Diário de um pai em casa. Dia 38


Ver a escola por um retrovisor. Foi assim que me senti ao sentar-me na sala de estar da minha casa para assistir à telescola. Duas aulas, duas matérias distintas, de dois ciclos letivos diferentes. Estudo do Meio, do 5º e 6º ano e matemática, 7º e 8º ano. Animais e trapézios. Nada de novo, numa, e um regresso a um conhecimento passado, noutra. Ao lado de dois dos filhos. O António, 6 anos e a Francisca, 13.

O dia começa com os mais novos. A pergunta sobre a que dia anda foi substituída por uma afirmação. Relembra-me que tem aulas na televisão. À provocação de uma das irmãs, a Teresa, sobre a dispensa de assistir no grande ecrã, responde-lhe sobre o quanto gosta de ver aulas naquele formato antes de começar a assistir às outras no Tablet.

Será a excitação dos primeiros tempos, ou será que aceitou de bom grado esta velha nova forma de ensino, só o tempo o dirá. A única certeza que tenho é que já me confidenciou que gosta mais de aulas com os amigos ao lado dele. Repete-o, amiúde, ao longo dos dias.

Tratada a questão dos cereais como pequeno-almoço, tranquilizou-me sobre horários e canal a sintonizar. É o 17. RTP Memória. Desfruta de um zapping de minutos, com o comando na mão, salta de canal em canal até parar em algo do seu agrado. Faltam instantes para começar a aula. O horário escolar está marcado para as 9h00.

Já no canal do serviço público, ri-se da sugestão de um livro “Esta dama bate bué”. Repete: “Bué”. Abana a cabeça. “Não se diz”. Um lição que aprendeu em casa quando vinha da escola.

Segue-se um trailer. “Bem-vindo a Beirais”. Recorda que o irmão, José Maria, vê a série. Volta a sorrir com mais um anúncio de um programa: “Música portuguesa a gostar dela própria”. A razão é simples. Mostram folclore, corridinhos, viras, danças, gaitas de foles, bombos e pandeiretas. Nada do que está habituado a ouvir e a ver.

Uma professora de casaco amarelo e calça grená apresenta a aula do “Estudo do Meio e Cidadania”. Escreve o plano de aula: seres vivos; animais saudáveis e domésticos; características e bem-estar.

Fala para as câmaras com um à vontade de um pivô de programas da manhã. Respira confiança na relação com quem está em casa. Interage. Faz pausa, perguntas, estimula as respostas e regozija-se com as vozes que acertaram, sons que só se ouvem do outro lado da câmara onde se encontra.

O António deita-se no sofá com as mãos a servirem de almofada. Um pedido da professora para os alunos estragou-lhe a postura. Devem permanecer sentados com lápis e um papel na mão. Acede a sentar-se. Diz não necessitar de apontamentos. Fica tudo na cabeça, promete.

Anfíbios, peixes e mamíferos. Penas, pelos e escamas. Corujas, ovelhas, javalis, rãs e tubarão de pata-roxa. Uma Arca de Noé. Altura para o António, até então participativo, entrar em diálogo comigo. Garante-me que se eu estiver na água de prancha de surf e ficar quieto, os tubarões não atacam. E mesmo se o fizerem, que eu consigo nadar rápido. Acredita no que diz. Não desmanchei a crença. Qualquer pai que se preze gosta de ser olhado pelos seus como alguém com superpoderes.

Peço silêncio e atenção. Conclui o raciocínio a falar baixinho como estivesse na sala de aula.

A professora joga um pingue-pongue inquiridor. Faz perguntas para casa e dá elogios às respostas que obtém sem escutar. “Os animais são seres vivos ou não vivos?”, questiona. “Vivos”, responde o António. “Vivos”, responde a professora. “E a rocha”?, interroga. “Sem vida”, devolve o António. “São seres sem vida, muito bem...”, retribui quem está a lecionar. “O que é que eu disse”, dispara o meu filho em forma de ponto conquistado. Esbarra no escaravelho. “É só ossos”, diz. Da televisão sai a explicação de zoologia. “Exosqueleto”. Meio-derrotado, mas não convencido, quer sair por cima aos olhos do pai. Diz que a professora não fez “a perna do l”. Acerta que as cobras são répteis e assume que esta é, para ele, a palavra mais difícil.

Por esta altura, metade da aula voou. Questiona se pode, sorrateiramente, sair da sala quando estiver farto. São esses os conselhos da sua professora, garante.

Levanta-se. Faz o pino no sofá, como, por vezes, gosta de ver televisão. Um vídeo de animais fê-lo voltar à posição inicial. Recorda que, na véspera, tinha tido português.

A concentração está a diminuir. Anda pela sala de estar. É já deitado no chão, e mãos apoiadas no queixo, que recebe um recado para fazer um cartão cidadão de um animal.

A professora despede-se com um pedido. Para lavarem as mãos e ficaram em casa. 29 minutos e fim da aula. O António pede para ver “Expressão Artística”. Desconfio.

A RTP Memória faz um flashback do incêndio do Chiado (25 de Agosto de 1988). Fica estarrecido a olhar. Questiona-se se está a morrer gente. Agora. Julga que é uma notícia de hoje. Explico-lhe que foi num passado distante.

Os olhos riem quando vê o calendário que vai ter “Educação Física”, integrado com o 2º ano. Ele, que gosta de jogar à bola com os do 4º ano. Amanhã terá ginástica, sim, comigo. De calções e ténis.

A aula de “Expressão Artística” fica para outro dia. Faltam 10 minutos para começar a escola a meu lado. Seguimos até às 12h30, com Português, Matemática e Estudo do Meio.

14h00. Aula de Inglês do 7º e 8º ano. Destinatário: a Francisca, que frequenta o 8º. “Chegámos” atrasados 10 minutos. Podemos recuperar no replay. Matemática é a aula seguinte.

Garante-me que já deu tudo. O tudo é as áreas do Trapézio (base maior+base menor a dividir por 2 x altura). Paralelogramos (base x altura). Quadriláteros.

A professora não acerta o olhar com a câmara. Explico quão difícil é fazer aquilo de um dia para outro. Presto o elogio a quem se atirou de olhos fechados a esta tarefa hercúlea. Falha o sinal do computador no quadro eletrónico e ficamos a saber wallpaper do PC. Uma praia e duas rochas.

A despedida é feita com um desafio. Através de um vídeo, e da ajuda do Filipe, é pedido que, em casa, a partir de uma folha A4, façam e meçam um trapézio.

Fi-lo. Voltei à escola e à matemática, disciplina que deixei no 9º ano. Em 1984, creio.

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