O ouro está nestes dias a ser negociado nos mercados financeiros à volta dos 1.700 dólares por onça (no caso do ouro, falamos da onça-troy, utilizada especificamente para definir o peso de metais preciosos) níveis não vistos desde finais de 2012, numa altura em que ainda estávamos a tentar recuperar da crise da dívida ocorrida na Europa, que levou ao resgate financeiro da “Troika” às economias europeias mais endividadas (como foi o caso de Portugal).

E é exatamente numa altura de crise que voltamos a ver os metais preciosos como o ouro a caminho dos máximos históricos. Tal movimento deve-se ao facto de o ouro ser visto como um ativo seguro: os chamados activos de refúgio, procurados pelos investidores em tempos de incerteza ou turbulência no mercado de acções.

O recente aumento nos preços é motivado por preocupações macroeconómicas devido à crise da pandemia da covid-19; contudo, esta é uma tendência cujo início está em 2018, não sendo explicada apenas pela actual situação que vivemos, mas sim pelas políticas monetárias expansionistas da Reserva Federal Norte-Americana (FED).

É natural que este rally do ouro abrande se entretanto surgir a vacina contra o novo coronavírus. Além disso, existe a possibilidade de os bancos centrais começarem a vender as suas reservas de ouro para financiar os seus pacotes de estímulo económico. Tudo isso pode conter os preços do ouro no curto prazo — no entanto, no longo prazo, o ouro terá de valorizar.

Porque será o ouro uma moeda de último recurso?

“O ouro é dinheiro, tudo o resto é apenas crédito.” – JP Morgan

Se existirem dúvidas em relação à afirmação acima, vejamos o que ocorreu no caso da Venezuela. A 4 de junho de 2019, a agência Bloomberg informou que o Deutsche Bank confiscou 20 toneladas de ouro do país sul-americano pelo alegado incumprimento de pagamento do empréstimo de 750 milhões de dólares, recebido em 2016. Na mesma linha, em março de 2019, o banco Citigroup apreendeu o ouro venezuelano. Adicionalmente, os acontecimentos dos últimos anos, envolvendo o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos da América, com vista a bloquear o uso do ouro nas transações internacionais para a Venezuela, Irão, Turquia, entre outros países, são a mais recente prova desse facto.

O ouro tem milhares de anos de história que sustentam a sua importância como reserva de valor. Se considerarmos todas as civilizações desde o ano 550 a.C. (quando as primeiras moedas de ouro foram cunhadas e postas em circulação), o ouro tem sido a forma de dinheiro mais duradoura ao longo da história.

Após a Segunda Guerra Mundial, os sistemas financeiros globais e as economias mundiais mais desenvolvidas estavam em ruínas. O prémio foi para o vencedor, que neste caso significa que os Estados Unidos coletaram a maior parte do ouro da Europa e Ásia durante as batalhas, transferindo-o para seu território. Assim, um novo sistema monetário foi criado, com o dólar como moeda do mundo.

Em 1944, em Bretton Woods, New Hampshire, este sistema foi definido com o dólar a ser convertível em ouro pelos bancos centrais, mas cada país teria de adotar uma política monetária que mantivesse a taxa de câmbio da sua moeda dentro de um determinado valor indexado ao dólar — cujo valor, por sua vez, estaria ligado ao ouro numa base fixa de 35 dólares por onça. Este sistema deu credibilidade aos bancos centrais dizendo que as suas moedas estavam lastreadas pelo ouro, simplesmente tendo dólares como reservas.

Os EUA começaram então a impressão de moeda e foi quando Lyndon Johnson implementou os grandes programas da sociedade do bem-estar, e ao mesmo tempo estava envolvido na Guerra do Vietname. Os bancos centrais, vendo a degradação das suas reservas, começaram a repatriar o seu ouro. Esta corrida ao banco durou até a reserva de ouro dos EUA ser cortada em cerca de 80% desde Bretton Woods I.

A fim de preservar as reservas em ouro dos Estados Unidos, Richard Nixon acabou com a conversibilidade direta do dólar em ouro pelo banco central, em agosto de 1971. Basicamente tratou de rasgar as bases finais do dinheiro honesto da moeda de reserva do mundo e trocou por uma simples promessa de pagamento por parte do governo. O conceito de propriedade privada foi destruído naquele dia, tendo sido o maior roubo da história porque ninguém mais sabia o que era realmente “o dinheiro”. A partir desse dia, nenhuma pessoa tinha um lugar seguro e honesto para armazenar o seu trabalho e riqueza.

Desde então o dólar americano conseguiu disfarçar-se como um substituto de impressão barata face ao ouro, mas essa ilusão está a deixar de ter credibilidade.

O estatuto do ouro como um metal precioso impede qualquer entidade oficial de destruir o seu valor, por isso, sempre foi visto pela FED como um entrave às políticas monetárias expansionistas.

Segundo o GATA (Gold Anti Trust Action Committee), há evidências da existência de um conluio entre instituições financeiras para reprimir os preços do ouro. Se o ouro não fosse manipulado e subisse até encontrar o seu verdadeiro valor, poderia prejudicar o status e a confiança no dólar, podendo tornar-se numa ameaça para um país que se tornou totalmente dependente da moeda de reserva mundial.

Acima de tudo o ouro é um refúgio à inflação

Os Bancos Centrais em todo o mundo, em especial a FED, estão a executar pacotes de estímulo para revitalizar as suas economias de forma a fazer face à crise provocada pela pandemia do coronavírus. As suas políticas monetárias concentram-se sobretudo na impressão ilimitada de dinheiro para financiar os seus “estímulos”, que degradam o valor das moedas no longo prazo.

Tal desvalorização do dinheiro não se observa comparando as moedas entre si dado que praticamente todas as instituições monetárias estão a utilizar as mesmas práticas de desvalorização cambial, mas comparando com os preços do ouro será fácil de observar essa desvalorização cambial.

O metal precioso é um excelente termómetro da desvalorização das moedas fiduciárias — trata-se de moeda escritural que não tem lastro algum, que foi criada do nada pelo sistema bancário. A valorização no valor do ouro reflete, em larga medida, a inflação gerada pelos bancos centrais, através do excesso de liquidez e de taxas de juro historicamente baixas. Em troca de financiamento ilimitado para o governo, a economia é dirigida para o benefício dos sistemas bancários.

Para entender como o ouro terá de valorizar no longo prazo, independentemente dos restantes activos negociados em bolsa, é fulcral entender primeiro que a principal razão pela qual pode sentir a necessidade de comprar ouro está provavelmente relacionada com a inflação.

Este é um retrato da destruição do dinheiro com o qual as pessoas são pagas e armazenam a sua riqueza... É o retrato da classe média que está a ser destruída por meios fiduciários. Segundo o departamento de estatísticas nos EUA, desde 1950 a inflação subiu mais de 400%, e muito se deve à intervenção da FED.

Será o ouro usado por outras potências mundiais para destronar os EUA como principal economia mundial?

Enquanto os países ocidentais não estão ainda totalmente convencidos da importância do ouro, as grandes potências como a China e a Rússia têm vindo a comprar ouro em grandes quantidades, quer através da produção, quer através da importação (as importações devem ser feitas lentamente e fora dos mercados, a fim de manter os preços acessíveis).

A China é atualmente o maior produtor de ouro a nível mundial, mas a Rússia tem planos para ultrapassar a produção da China nos próximos anos. Espera-se que estes países não partilhem o ouro com outros países, quando a procura a sério começar.

Desde 2001, a procura de investimentos mundiais por ouro cresceu, em média, 15% ao ano, segundo os dados do World Gold Council.

A Federação Russa, em 2019, comprou 159 toneladas, elevando as reservas do metal a 2.271,2 toneladas. Graças a esse volume, o país eslavo tornou-se o maior comprador de ouro monetário do ano, acumulando 20% das transações globais, além da terceira posição mundial como produtor.

A Rússia superou a China ainda em 2018, e a diferença entre os dois países só cresce. Contudo, Pequim é também um dos principais compradores de ouro ao adquirir cerca de 100 toneladas de ouro em 2019, atingindo as 1.948 toneladas. O ranking global de reservas de ouro é liderado pelos EUA, Alemanha, Itália, França e em quinto lugar vem a Rússia.

Desta forma, a China, cada vez mais apoiada pela Rússia – as duas grandes nações da Eurásia – começam a dar passos decisivos para criar uma alternativa muito viável à tirania do dólar norte-americano sobre o comércio e as finanças mundiais.
Wall Street e Washington não estão a gostar, mas estão impotentes para deter o movimento.

Agora, por ironia, duas das economias estrangeiras que garantiram ao dólar sobrevida artificial desde 1989 – Rússia e China – acompanhadas provavelmente pelos seus principais parceiros comerciais nos RICS (Rússia, Índia, China, África do Sul), e também pelos países seus parceiros eurasianos da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) estão bem próximas de completar a arquitetura funcional de uma nova alternativa monetária a um mundo do dólar.

Como beneficiar da eventual valorização do Ouro no longo prazo?

O ouro, à imagem do petróleo, é negociado através de contratos futuro, na bolsa COMEX, a qual faz parte do principal e mais diversificado mercado de derivados do mundo - CME Group.

A COMEX funciona num sistema de contratos de reservas fracionadas (permite vender contratos sem que as pessoas detenham o ouro físico, sendo obrigadas a fechar a posição o mais tardar no vencimento de cada contrato futuro), em que a quantidade de ouro nominal representada nos contratos futuro em aberto supera em muito a quantidade de ouro realmente armazenado. As empresas vendedores de ouro vendem contratos de ouro com o desejo de fixar um preço com base na produção futura esperada, usando o sistema de negociação como ele deveria ser usado. Os especuladores que vendem contratos de ouro sem ouro para satisfazê-los estão à procura de problemas e estão a colocar em risco todo o sistema. Se o COMEX fosse uma bolsa de valores onde a totalidade dos contratos negociados estão cobertos por ouro físico, seria necessário comprovar a propriedade de uma determinada mercadoria (ouro) antes de vender os seus direitos contratuais. Obviamente isso não acontece, e é por isso que o sistema é inerentemente instável.

Se os especuladores tentam obter ouro físico comprando contratos de futuro, esgotando a quantidade armazenada, aconteceria que os especuladores com vendas a descoberto seriam forçados a entrar no mercado e comprar ouro a qualquer preço. No caso extremo de não encontrarem ouro, a COMEX rebentava, assim como todos os shorts (vendas a descoberto) e todos os longos (compras) que ficam sem ouro.

No cenário extremo de o ouro chegar ao infinito e o dólar a zero, a COMEX caia, os ETFs de metal de ouro podem-se tornar inúteis, mas as ações do ouro, independentemente do preço do dólar, mesmo que não possam ser calculadas, ainda existem activos reais de empresas reais que produzem ouro real.

Se o dólar realmente cair a zero e a hiperinflação realmente acontecer, o ouro será dinheiro sem um intermediário, e as ações de ouro, independentemente do seu valor nominal em dólar, serão as únicas empresas capazes de pagar dividendos reais a seus acionistas — em ouro real.

Como dizia o escritor Voltaire “No final, todo o dinheiro de papel retorna ao seu valor intrínseco: sem valor”, e nesse cenário o melhor mesmo é ter dinheiro físico em casa — OURO.

(Artigo atualizado às 09:39 de sexta-feira, 15 de maio. Por lapso, no artigo o preço do ouro estava por gramas e não por onças-troy.)

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