Diário de um pai em casa. Dia 46


Sinto-me um tele-escravo. A palavra não existe, mas a perceção vive em mim. O sentimento. Um tele-escravo da telescola. Um tele-escravo do teletrabalho. Que mais não é que uma nova roupagem para a "escravatura" dos tempos modernos. Que poderá ser batizada de tele-escravatura.

Deixem-se de brincadeiras. Juntar os dois "teles" num só mesmo espaço, o da escola, na qual, também, posso colocar na lapela "tele" antes de professor, e o do trabalho, é o caminho para a plena escravatura. Que nos prende e rouba quase tudo.

Leram bem. A ditadura de uma escravidão confinada a fazer tudo e mais alguma coisa no mesmo espaço. As horas que um monge dedica à meditação, consagro eu a estas duas tarefas que preenchem quase a plenitude do tempo em que não estou a dormir.

Da minha parte, não faço papel de telespetador da edução de quatro filhos. Tenho que estar presente. Em especial, ao lado dos mais novos. É a esses que decido a plenitude da minha atenção.

A presença implica ajudar nos trabalhos de matemática. Ou fazer uma experiência que tem no feijão a cobaia. Como plantar e vê-lo crescer. Juntando a planta, terra, água num recipiente que sugerem que seja um vaso. Pergunto: não dava para, nesta fase da nossa vida, saltar diretamente para a lata ou para a loja a granel e mostrar o que é?

Recuo. Reconheço que, talvez devesse, exatamente porque estamos nesta fase, dedicar mais tempo a esta experiência que nos leva pelo caminho da vida. A semente que é colocada na terra, alimentada com a água, o trato e o cuidado, a contemplação das raízes que crescem e o fruto que se vê. Que nos acompanhará. Até ao fim da vida. Sempre ao nosso lado. Ligado a nós, porque de nós depende.

O teletrabalho ou trabalho feito sem ir à redação é algo que está dentro das minhas rotinas. Sou jornalista freelancer. Estou habituado a gerir horários e trabalhos. Mas, estou rotinado a fazê-lo sem interferência ou divisão de papéis. A incompatibilidade cresce à medida que o calendário avança, garanto-vos.

A propósito do trabalho a partir de casa ou levar o trabalho para dentro de casa, aproveito e deixo um conselho. Desengane-se quem navega, por estes dias, na retórica do "ganhar tempo". Vão trabalhar mais. E a putativa barreira, por imaginária que fosse, entre "onde se ganha o pão" e "onde se come o pão", numa linguagem popular e acessível, esvanecesse por completo. Eclipsasse. Puf...

Fica o aviso à navegação. Teletrabalho é a escravatura dos tempos modernos. E sobre os tempos atuais creio que nunca trabalhei tanto. Ou então o tempo demora tanto a passar que tenho aquela sensação de eternidade ao computador.

Estou repetidamente a sentar-me à frente do ecrã. Há sempre qualquer coisa que falta fazer porque outra se intrometeu pelo meio e impediu que a anterior se concluísse.

No meio desta ausência de tempo e claustrofobia de sentir que não estou a conseguir acompanhar tudo, fazer tudo, e estou a perder muito do que está à minha volta, vale-me as conversas com amigos à hora marcada ao serão.

Hoje vou juntar um grupo de amigos do râguebi. Pais de miúdos que jogam a modalidade no Grupo Desportivo Direito, onde o meu filho José Maria joga e clube no qual sou treinador. Alguns de nós também jogaram. Será uma 3ª parte numa nova teledependência. O Zoom.

Estou a necessitar de uma sessão de telepatia comigo mesmo. Ou será terapia?

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