Virgina Wolf escreveu que o feminismo é essa ideia radical de que as mulheres são pessoas. Sim, era feminista. Como eu, como tantas outras pessoas, homens, mulheres, não binários, que observam o mundo e têm obrigatoriamente de concluir que o feminismo ainda faz – infelizmente – sentido e falta.

Porque as mulheres continuam a não ter os mesmos direitos que os homens. Porque as mulheres são vítimas de uma violência contínua. É-lhes extirpada a palavra, a possibilidade de progressão na carreira, a dignidade, até o prazer sexual.

Não esquecer que as estimativas das Nações Unidas apontam para 200 milhões de crianças no mundo sujeitas a excisões ou mutilações sexuais. Crianças do sexo feminino. O objectivo desta prática é o de retirar a possibilidade de prazer sexual às mulheres. Geralmente as excisões são feitas sem qualquer anestesia. A sua prática continua a ser algo condenável. Os defensores reclamam ser uma prática cultural. Não tem explicação possível, porque uma prática cultural que mutila mulheres não merece consideração. As mutilações sexuais são prática comum em trinta países.

Hoje celebra-se o Dia internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres. Em Portugal, neste ano desastroso de 2020, já foram mortas trinta mulheres. Mortas às mãos de ex maridos, ex namorados. Isto significa que a cada dez dias é morta uma mulher em Portugal. No mundo, a cada dois segundos, uma mulher é violada. As mulheres são vítimas de violência na sua casa, no seio das famílias, nos lugares de trabalho, na rua. As mulheres são um alvo e são-no há muito tempo, há demasiado tempo. A pretexto das condições culturais, nas linhagens e práticas, menoriza-se as mulheres e as meninas.

Não é fácil ser-se mulher. Nunca foi. Somos uma minoria? Não, até somos a maioria, mas vivemos séculos oprimidas, desvalorizadas, remetidas ao silêncio, à servidão. “A dimensão do problema continua a ser alarmante: na Europa, uma em cada três mulheres já foi vítima de violência física e/ou sexual; na União Europeia, praticamente todas as vítimas de tráfico para fins de exploração sexual são mulheres ou raparigas”, escreveu, há um ano, Frederica Mogherini da Comissão Europeia.

É preciso querer ver e debater a questão da violência. É preciso denunciar e acreditar que é possível parar as agressões, físicas e psicológicas. É importante educar as mulheres desde muito cedo no sentido da autonomia. Virginia Wolf diz, no livro Um Quarto para Si Só (reúne um conjunto de palestras que proferiu junto de jovens universitárias nos anos vinte do século passado), que todas as mulheres deveriam ter um espaço só seu, e um rendimento. A dependência financeira é grande aliada do silêncio e dos agressores. É preciso dizer basta e é preciso entender essa ideia radical: somos pessoas. Não somos sacos de pancada.

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