As reações das estrelas da NBA não deixaram margem para dúvidas. Dwayne Wade, Damian Lillard, Donovan Mitchell, Ja Morant, entre muitos outros, usaram as contas de Twitter para fazer uma vénia ao projeto e, em em particular, a Michael Jordan. E as redes sociais foram o espelho do impacto que provocou no público. Foi a tendência #1 do Twitter durante toda a segunda-feira e, a certa altura do dia, 25 dos 30 "trending topics" naquela rede social estavam ligados ao documentário. Ao todo, foram feitas publicações no Twitter, Facebook e Instagram que geraram mais de nove milhões de "engagements" (likes, partilhas e comentários) e, entretanto, a ESPN anunciou que os primeiros dois episódios tiveram uma audiência média de 6.1 milhões de espectadores, o que os tornou nos conteúdos mais vistos do canal desde 2004.

Mas voltemos ao início. "The Last Dance" é um documentário da ESPN - em exibição em Portugal na Netflix -, dividido em dez partes, que retrata a época 1997/98 dos Chicago Bulls. Foi a última temporada do segundo "three peat" (três títulos consecutivos) e, consequentemente, a última época de Michael Jordan pela formação que o escolheu no draft de 1984. Uma equipa de filmagens foi autorizada a acompanhar o quotidiano dos Bulls na sua tentativa de conquistar o sexto título em oito anos. Mais de dez mil horas de imagens reduzidas aos tais dez episódios de uma hora cada, com o lançamento antecipado de junho para abril, para nos ajudar a lidar com o confinamento provocado pela covid-19. Todas as segundas-feiras, e até 18 de maio, a Netflix lança dois novos episódios para matarmos saudades da dinastia dos Bulls dos anos 90, mas também do basquetebol da liga norte-americana.

E sejamos claros. Praticamente nada do que vimos nestes dois primeiros episódios era desconhecido dos adeptos mais fervorosos da NBA. Não há grandes surpresas. Provavelmente, nada do que veremos até ao fim do documentário será novidade. A novidade é mesmo ter a possibilidade de ver em suporte de vídeo algo que, até agora, apenas tínhamos lido. A força da imagem confere um impacto maior aos pormenores da narrativa, seja a relação disfuncional do antigo "general-manager" dos Bulls, Jerry Krause, com Michael Jordan, Scottie Pippen e o treinador Phil Jackson, ou a mera imagem de um miúdo a sair do carro em plena estrada para pedir um autógrafo a Jordan, que seguia ao volante do carro ao lado.

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Krause assume, sem sombra de dúvida, a figura do vilão desta narrativa, por muito que, aqui e ali, apareçam vozes que garantem que era um bom tipo. É preciso sublinhar que, como GM, foi competente na construção da equipa. Mas as dificuldades de relacionamento com os maiores nomes da "franchise" - as acusações de "tanking" de Michael Jordan e a pretensão de uma revisão contratual por parte de Scottie Pippen são abordadas nestes dois episódios de estreia - e, sobretudo, a garantia de que, mesmo que a equipa ganhasse os 82 jogos de 1997/98, Phil Jackson tinha os dias contados e a reconstrução do plantel era o caminho a seguir, fizeram dele um mal-amado pelos fãs da organização da cidade do vento.

Se há um vilão, tem que existir um herói. Este herói não tem capa, mas também voa. A aura e o carisma do número 23 são o fio condutor deste documentário, mesmo quando um episódio é centrado numa das outras das figuras da equipa, como acontece com Pippen no segundo episódio de "The Last Dance", o nome que o próprio Phil Jackson deu, na altura, àquela derradeira temporada em que os principais responsáveis pela dinastia estariam juntos. Michael Jordan (tal como o base titular Ron Harper) já tinha 34 anos, Dennis Rodman - o atleta mais excêntrico de todos os tempos será o protagonista do 3.º episódio - somava 36, Scottie Pippen levava 32, Luc Longley e Toni Kukoč estavam ambos à beira dos trinta.

Entre os momentos mais deliciosos destes dois episódios fazem parte a carta que um jovem Michael Jordan escreveu à mãe quando estava na universidade, a pedir dinheiro e selos, lida e comentada pela própria mãe, mas também a gargalhada e a resposta de MJ à pergunta sobre o "Bulls traveling cocaine circus" (o circo de cocaína ambulante dos Bulls, em tradução literal) ou até os oráculos de Barack Obama (antigo residente de Chicago) e Bill Clinton (ex-governador do Arkansas) que causaram furor nas redes sociais. Mas nada nos faz arrepiar mais a pele da nuca do que as primeiras notas de "Sirius", de Alan Parsons Project, e o grito "Aaaaand now..." a ouvir-se nas colunas do pavilhão dos Bulls, aquando da apresentação da equipa no jogo de estreia dessa época 1997/98.

Antes da estreia de "The Last Dance", Michael Jordan revelou, numa entrevista, que temia que este documentário fizesse com que os adeptos de basquetebol o passassem a ver como "um tipo horrível", numa referência à sua competitividade enquanto jogador, ao ponto de humilhar os próprios colegas de equipa. Nada de novo, também aí. Já sabíamos que Jordan foi mesmo esse tipo horrível, mas também sabemos que o foi com um propósito: preparar mentalmente os que o rodeavam para quando chegassem os playoffs. E também já sabemos que esse mesmo tipo horrível vai doar a instituições de caridade a totalidade do seu rendimento com este documentário, que, de acordo com a revista Forbes, pode chegar aos 4 milhões de dólares.

A estreia não desiludiu e deixou-nos a todos com água na boca. Nunca se desejou tanto como agora que as segundas-feiras cheguem rápido.

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