Sua Excelência o Presidente da República;

Senhor Presidente da Assembleia da República

Presidente Ramalho Eanes

Senhores Vice-Presidentes da Assembleia da República

Senhoras e senhores Conselheiros de Estado

Senhoras e senhores deputados

Portuguesas e portugueses

Bactérias, protozoários, fungos e caríssimos colegas vírus que hoje marcam aqui presença

Na qualidade de vírus que assola o território nacional, não podia abdicar de me dirigir a esta casa e aos portugueses. É o primeiro 25 de Abril desde que nasci e ainda bem que se assegurou que não fosse o primeiro a não ser de todo celebrado. É verdade que todos gostaríamos que aqui estivessem reunidas 700 pessoas, como no ano passado. Especialmente, devo dizer, eu próprio. Mas não o assinalar de todo seria admitir que vivemos bem sem o 25 de Abril.

Senhoras e senhores deputados, aproveito este momento para sugerir que não politizem o vírus. Não me politizem a mim. Eu não sou de esquerda, nem de direita. Não sou liberal, nem socialista. Não sou fascista, nem comuna. Invado tanto os corpos de idosos que combateram o Estado Novo na clandestinidade, como daqueles que fizeram parte da PIDE. Infecto todas as ideologias por igual.

Pedia encarecidamente ao CDS, através do deputado que aqui hoje representa o partido, que não utilizasse a minha pessoa para justificar a sua desconsideração sobre esta data. Acredito piamente que os senhores, se pudessem, tinham impedido que a revolução que estamos aqui a celebrar acontecesse na altura, com a desculpa de ainda não existir ainda vacina para a rubéola. Temos pena.

Pedia também ao Presidente da Assembleia da República que não instrumentalizar esta situação difícil que eu causo para distribuir recados ou lições de moral. Abril não é só seu. O 25 de Abril é de todos os portugueses, até da minoria que tem a sensação de que a sua vida ficou pior após a revolução. Hoje não é o dia em que se canta “O Ferro É Quem Mais Ordena”.

Antes de me ir embora - e quem sabe um dia voltar - queria deixar um elogio ao vosso país. Não estava a espera de que dessem tanta luta. Julguei que me ia dar melhor em Portugal. Uma população envelhecida, uma alimentação nem sempre rica em vitaminas, um convívio inter-geracional intenso. Enganei-me. Fizeram tudo para me barrar entrada, algo que em parte julgo dever-se ao respeito que têm pelos vossos profissionais de saúde, que me têm feito a vida num inferno.

Alojar-me nos vossos organismos é a minha forma de não morrer. Destruir o vosso Serviço Nacional de Saúde é a minha forma de prosperar. Por essa razão, digo o seguinte com propriedade e por experiência própria: tenham cuidado com aqueles que desejam pôr em causa o SNS para assegurar a sua própria sobrevivência, para obter prosperidade.

Portugueses, o medo instalado durante a minha estadia no vosso país é perfeitamente justificado. Assim que eu me for embora, deixará de o ser. Para me combater, revelaram o melhor de vocês. Mas também mostraram aquilo que têm de menos bom. Uma certa atracção por um Estado musculado, um encanto pela a delação, uma coabitação pacífica com a vigilância. Seria expectável que, em relação a estas tendências, já beneficiassem de imunidade de grupo.

Tudo aquilo que davam como garantido não desapareceu totalmente, foi uns tempos para uma arca frigorífica. Não se podem é esquecer de descongelar os Direitos amanhã. Não confundam aquilo que é sanitário com aquilo que é totalitário. Não tornem um vírus criado pela natureza numa doença crónica de que parasitas humanos se alimentam.

Por fim, é preciso que saibam que o período que se seguirá a esta temporada que cá passei será de tumulto político e de cataclismo económico. Em todo o caso, peço-vos: tenham cuidado se aparecer um regente de Finanças em Coimbra a pedir um bocadinho de mais poder para pôr as vossas contas em ordem. Espero que, quanto a isso, já estejam vacinados há 46 anos.

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