Rui Gomes da Silva é benfiquista desde que nasceu. Tem um número de quotização muito baixo. 1812. Tem 62 anos e 30 anos de dirigismo. Concorre à presidência do clube, depois de 4 atos eleitorais em diferentes listas.

Vice-presidente de Luís Felipe Vieira, bateu com a porta em 2016. Tornou-se, desde então, um crítico do atual presidente. Saiu devido à falta de ambição europeia do clube e em desacordo com uma parceria estratégica feita com o empresário Jorge Mendes, que rotula de nociva.

Defende a formação e o ecletismo. Uma formação para ter jogadores que fiquem de águia ao peito e não para voarem para outros clubes.

Diz que não será um presidente remunerado e dá duas garantias: os jogos devem continuar na BTV e o clube nunca venderá a maioria do capital da SAD.

Tem falado de um Benfica campeão europeu. Do Benfica dos anos 60 do século passado. Acredita mesmo, olhando para o panorama do futebol internacional e nacional, que um clube português tem condições para ganhar a Liga dos Campeões?

Acredito. Se disser uma só diferença em relação aos demais (candidatos), é essa mesma. Ninguém mais acredita. Exceto as pessoas que são do Benfica. Quem é do Benfica, em função da paixão e da grandeza, acredita. Quem tem interesses e quem lá está sentado, é mais fácil não acreditar. E o não acreditar permite tomar certas decisões e ir por determinados caminhos que dispensam essa conquista e permitem o negócio, a venda e a destruição daquilo que poderia ser o Benfica.

A leitura é: como não pode ser campeão europeu, posso vender à vontade. (...) Tivemos, em 10 anos, mil milhões de euros de vendas e 400 milhões de compras

Há um interesse financeiro que se sobrepõe ao desportivo?

Há um interesse no negócio. A leitura é: como não pode ser campeão europeu, posso vender à vontade. E sou o campeão das vendas. Tivemos, em 10 anos, mil milhões de euros de vendas e 400 milhões de compras. Se o campeão das vendas permitisse ter um clube vencedor na Europa, eu seria um vencedor. Se esses mil milhões fossem aproveitados...10 anos depois, não sou grande na Europa, sou mesmo cada vez mais pequeno, e mantenho passivo na mesma. O único passivo que abati foi através do recurso de antecipação de receitas da NOS.

Tem criticado a antecipação de receitas.

É um problema de projeto desportivo. Das pessoas entenderem que o Benfica é um negócio. Tem formação para vender e formação para ganhar. A formação para vender é a que tem sido utilizada.

Discorda da venda de ativos (jogadores)?

Completamente contra. Concordo que se deve investir na academia para produzir jogadores para fornecer à equipa do Benfica. Mas, a partir do momento que se constituem os jogadores da equipa principal, não podem ser vendidos. Terá de se assumir o compromisso que durante 3, 4 ou 5 anos estão ao serviço do Benfica.

Um jogador da formação é acarinhado pelos adeptos benfiquistas. Um que vá para uma qualquer equipa, será um jogador normal

Consegue cumprir essa vontade, com o mercado e os jogadores de futebol? Juridicamente é complexo.

Não é. Como faço? Integrando-os num projeto desportivo. Se não lhes der a ambição de ganhar uma prova europeia, querem sair. Se lhes disser que vão ganhar uma prova europeia, preferem ficar. Preferem ficar por cá a serem jogadores de equipas em clubes nos quais não são relevantes. Um jogador da formação é acarinhado pelos adeptos benfiquistas. Um que vá para uma qualquer equipa, será um jogador normal.

Rui Gomes da Silva
créditos: Diogo Gomes | MadreMedia

Não é uma visão romântica?

Deixe-me terminar. Eu tenho de ter um compromisso dos jogadores em relação ao projeto desportivo. O meu compromisso é de lhes pagar um vencimento igual ao que pagam os clubes europeus. Mato já essa questão. Não há romantismo. Agora quando tenho jogadores que recebem 200 mil euros e são contratados por clubes estrangeiros, a principal razão para irem, é porque não ganham cá.

tenho jogadores que aparecem só para fazer negócio

Se em vez de 109 jogadores, tiver 40, não pode pegar nos excessos gastos com esses jogadores e canalizar para estes últimos? Pode. Não pode ter jogadores nacionais e estrangeiros referência na equipa? Pode. Agora, quando tenho 109 jogadores e faço construção de três plantéis e dois só servem para ser subservientes de interesses, um da Liga (B) e outro da Federação (sub-23). Quando tenho jogadores que aparecem só para fazer negócio. Quer um exemplo? O Cádiz. Até o presidente disse que foi para fazer negócio e um negócio nos termos em que foi feito. Se houver empenho nesse processo europeu e na construção numa equipa europeia, é evidente que é possível.

A não aposta na Europa e o carrossel são duas faces da mesma moeda. Só entro no carrossel porque não aposto na competição europeia. E só entro no carrossel porque estou dependente do empresário que me faz entrar no alegado carrossel

São duas coisas distintas: aposta na formação e equipa europeia. Ou faz parte do mesmo?

A não aposta na Europa e o carrossel são duas faces da mesma moeda. Só entro no carrossel porque não aposto na competição europeia. E só entro no carrossel porque estou dependente do empresário que me faz entrar no alegado carrossel. São sempre os mesmos. As pessoas não pensam porque é que os jogadores vão sempre para os mesmos clubes? Antes iam para o Mónaco, Valência...agora vão para o Wolves. Porque será que fazem sempre o mesmo trajeto. Vemos os livros e sabemos como é que são certas justificações, as circulações de determinados montantes, os anos e quem ganha.

Sente-se um lutador contra esse sistema instalado?

Não sou um D. Quixote do futebol português. Nem luto contra moinhos de vento. Agora, sou uma pessoa com consciência, que sempre pensou assim, e esta minha convicção tem mais razão de ser depois de ter estado sete anos e três meses no Benfica. Só me deu razão para acreditar que é perfeitamente possível o que quero.

Não há política desportiva que permita levar 5-0 do Basileia, custou-me tanto como os 7-0, em Vigo. Hoje, ninguém liga, porque a máquina de comunicação apagou

Demorou sete anos a perceber?

Escrevi em 1989, 1991, 1997, 2000 e durante o tempo que lá estive que o Benfica deveria ser campeão europeu. Lutar todos os anos. Tem de ter política desportiva para ser e não para perder os seis jogos da fase de grupos. Não há política desportiva que permita levar 5-0 do Basileia, custou-me tanto como os 7-0, em Vigo. Hoje, ninguém liga, porque a máquina de comunicação apagou. Não podemos esquecer a realidade. Um Benfica com zero pontos na Liga dos Campeões e leva 5-0 em Basileia. Ou é apurado no último minuto.

Perder com o PAOK, poderia fazer questionar o presidente sobre as quebras de receitas. O que aconteceu? Perde, vamos a Famalicão, ganhámos e parece que o Benfica foi campeão europeu

Um Benfica que é o maior investidor [em jogadores] ...

Este ano, o discurso depois de ter sido eliminado foi: se passássemos o PAOK iríamos ser campeões europeus. Íamos longe. Não há filtros, nem critérios, há a máquina de comunicação e as pessoas acreditam nisso. Que iríamos longe. O problema é que não há cultura de vitória. Perder com o PAOK, poderia fazer questionar o presidente sobre as quebras de receitas. O que aconteceu? Perde, vamos a Famalicão, ganhámos e parece que o Benfica foi campeão europeu e já estamos todos contentes. Nova narrativa: exigimos ganhar a Liga Europa. Tem sido assim. Quando vamos embora da Liga Europa, para o ano é que é. Dois discursos. Se perde, já temos condições para reter talento. Se ganha, não podemos resistir às propostas. Quando vamos embora de vez, o presidente foca-se no campeonato.

Tiago Dantas foi para o Bayern de Munique.

É uma história mal contada. 'Tens que ir embora e manda lá uma mensagem a dizer que queres ir embora porque não jogas no Benfica'. E vais para o Bayern a troco de uma cláusula, acho de 8 milhões. O estranho é que não venha isso anunciado. É a prova evidente que a parceria estratégica é nociva para o Benfica. Quando disse há pouco que demorei muito tempo a descobrir...o meu compromisso foi com o Benfica e defendi o Luís Felipe Vieira, defendi na medida que deveria ser defendido em relação aos interesses do FC Porto. Mas, nessa mesma ligação, tive tempo para denunciar o contrato com a Olivedesportos. Não queria esse contrato. Vim embora no dia em que percebi duas coisas: que a aposta europeia não ia acontecer e que o Benfica iria fazer a parceria estratégica.

Não faria essa parceria?

Em termos históricos, o presidente anunciou a parceria num encontro de quadros. E disse na Assembleia-Geral seguinte. Estive em desacordo. Foi em julho de 2016. Disse que ia embora. Está gravado. Entendi que era o fim do Benfica voltar a ter capacidade europeia. Enquanto existir essa parceria estratégica, o Benfica não tem qualquer hipótese de ser campeão europeu.

Sou a favor da centralização dos direitos televisivos. Quem não quer hoje é o Benfica porque pode jogar a seu bel-prazer com a antecipação das receitas da NOS.

Se for eleito, o que decidirá em relação aos direitos televisivos?

Fácil. Sou a favor da centralização dos direitos televisivos. Quem não quer hoje é o Benfica porque pode jogar a seu bel-prazer com a antecipação das receitas da NOS. Contrato que não é conhecido.

E o que defende?

Seria um bem inestimável ao futebol português. Tenho pena que não seja o Benfica a dirigir [os direitos televisivos]. Interessa-me a existência de critérios objetivos que definam as receitas televisivas. Em Itália e Espanha foram impostos. Se alguma vez isso acontecer, sendo o Benfica o maior clube, será sempre prejudicado. Haverá a tentação do poder político de não dar aquilo que um “grande” tem. Este interesse do Benfica em manipular a distribuição de receitas televisivas vai prejudicar o clube na centralização dos direitos. Por isso, deve ser líder do processo da centralização.

Será que tenho de ter sempre o mesmo empresário português nas compras e vendas do Benfica?

Os empresários ocupam parte da sua agenda mediática. O futebol necessita ou não desses agentes?

É uma atividade na qual se pode ser representante das várias partes envolvidas. Clube vendedor, comprador e jogador. Juridicamente não é razoável, não posso representar as várias partes envolvidas. Mas é uma realidade. Mas sendo os empresários uma obrigação, não posso ter os empresários a ganhar mais do que aquilo que são as indicações do futebol europeu. E não posso ter sempre os mesmos empresários para a saída e os mesmos para a entrada. O mínimo que há é a suspeita. Será que são os únicos que compram ou vendem bem. Mas será assim? Será que tenho de ter sempre o mesmo empresário português nas compras e vendas do Benfica?

Rui Gomes da Silva
créditos: Diogo Gomes | MadreMedia

Quer concretizar. Está a falar de Jorge Mendes?

Nesta última venda...Temos o empresário que tem a parceria estratégica, primeiro resolveu o problema do FC Porto, libertando-o das exigências do fair-play financeiro e só depois foi ajudar o Benfica. Durante meses, ouvimos que o clube era um oásis nesta pandemia. Hoje está em graves condições financeiras e precisou de vender. O Benfica só venderia pela cláusula de rescisão, 100 milhões. E não só vendeu, por 70 milhões, abaixo da cláusula, como teve como contrapartida de levar um jogador que daqui a meses era livre. Um jogador que o treinador não queria. Temos um plantel que serve os interesses. É uma jogada cruzada. Vendes aqui, para comprar ali.

Se necessito de vender, é porque tenho uma situação financeira delicada. E se é assim, então é mentira o que andaram a dizer

Mas 70 milhões não é dinheiro?

Já lá vou. Vendemos o João Félix por 120 milhões de euros. Vendemos, mas não queria. Porque é que tive de pagar uma comissão de uma coisa que não queria? Em relação aos 70 milhões, são 65, depois tive de pagar mais 15 e ainda temos as comissões...48 milhões. E ainda não sei se ainda terei de pagar das operações financeiras associadas. Se necessito de vender, é porque tenho uma situação financeira delicada. E se é assim, então é mentira o que andaram a dizer. Ou não está em dificuldades e só se vende pela cláusula, ou está em dificuldade e andaram-me a mentir. O que acho é que está em grandes dificuldades financeiras.

Poderá incorrer no risco de, tal como o Porto, violar as regras do fair-play financeiro?

Está a 1% de incorrer na violação das regras do fair-play financeiro. Consta isso do relatório da SAD. Com a falta de receitas e a massa salarial, acaba-se o mito da boa gestão. Vendeu mil milhões e comprou 400 milhões. Onde estão os 600 milhões? Admitindo que são gastos legalmente, terá sido em gastos da estrutura, em jogadores que não serviram ao Benfica e foram maus negócios que só prejudicaram o clube, pergunto.

Os sub-23 e equipa B. Manter ou acabar?

Como sabe, os sub-23 foram criados pela Federação Portuguesa de Futebol numa resposta à Liga. Mas é uma guerra em que o Benfica não tem de estar. E está nesta guerra contra a Liga para defender a Federação. O Benfica tem de ter interesses permanentes. Na minha opinião, acabava com a equipa sub-23. Entre esta e equipa B não há nenhuma distinção. Na natureza, jogadores...

É só mais massa salarial?

É só mais massa salarial. Qual é a justificação? Para agradar à Federação. Veja os outros clubes que estão a acabar com a equipa B ou sub-23.

Disse agradar à Federação?

Quero que o Benfica defenda o seu rumo. A última situação a que se prestou a um triste espetáculo foi a contestação na Liga no campeonato anterior, pondo-se contra o presidente da Liga de Clubes. Antes, dizia que gostava muito de ir às reuniões no Porto, ia com carros muito rápidos e que se almoçava muito bem. Isso é o pensamento estratégico de quem lidera o Benfica.

Foi sempre assim?

Se calhar foi. Só que hoje em dia é mais visível. Hoje os interesses estão alinhados ...

E piorou desde que saiu da direção do Benfica?

Piorou. Desde a parceria estratégica, em 2016. Piorou no momento em que se “pegou” com o presidente da direção da Liga por causa da distribuição de dinheiros que tinham vindo da Federação para a Liga e que esta ainda não tinha distribuído. É um problema do momento. Tenta deitar abaixo a Liga porque não tinha sido distribuído dinheiro. Como se o Benfica fosse o alter ego do presidente da Federação. Era um problema entre Federação e Liga. Só lhe competia, se afetasse os interesses do Benfica. Percebeu-se que não afetava coisa nenhuma. Antes pelo contrário.

Ausência de estratégia?

O Benfica não tem estratégia. Durante algum tempo era a formação, agora não é a formação. Tinha 15 jogadores que iam ser campeões europeus, agora já não existem. De 2019, só lá está o Ferro. Não quis sair para determinado clube. São estas pequenas e grandes oscilações ... o Benfica nunca será campeão europeu, assim. Enquanto lá estive, dizia que tínhamos que lutar e as pessoas riam-se na minha cara.

Jorge Jesus apoiou o anterior presidente do Sporting e passados uns meses, (Bruno de Carvalho) estava na rua. (...) Repetindo-se a história sempre e por pequenos ciclos, é premonitório esse apoio

Jorge Jesus deu um apoio ao atual presidente. Caso seja eleito, será o seu treinador?

Jorge Jesus apoiou o anterior presidente do Sporting e passados uns meses, (Bruno de Carvalho) estava na rua. E nem foi por eleições. Repetindo-se a história sempre e por pequenos ciclos, é premonitório esse apoio. Não entro por aí. Já disse tudo o que dizer sobre Jorge Jesus. Tenho uma grande vantagem. 30 anos de Benfica. A escrever, pensar, tenho uma ideia, tenho um passado do qual me orgulho, nas vitórias, nas derrotas e não foi por isso que desisti. Penso o mesmo quando fui candidato em 1989, 1991, 1997, 2000 e durante os anos que lá estive.

Aos 62 anos e 30 anos de dirigismo ainda sente que pode dar algo?

Tenho um projeto feito contra os interesses, contra duas realidades do futebol português: aquilo que representou a Olivedesportos, Joaquim e António Oliveira, hoje menos representativa. Um atual candidato a presidente tem a ver com esses interesses. Uma candidatura que não é credível. Que nunca falou, nem escreveu, contra a Olivedesportos, nem contra Jorge Mendes.

Está a falar de quem?

Uma das candidaturas.

A que lhe pediu para se juntar ?

A vida é feita de convicções. Não é feita de favores. Podemos estar habituados a favores e cunhas. A minha vida foi feita sempre por convicções. Princípios, valores e projetos. E vou continuar assim. Não estou aqui apoiado por grupos de interesses, sou livre como os sócios do Benfica querem que o seu presidente seja. Não tenho nenhum envolvimento e compromisso com pessoas que pagam a minha campanha. Não tenho como apoiantes as grandes empresas de construção civil, gestores que ninguém conhece, não tenho nada disso. Tenho um percurso.

Repito. Não é uma perspetiva quixotesca?

Em 1991 disse: o Benfica tem de ser ecletismo, formação e ser campeão europeu. Disse o mesmo, enquanto candidato a vice-presidente de Luís Felipe Vieira, em 1997. Em 2000, nas eleições, fez agora 20 anos, sabe o que disse? Não queria o Benfica envolvido com processos judiciais. Que tivesse funcionários do Sporting ou do Porto. Um Benfica campeão Europeu, assente na formação. E não queria parcerias com empresários. Está lá tudo. E é curioso.

Falou de não existirem funcionários que são do Sporting ou Porto. Escolhe qualidade ou clubismo?

Qualidade. Essa há, de certeza, em 6 milhões de pessoas.

Domingos Soares de Oliveira tinha uma ligação afetiva ao Sporting?

(sorrisos) Foi. Não é.

Espero que cada uma das pessoas envolvidas seja absolvida, e isso não é tomado como apoio a ninguém. Porque é a única forma do Benfica limpar a sua imagem

Lembrou que, em 2000, disse não querer o clube envolvido em processos judiciais. É uma mancha reputacional a associação do nome do atual presidente a alguns casos que correm nos tribunais?

Espero que cada uma das pessoas envolvidas seja absolvida, e isso não é tomado como apoio a ninguém. Porque é a única forma do Benfica limpar a sua imagem. Podem dizer que é contra os meus interesses, porque se fossem condenados chegava mais depressa à liderança. Não. Qualquer condenação será tão grave ao Benfica, terá implicações tão graves, de natureza desportiva, que não quero admitir a ideia de que essas pessoas tenham cometido isso. O que é que eu desejo? Que sejam absolvidas. O Benfica é mais importante que o meu projeto.

Esteve na política. Defende a separação total entre política e futebol?

Total. Enquanto fui candidato, a vice-presidente para o futebol, em 1997, não era deputado. Tinha saído em 1995 e voltei em 1999. A 3 de julho de 2009, fui eleito vice-presidente do Benfica e mantive-me em funções enquanto deputado, mas não há uma declaração minha a dizer querer voltar a ser candidato. Acho incompatível ter funções políticas e desportivas. Nos sete anos de Benfica não tive uma expressão pública. Nunca fiz parte de nada. Quem anda na política desde os 18, que já fez muita coisa na vida, já esteve na Assembleia da República, foi vice-presidente de um partido político, membro do conselho jurisdição...tenho essa vantagem. Podem acusar-me que devia ter maior empenho na defesa das minhas ideias, ou discordar daquilo que defendi, mas ninguém põe em causa a minha seriedade e transparência.

Já falámos de formação e ambição europeia. Falta o ecletismo. Como é que se propõe a apoiar as modalidades? Reconhece que nos últimos 10 anos teve os melhores resultados.

Sim. Mas o Sporting apareceu no voleibol e ganhou. Investiu no hóquei em patins. O Benfica foi campeão europeu duas vezes, hóquei e futsal, com o dirigente que mandaram embora.

Como se financiam?

O dinheiro do futebol tem de ser só para o futebol. Procurei um instrumento que não onere sócios e não responsabilize o clube para libertar 1,5 milhões de euros, no imediato, e em velocidade cruzeiro, 5 milhões de apoio às modalidades amadoras. É um princípio. É uma financeira que fornece um cartão que permitirá operações. Do cartão crédito normal a empréstimos. Não há custos para o Benfica.

O Benfica tem de manter as Casas do Benfica

Sem futebol nos estádios e as limitações aos ajuntamentos, conhece a realidade com que se deparam as Casas do Benfica?

O Benfica tem de manter as Casas do Benfica. Mais importante que ter um certo número, é ter sócios pagantes de quotas. As Casas do Benfica têm uma percentagem 10 a 40 % de sócios. É outra das questões a resolver. Trazer as Casas para dentro do clube é o objetivo.

Como?

Benefícios. As Casas têm uma situação muito complicada, falta de venda de produtos, de gente a ver futebol, hoje estão em dificuldades. Estive na casa do Benfica do Portimão e diziam-me que as pessoas chegam, veem o futebol, tomam o café e vão embora. Isto é a realidade.

O futebol, em geral e do Benfica, em particular, ainda é um livro aos quadradinhos no qual possa contar uma história às crianças?

O futebol é uma paixão. Não é tão romântico quanto no tempo do meu pai, mas é uma paixão. Tem muitos interesses? Tem. A única coisa a saber é que não nos podemos vender a esses interesses.

Tenho dois limites. A BTV continuar a dar os jogos. A transição para a Sport TV será a tentação

Venderia a maioria do capital da SAD?

Tenho dois limites. A BTV continuar a dar os jogos. A transição para a Sport TV será a tentação [dos outros candidatos], um por ação, outro por omissão. Não admito de maneira nenhuma que o Benfica perca a maioria do capital da SAD. O que pode acontecer a breve, caso não ganhe, uma assembleia-geral para aprovar a remuneração dos dirigentes, violando os estatutos e mais à frente invocar as dificuldades financeiras para vender o capital da SAD.

Será um presidente não remunerado?

Assumo o compromisso de nunca ser um presidente remunerado no Benfica. Clube e SAD, mesmo que mudem os estatutos. Não ando desesperado à procura de emprego, tenho um projeto para o clube que não é de interesses, que não é da Gestifute.

Uma candidatura que cai de paraquedas e foi a quarta escolha de um grupo de interesses. (...) Essa pessoa não tem nenhuma ideia a não ser querer ser presidente

Sente-se copiado nas ideias? Não apresentou 90 medidas?

Ouça, até nos pilares, na forma da apresentação, já não digo no conteúdo, uma lista apresentou cinco pilares. Chamou-lhes pilares. Podia ter chamado trave-mestra. Uma candidatura que cai de paraquedas e foi a quarta escolha de um grupo de interesses. As ideias são de alguém que lhes forneceu. Essa pessoa não tem nenhuma ideia a não ser querer ser presidente. O Benfica não pode ser pessoas que não têm história, nem pode ser governado por grupos de interesses. É isso que os sócios têm que optar.

Acredita que, no caso de eleito, seja o último mandato de Vieira e fará, depois, a sucessão?

Conheço-o bem e nunca fará a sucessão de nada. Tem necessidade de continuar. Mas espero que seja o último, sim. Aliás esperava que não se tivesse candidatado. Por ele, nunca se vai embora. São meros anúncios estratégicos e táticos. Quem gostaria de ter? O filho na direção, como fez nas empresas.

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