Diário de um pai em casa. Dia 43


Ainda a Liberdade. Carlos Ferreira, 71 anos, foi o homem que desfilou ontem, sozinho, na avenida da Liberdade, em Lisboa.

Quando caminhamos sozinhos, seja por que razão for, procuramos, por norma, o anonimato. Ontem, por ser (quase) o único a cumprir um ritual que costuma fazer ao lado de milhares, por estarmos a viver o que estamos a viver, por ser aquele dia, 25 de abril, por estar com a bandeira nacional às costas e os cravos no alto, era impossível escapar aos olhares mais desatentos. Mesmo que fossem poucos os que testemunharam.

O fotógrafo da agência Lusa, João Sena Goulão, registou magistralmente um momento que fica para a história. Um cidadão, que poucos seguramente sabiam quem era, menos ainda conhecem a sua história, saltou para as primeiras páginas. A imagem virou partilha viral e Carlos, o seu passado e o seu presente, entraram na casa de quem está confinado.

Ao longo destes dias que parecem anos, tenho falado de mim, das minhas inquietudes, vontades, desejos e desvaneios. Os meus pensamentos e atos estão à vista de todos, pela escrita. As palavras são o espelho que reflete o que me vai na alma e na cabeça. Ou razão e emoção, se quiserem.

Falo do que vivo e escrevo sobre o que vejo. Dou-me ao luxo da prática de um voyeurismo autorizado. Espreito as janelas alheias da vizinhança, sem pudor, nem com impulsos de recuar para trás de um cortinado. Até porque não os tenho.

Pausadamente, vejo os puzzles do meu vizinho de baixo e a casta que bebeu na véspera. Conto as garrafas de malte e lúpulo no quintal do prédio ao lado, onde vivem três millennials. E, por fim, numa visão 180º vislumbro quem estica a roupa nos estendais. Hoje em dia, é definitivamente, uma tarefa masculina. Agarrámos o OMO com as duas mãos. A outra incumbência, deverá ser, o gesto de pôr e tirar a louça da máquina. Pelo menos, na minha casa é. E já vi, igualmente, noutros lares.

Estamos sozinhos, com a nossa família, mas estamos à vista de todos. Parece um paradoxo. Observamo-nos, mutuamente, nas nossas solidões. As minudências de cada um.

Tenho olhado para fora, guiado pelos tiques de observação alheia. Mas olho, acima de tudo, para dentro. Em especial para os meus filhos. Não tanto para o que vão fazendo. Isso é fácil de descrever. Mas sim, para o que pensam. Ou o que, a espaços, demonstram estar a pensar. A sentir. A pressentir. A viver. E isso, é, por vezes, difícil entender. E quase impossível de descrever.

Mais que as provocações que fazem mutuamente, das alianças que vão mantendo, das conversas que vão tendo aos pares, das séries a que assistem em conjunto, dos passeios e corridas, das brincadeiras e discussões que mantenho individual ou coletivamente, é nos silêncios em que caem, amiúde, que me detenho.

Interrompo a ausência de sons. Procuro palavras. Umas vezes, tenho sucesso, outras vezes, a busca é em vão.

Bato à porta das paredes onde, por vezes, se recolhem, à procura de privacidade. Detenho-me o tempo suficiente para não provocar invasões.

Compreendo-os. Não insisto. Não tento arrancar nada. Que desabafos podem dizer hoje, que sejam diferentes de ontem. Ou da véspera. E amanhã? Terão novidades?

Tal como nós, que buscamos nos silêncios algumas respostas, também eles, miúdos dos 6 aos 15, merecem ter esse direito.

Em conversa, ou de boca calada, há algo que, nesta suspensão de vida, tenho aproveitado. Dou por bem empregue todo o tempo em que estou a observá-los. Um big brother caseiro. Imagino-me no lugar deles. No mundo deles. Não deve estar a ser fácil. Nada fácil. Mas acho que, lá no fundo, estão felizes de estar em casa. Pelo menos até ao fim do ano lectivo.

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