Uma banana colada à parede com fita adesiva custou 108 mil euros. É arte, dizem. O investimento mais parvo de sempre, já que a banana apodrece rápido e quando está muito madura só dá para fazer batido. Dizem que dinheiro investido em carros é o que mais rápido desvaloriza, mas comprar banana a este preço parece-me pior. Sim, fita adesiva dá sempre jeito ter em casa, mas usa-se uma vez e depois já não cola igual, além de que existem formas melhores de segurar bananas e quadros na parede sem ser com fita adesiva que, depois, se queremos redecorar a casa vem a tinta toda atrás.

Tinha sido comprada por um palerma de uma galeria onde estava exposta e foi lá outro artista, tirou-a da parede e comeu-a, dizendo que agora a obra se chamava “Artista com fome”. Giro. Ninguém ficou muito preocupado por ele destruir e comer uma banana de 100 mil euros, sabem porquê? Porque toda a gente sabe que a banana não vale isso e que basta meter lá outra porque, na verdade, é tudo uma palhaçada para pseudo apreciadores de arte paparem, metaforicamente e, neste caso, literalmente. Isto fez-me lembrar uma vez que fui a um museu de arte contemporânea onde vi muita coisa cara apelidada de arte: ele era tijolos e bocados de betão amontoados, obras de arte que qualquer trolha faz enquanto come a sandes de torresmos e manda piropos; ele era pedaços de manequins de loja pendurados em cordas, coisa que qualquer criança com tendências psicopatas também faria facilmente; mas, o pináculo daquela exposição era uma tela em branco, pendurada numa parede vazia e também ela branca. Em frente a essa tela estava um guia artístico, um connoisseur de arte moderna, a explicar a cerca de 20 pessoas o que aquilo significava. "O que o artista quer transmitir com este quadro é que a arte está na cabeça de quem a vê, o público é que é o verdadeiro artista ao imaginar o que pode estar aqui". Dissertava ele, enquanto as 20 pessoas olhavam e abanavam a cabeça afirmativamente e largavam um "hum hum" e "exactamente", enquanto tinham mini orgasmos hipsters nas calças de flanela. Era um quadro branco, ponto final! Estou a ver Miguel Ângelo a dizer ao Papa "Olhe, se calhar isto fica em branco e depois as pessoas imaginam? O que acha? É mais rápido, mais barato e não me dá cabo das costas". Tinha sido queimado numa fogueira. Belos tempos.

Havia outra instalação que não era mais do que uma chapa de metal no chão, com uma parte de aço inoxidável e a outra não. Uma chapa quadrada, de 2 metros por 2 metros, com uma circunferência de 10 centímetros de diâmetro algures, não no meio, porque a simetria é para artistas sem imaginação. O mesmo conhecedor explicava "Aqui temos esta peça, em que o metal se vai erodindo com os quatro elementos da natureza e principalmente com todos nós que lhe passamos por cima. Nós é que estamos a criar a arte". Mais uma vez, cabeças concordantes, ovelhas do anti-sistema que acham que são cultas por não seguirem modas, mas que apenas seguem a moda de não seguir a moda. Apeteceu-me baixar as calças e efectuar um excelso cocó em cima da placa e, depois, em tom solene dizer: "É uma honra contribuir para esta obra de arte em constante transformação, estas fezes são os valores da sociedade actual e o cheiro simboliza o imenso esgoto onde todos andamos a vaguear que nem ratos à procura da sobrevivência". Garanto-vos que ia ser aplaudido. Aliás, lembro-me de há uns anos haver uma peça de teatro “experimental” em que pessoas baixavam as calças e urinavam em cima de jornais com notícias políticas. Fiquei contente porque isso faz da minha cadela uma artista. Por falar nisso, vendo tapete urinado, em que a mancha de urina se assemelha a Jesus Cristo, por dois milhões de euros. Interessados podem enviar e-mail.

Para ir: Resto da tua vida, a peça.

Para ver: Marriage Story, no Netflix.

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