Antes de mais, não sou betófobo. Até tenho que amigos que são. Viram o eu fiz aqui? Óptimo, adiante. Há generalizações injustas e, por isso, quero também dizer que nesta crónica, quando digo “betos” não me refiro a todos os tipos de betos, mas sim a um tipo de beto específico que grassa por aí: o beto oprimido. Não é o beto que vive apenas bem e orgulhosamente do seu estilo de vida, de roupa, de crença. Não, não. É o beto que apesar disso se sente muito oprimido porque é alvo de bullying, mesmo nas alturas em que nem sequer é mencionado.

Ou seja, é o tipo de beto que me vem perguntar muitas vezes, tantas delas a propósito de nada, outras a propósito de direitos LGBTI+, igualdade de género ou racismo, se eu não me sinto um hipócrita “porque estás sempre a defender as minorias mas depois fazes bullying aos betos só porque usamos calças caqui, camisa azul bebé e cruz ao peito”.

Estive a analisar profundamente esta questão durante uns longuíssimos 3 segundos e cheguei à conclusão que, se calhar, até sou. Se calhar, tanto eu como toda a gente que alguma vez expressou o mínimo escárnio em relação à sub-espécie beto oprimido (ou bet’oprimido, se preferirem) não percebemos como são uma minoria oprimida.

As pessoas LGBTI+ são discriminadas, são impedidas legalmente de ter os mesmos direitos que as outras, são gozadas, são agredidas e são assassinadas há séculos e continua a acontecer. A desigualdade de género mantém um sistema patriarcal que subjaz à violência doméstica que mata mulheres (e homens e crianças), que permite diferenças salariais, de acesso a cargos de chefia, que permite o assédio e a sexualização constante e mais um sem número de coisas, há séculos e continua a acontecer. O racismo, tanto o visível como o estrutural, discrimina pessoas negras, dificulta-lhes muito o acesso ao ensino, a determinados trabalhos e à habitação, escraviza, violenta e mata, há séculos e continua a acontecer. Mas, de facto, não é por nada disto que o beto oprimido não está exactamente no mesmo ponto que estes grupos sociais, só porque estuda na Católica, tem um carro oferecido pelos pais e já tem trabalho e casa garantidos por eles assim que voltar do ano sabático que vai fazer em viagem pelo mundo, sempre com a sua cruz ao peito. Claro que ser espancado só por andar de mão dada com alguém do mesmo sexo deve ser chato, mas ter que ouvir piadas sobre o seu cabelo ridículo, ser da Juventude Popular e amar o Chicão, ou até sobre a sua inacreditável falta de noção do privilégio, deve ser devastador. Não há sapato de vela que aguente.

Portanto, todos nós, enquanto sociedade, devemos ser mais carinhosos para com o beto oprimido, essa minoria ostracizada, e não lhe fazer bullying sob o risco de lhe dar a volta ao estômago com a ansiedade e o fazer vomitar o almoço do Bel Canto assim que chega à Comporta para brincar aos pobrezinhos.

Beto oprimido, um grande e solidário abraço, e além de prometer não fazer mais bullying com o facto de seres contra o aborto e até o preservativo, vou já fazer um donativo à Amnistia Internacional para que possam ajudar nas agruras da vida.

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

- Mamas e Badanas: ri-me muito com este livro do João Pedro George.
- Sociedade do Cansaço: muito bom livro de Byung-Chul Han.

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