Já não há amigos chegados. Deixámos de ter o mínimo de intimidade com os nossos mais íntimos amigos. Não permitimos, durante dois meses, os “amigos de casa” entrar na nossa residência. A amizade esteve em lockdown e não vai ser de um dia para o outro que a nossa vida social vai voltar ao normal.

A necessária mobilização nacional para o combate ao vírus fez-nos aceitar - sem grande manifestação de desagrado - que estar com os amigos não é uma deslocação essencial. Apesar de alguma frustração inicial, é possível que muitos de nós nos tenhamos conformado com a impossibilidade da vida lá fora. No fundo, tornámo-nos numa espécie de Anti-Pinheiros-de-Azevedo. “Estou sequestrado, gosto de estar sequestrado, é uma coisa que me conforta”. Neste momento, sinto-me completamente desprovido de jeito para a socialização.

É possível que seja mais difícil do que aparentava sair para motivos de fruição. A calma estoica a que fomos forçados passou muito por negar e rejeitar emoções. Fomos tão forçados a ter serenidade que vai ser difícil a transição para a balbúrdia. Estamos acomodados em casa. Não estamos nem tranquilos, nem excepcionalmente satisfeitos com a decoração da nossa sala. Mas passámos tempo rodeados de móveis suecos que teremos desenvolvido uma inevitável síndrome de Estocolmo. E tanto tempo a ouvir que precisamos de ter paciência que teremos desenvolvido uma inevitável síndrome de estou calmo. E tanto tempo a escrever sobre o tema que chegamos através desta conclusão através de uma evitável aliteração.

Tal como o reatamento da economia, o reatamento das amizades tem de ser feito passo a passo. Não quero isto dizer que vou adiar estar com os meus amigos. Vou, por outro lado, evitar estar com conhecidos. Vivemos tempos de muita dificuldade para a manutenção de relações por cordialidade. Aquelas pessoas com quem tínhamos de marcar um café? É pouco provável que “um dia destes” seja um destes dias. Aquelas relações com pessoas com as quais nos cruzamos na discoteca e com que só temos uma relação por intermédio de outrem ("Então, tens estado com o Durval? Já não o vejo há imenso tempo"), tal como os sítios onde as costumamos encontrar, serão as últimas a ser reatadas.

Recomendações

Comecei a ver esta série.

Newsletter

As notí­cias não escolhem hora, mas o seu tempo é precioso. O SAPO 24 leva ao seu email a informação que realmente importa comentada pelos nossos cronistas.

Notificações

Porque as noticias não escolhem hora e o seu tempo é precioso.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.