Maria-Luz Vega, da Organização Internacional do Trabalho, deu uma entrevista esta segunda-feira ao Observador em que nos avisa de que “os jovens de hoje vão mudar 13 vezes de emprego ao longo da vida”. Poderia estar a referir-se a uma utopia onde diversificação de saberes nos permitia ter 13 bons e bem pagos empregos ao longo da vida, porque não conseguiríamos suportar o tédio de décadas a exercer o mesmo mister. Mas não. A realidade é que a minha geração está condenada à incerteza laboral, não porque se enfastia facilmente, mas porque é mais difícil conseguir um emprego que lhe conceda direitos laborais e salários compatíveis com a formação.

O problema com esta nova forma de empregar pessoas, a que deram o nome queridinho, nada ingénuo, de economia de partilha, é que os negócios começam sempre com uma patine descomplexada, benemérita – mas rapidamente concluímos que estão a causar mais injustiças do que a verdadeiramente servir a comunidade. Fazia mais sentido se se chamasse economia de partilhas, porque de facto faz lembrar as partilhas da família depois do avô morrer, em que 12 desgraçados lutam por uma fatia daquilo que são migalhas.

Mas, lá está, o Airbnb, na génese, é uma boa coisa. “Então, malta? Nós só queríamos que a senhora idosa com uma reforma insuficiente e que tem um quarto a mais no seu T3 na Sé pudesse aumentar os seus rendimentos, alugando o mesmo a respeitáveis turistas, que não só arranjam uma dormida mais barata do que no Holiday Inn, como se envolvem ainda mais com a genuína vida lisboeta através do parapeito da casa de uma velha! Que culpa é que temos de que, passado uns anos, gigantescos fundos imobiliários adquirissem edifícios como o que a idosa arrenda para criar autênticos aldeamentos em zonas habitacionais, alterando por completo a funcionalidade dos bairros em que se instalam, criando uma bolha imobiliária que impede que as famílias de classe média se estabeleçam na capital do país e arremessando a velha pela janela a ver se ela volta de uma vez por todas para a terrinha?”. 

Também a Uber, na génese, é uma boa ideia. “Então, malta? Nós só queríamos que o senhor quarentão que exerce um trabalho das 10h às 17h, mas que adquiriu um carrinha VW bem bonita, possa rentabilizar o seu automóvel transportando cidadãos modernos que têm aversão a taxistas para restaurantes étnicos no Príncipe Real! Que culpa é que temos de que, passado uns anos, robustas empresas de gestão de frotas, renting e leasing se aproveitassem da dificuldade na procura de emprego dos jovens, velhos e imigrantes para alugarem as viaturas a um preço que obriga os condutores a passar 16 horas por dia dentro de um carro se querem trazer um salário aceitável, ainda que incerto, para casa?”. Estão todos ilibados.

Mas a UberEats, para mim, é a mais inspiradora das apps laborais. “Olhe, o senhor quer fazer dinheiro? Só tem de instalar esta aplicação. Calma, primeiro tem de alugar uma mota. Sim, sim. Temos aqui estas ótimas, só tem de largar umas centenas de euros à cabeça. Tome aqui esta mochila verde, agora é só esperar que o telemóvel vibre. E depois é só fazer dinheiro! Exacto, 75% de menos de três euros por entrega. Sim, é-nos indiferente se o restaurante é no quarteirão ao lado ou em Algés. O valor é o mesmo. Quanto é que vai fazer por mês? Ah, ah, ah. Muito giro. Sei lá. Depende. De quantos entregadores estão na rua, de que horário escolhe. Já viu? Pode escolher o seu horário! Mas o melhor é focar-se nas horas de refeição. Então, trabalha das 11h às 15h, o almoço é essencial. Depois, trabalha das 19h às 24h, porque isto há os estrangeiros que jantam cedo e a malta das chefias que às vezes não se mete em casa antes das 23h. Não seria parvo trabalhar das 9h às 11h, já que há gente que nem tempo tem para ir buscar pequeno-almoço. Nem das 15h às 19h, porque sabe-se lá a quantas pessoas é que dá um ratito entre refeições. Seria também uma oportunidade perdida se não estivesse ligado da meia-noite às 4h, o senhor tem noção da larica que dá uma bebedeira? Só se for estúpido é que não escolhe trabalhar o dia todo. Vê? Liberdade para trabalhar quando quer! O senhor é um empreendedor! Viva! Viva!”

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