Diário de um pai em casa. Dia 34


17 de abril de 2020. 17h28, hora de Portugal continental. Ia pegar numa frase de Agostinho da Silva, filósofo e ensaísta: “Não faças planos para a vida, que podes estragar os planos que a vida tem para ti”, dixit. Queria escrever sobre planos para os próximos 15 dias.

O conteúdo das aspas de um dos mais brilhantes pensadores português descoberto tardiamente por uma nação e que eu, e o meu amigo Francisco Santos Costa, desde a infância, o espreitamos e admiramos, tem sido abusivamente utilizado. Até por nós.

Recupero-a. Vem a propósito. Estava a começar a escrever algo até que recebi um comunicado da Associação Portuguesa de Barbearias, Cabeleireiros e Institutos de Beleza.

Os representantes deste setor que se espalha por 38 mil salões e emprega mais de 50 mil pessoas, antecipam a possibilidade abraçar a onda de "abertura gradual, faseada ou alternada de serviços, empresas ou estabelecimentos comerciais". Poderá vir a fazê-lo a reboque do decreto presidencial que prolonga até 2 de maio o Estado de Emergência.

É, para mim, a manchete do dia. Uma boa notícia. Retifico. A melhor que podia ler.

Estranho juntar Agostinho da Silva com a “Bela” ou o “Marco” (no meu caso, a Maria João). Peço, por isso, antecipadamente, desculpa por tamanho sacrilégio de levar a obra de uma proeminente personalidade que muito aprecio, e que podemos recordar nas “Conversas Vadias (RTP)", para uma sala onde sobressaem “Caras”, “Elles”, “Holas” ou “Men’s Health”, na qual pontifica alguém a quem entrego o meu corte de cabelo, e que, não só por isso, mas também, tenho a devida consideração.

Espreitei, de soslaio, o “Compromisso do setor”. Será feito por marcação. Já o fazia. Menos pessoas. E todos de máscara. Tomei nota.

Estamos todos fechados em casa. Privados de aparar as pontas. De pintar os brancos, fazer uma misse, por uma máscara de abacate (não sei se há ou se quer se chama assim), manicure, pedicure e um sem fim de serviços. Penso, inclusive, se a mulher portuguesa não terá voltado aos rolos, na privacidade do lar, como forma de dar um jeito.

Falo por mim. Estou a necessitar de cortar o cabelo. A minha filha Teresinha ofereceu-se. Recusei, educadamente. Estar sentado, na casa de banho, e entregar-lhe em mãos tamanha tarefa, fez-me viajar para filmes como “O Padrinho”, ou, do mais recente, “Irishman”, de Martin Scorsese. Somos Morgados, não Corleone’s.

Como relembra, e bem, Cristina Bento representante de um setor presente em cada esquina e que atravessa Portugal de lés-a-lés, temos que olhar para o impacto que o serviço que prestam tem para a autoestima dos portugueses.

Tem toda a razão. Obrigado, Cristina. Obrigado “Belas” e “Marcos” deste Portugal. A recuperação da minha autoestima, a partir de 2 de maio, estará nas vossas mãos.

Não irei à rua bater palmas, mas não resistirei a cumprimentar, como sempre fiz, assim que entrar nas portas de um 1º andar na Duque de Loulé. Vou ligar a marcar.

Até lá, daqui a 15 dias, desespero por ouvir: “Olá Miguel, é o corte habitual, não é?”. “Sim”, responderei a que se seguirá a habitual conversa de 15 minutos sem tema marcado com a pessoa que me corta o cabelo desde que me casei, em 2003. Foi-me apresentada pela minha mulher, que já era cliente.

 

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