, sobretudo quando estamos em isolamento. É assim?

É verdade. Por isso é que é importante ocupar o tempo e aproveitar para ler, pintar, desenhar, ser criativo.

"A tendência social para a desobediência faz parte da educação de domesticação do passado e da insuficiente liberdade que nos foi dada"

Porque há tanta gente a desobedecer, a sair à rua sem necessidade?

A tendência social para a desobediência faz parte da educação de domesticação do passado e da insuficiente liberdade que nos foi dada. Por isso, ainda bem que essa tendência existe. Fomos habituados a obedecer de mais. Recordo-me de que quando acabei o curso de Medicina, em 1953 ou 1954, fui com um colega inscrever-me na Ordem dos Médicos. Estávamos em junho, e a seguir fomos beber uma cerveja. Na altura, no código havia 42 deveres e dois direitos. Hoje é ao contrário, é só direitos e não há deveres. Quando a educação é negra e reina a domesticação, a rebeldia pode ser útil. Na faculdade dei aulas de Psicopatologia Dinâmica da Criança e do Adolescente e também Psicopatologia Dinâmica do Adulto e dizia sempre isto: o principal dever de uma criança é desobedecer aos pais. Senão, é como um animal domesticado. Quando não somos tão domesticados, conseguimos autolimitar-nos, porque criámos essa capacidade de autocontrolo. Se formos muito obedientes, não treinamos a nossa autonomia, por isso é que é bom os adolescentes terem oportunidade para ser irreverentes. Se obedecemos muito à lei do outro - escola, pais, religião, partido, etc. - perdemos a capacidade de criar leis próprias, porque não cultivámos a autonomia. Há coisas que se adquirem pela experiência.

"Quando não somos tão domesticados, conseguimos autolimitar-nos, porque criámos essa capacidade de autocontrolo"

Está-nos no sangue?

Há duas tendências no espírito humano: uma tendência para conseguir respeitar o outro, ver do que o outro precisa, e uma tendência para dominar. E é esta tendência para dar ordens que bloqueia o resto. O exemplo que costumo dar é o de uma frase muitas vezes repetida: "É preciso impor limites às crianças". Eu digo que não, não é preciso impor limites nenhuns às crianças. O que é preciso é demonstrar-lhes que a realidade tem limites. Há uma realidade física - bater com a cabeça na parede magoa mais a cabeça do que a parede - e uma realidade social - se brincam e jogam à bola e cospem na cara do outro, o outro fica chateado e não lhe apetece continuar o jogo. Nas duas situações, a criança perde. E a isto eu chamo facilitar a autonomia ou aprendizagem pela experiência, que é a melhor forma de aprender: tentativa e erro.

Somos uma sociedade muito paternalista, que teima em abebezar as pessoas?

Uma vez estava a dar uma aula para alunos de mestrado no ISPA [Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida] e achei que não estava a transmitir bem o que queria. Então, fui ao quadro e escrevi em letra garrafais: se tem dúvidas, não vá ao livro nem pergunte ao professor, investigue. No fundo, poderíamos dizer que temos vivido numa sociedade com escola a mais. O bom é a escola sem escola, ou seja, quando se ensina mais, mas se incita a que os alunos aprendam, quando se dá as ferramentas para que eles façam ou aprendam a fazer o seu caminho. Aliás, esse é o espírito de Bolonha, simplesmente, nem sempre tem sido bem utilizado. O objetivo não é estar em aulas em que o professor debita conhecimento, o objetivo é levar os alunos a procurar respostas.

"Então vamos caminhar a ver se lá chegamos"

Ensinar a pensar, é isso?

Há uma história contada por um psicanalista argentino que tem muita piada: um avô está com o neto numa pampa, numa noite de Verão, a falar sobre as estrelas e a lua. O neto interrompe e diz que gostava de ir à lua. O avô explica que não é possível, a lua fica muito longe. Mas o neto insiste. Então, o avô dá-lhe a mão e começa a andar pela estrada: "Então vamos caminhar a ver se lá chegamos". A certa altura, já depois de andar um bom bocado, o neto começa a dizer que custa um bocadinho. "Pois, mas se queres ir à lua, temos de fazer mais um esforço". Até que, depois de mais um bom bocado a andar, o neto pergunta: "Avô, e se deixássemos isto para amanhã?" É isto, não há como a experiência para testar limites.

Para as crianças é mais difícil entender este isolamento, este confinamento?

Será, eventualmente. Aí temos de ser mais inventivos, como a própria criança tem de ser mais inventiva. Porque também temos capacidade criativa, não só nós, pais, mas também os filhos, as crianças.

Há pouco falava da importância das comunicações, hoje muito mais desenvolvidas. E o toque, o abraço, o beijo?

É importante e faz falta, vai fazer-nos falta.

"Também se criou essa ideia de que é preciso tocar, é preciso andar bem-disposto, é preciso ter filhos... A ditadura da felicidade"

Quando as coisas regressarem ao normal há quem acredite que acabaram-se os cumprimentos de beijos e abraços.

Penso que vamos retomar isso, provavelmente com maior moderação. Porque também se criou essa ideia de que é preciso tocar, é preciso andar bem-disposto, é preciso ter filhos... A ditadura da felicidade. Que é como a ditadura do consumo. E há uma coisa que se perdeu um pouco, que foi o tempo para pensar. As sociedades actuais vivem entre o estímulo e a ação. Uma amiga que já faleceu costumava dizer: antigamente, entre conhecer um homem e ter uma relação amorosa com ele era preciso ler a obra do [Marcel] Proust "À la recherche du temps perdu" [4215 páginas]. Hoje, é "À la" e está feito, não se lê nem o título. De facto, quando se recebe um estímulo é preciso pensar se é bom ou mau, como se deve reagir, as consequências que daí podem vir... Ter esta capacidade de pensar. Um filósofo que faleceu com um cancro, tinha uma crónica no "Público", salvo erro, intitulada "Repensar". E é isso, às vezes não chega pensar, é preciso voltar atrás e pensar outra vez.

Por que motivo as pessoas não pensam e repensam, há uma explicação?

Uma vez mais, penso que por causa da escola má, aquela que nos ensinou a saber a tabuada de cor, os verbos regulares de cor, etc. Tive dois professores de português (sou do tempo em que os exames eram no 3.º, no 6.º e no 7.º ano), um do 1.º ao 3.º, outro do 3.º ao 6.º ano. O primeiro era padre, mas era um bom professor, e uma das coisas que me lembro é que ele dizia: "Não se esqueçam, meus meninos, estudar é meditar". O outro era laico, mas era mau professor.

Depois do isolamento, a tendência será para uma sociedade diferente ou rapidamente vamos esquecer o que aconteceu, o medo, e voltar ao normal?

Espero que sejamos uma sociedade mais pensadora, mais meditativa e que elabore mais o pensamento. Mas corremos também o risco de voltar ao mesmo, ou até pior; penamos este tempo todo, agora vamos gozar a vida, fazer o gosto ao dedo.

"Temos muita informação e pouco conhecimento"

Pergunto-me como e quando será feito o luto, porque agora não parece haver tempo, é como se a morte se tivesse tornado banal...

Uma das coisas importante é a capacidade de reagir, muitas vezes com uma reação num primeiro momento e outra num segundo momento. Não gosto da abstração, gosto de casos reais. Lembro-me de uma pessoa que trabalhou comigo no Centro de Saúde Mental Infantil de Lisboa, onde fui diretor, contar que tinha tido um acidente com alguma gravidade: "Mas eu na altura não me assustei nada, nem quando veio o pronto socorro ou a polícia. Passado um hora, quando cheguei a casa, tive um ataque de ansiedade tremendo. Sou muito histérica, não sou?", perguntava-me ela. Não, portou-se bem. Na altura teve de reagir, teve de se adaptar, e por isso controlou a ansiedade. Depois, quando já não precisava de controlar a ansiedade, deu expressão aos afetos. Com o luto, que não se pode fazer agora, esta também é a reação saudável. Neste momento é preciso cremar a pessoa, não demorar tempo, mas posteriormente pode-se retomar o luto, viver o luto. O luto precisa de ser vivido, porque um luto mal feito é patogénico. É preciso diferir, no fundo, em vez de reagir no imediato. E nós vivemos numa sociedade muito imediatista. Além disso, temos muita informação e pouco conhecimento.

"A vida não é equilíbrio, a vida é desequilíbrio à procura de equilíbrio"

Isso leva-me a outra pergunta: ainda se está a digerir o vírus e já se fala em recessão económica. É certo que é preciso antecipar cenários, não se pode empurrar os problemas com a barriga, mas...

Mas tem de haver um equilíbrio entre as duas coisas. E também não vale a pena pensar que há vida sem problema, porque não há vida sem problema. A vida não é equilíbrio, a vida é desequilíbrio à procura de equilíbrio. Equilíbrio não é ter um pH7, é ter um pH que oscila para cima e para baixo. Quando há o equilíbrio completo é a morte. E a vida mental também é isto, um desequilíbrio entre alegria e tristeza, excitação e abatimento, desejo e repulsa, uma oscilação sem nunca chegar a grandes extremos.

Há um risco maior para depressões em épocas como a que atravessamos?

Não, geralmente é até ao contrário, nos momentos de crise a depressão e os suicídios diminuem. Porque há também uma exteriorização da agressividade, as pessoas podem ser agressivas, inclusivamente podem matar, como acontece nas guerras e nas revoluções. Torna-se mais fácil exprimir a zanga. Por isso, mais do que nunca é bom que as pessoas digam o que pensam, que exprimam os seus afectos. Que não são para conter, caso contrário vão acumulando e depois saem de forma violenta, por explosão ou por implosão.

"Hoje nem sempre são os melhores aqueles que vão para a cúpula do poder, seja no governo, na política, nas sociedades científicas ou nas empresas"

A importância da liderança: o comportamento do presidente da República, do primeiro-ministro, da diretora-geral de saúde. Têm estado à altura?

Penso que os nossos líderes não se têm portado mal. A principal qualidade nesta altura é ter interlocutores lúcidos, que é também um pouco o meu trabalho como psicoterapeuta, trazer um pouco dessa lucidez. Mas o que caracteriza a liderança democrática é isto: ouvir, no caso técnicos e especialistas, antes de tomar decisões. Nas lideranças autoritárias, como é o caso de Trump, Putin ou Bolsonaro, que pensam pela cabeça deles - "é assim e faz-se assim" - dá mau resultado. Várias cabeças pensam sempre melhor do que uma só. No entanto, as sociedades sacrificaram uma parte importante; sou do tempo em que quem chegava aos órgãos do poder eram os mais cotados no mercado em cada área. Hoje nem sempre são os melhores aqueles que vão para a cúpula do poder, seja no governo, na política, nas sociedades científicas ou nas empresas. Acontece, provavelmente, porque as condições para exercer esse poder não são as melhores e as pessoas mais cotadas não estão disponíveis para isso. Mas penso que também por egoísmo, as pessoas são mais egoístas e se puderem não ter de se sacrificar pelos outros, melhor, preferem o comodismo. Uma coisa interessante nesta crise é que ela não escolhe hierarquias nem classes sociais, quanto muito há uma seleção por idades. Mas com isto poderemos passar de uma sociedade de competição, como tem sido fundamentalmente, para uma sociedade de cooperação, como são as sociedades mais nobres - o que vai contra tudo aquilo que o ocidente projeta: competitividade, concorrência, empreendedorismo... O salve-se quem puder.

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