Às vezes, uma resposta verdadeira esconde tanta coisa que quase parece mentira. É o que acontece quando dizemos que a palavrinha «vírus» tem origem latina. É verdade que tem — mas há muito mais a dizer. Afinal, não se pode dizer que tenha vindo, direitinha, do latim até ao português como, por exemplo, a palavra «lua». A «luna» latina veio pelos séculos fora, perdendo o «n» a certa altura, chegando aos nossos lábios sem grandes sobressaltos — o que se compreende, pois a Lua, essa, continuou, todas as noites, a acompanhar-nos as vidas. Ora, não aconteceu nada de semelhante com a palavra «vírus». Não veio directamente do latim ao português. Teve uma história bem mais agitada. 

Por alturas do Império Romano, «virus» designava um veneno ou um líquido fétido de origem animal. Teria ainda outros significados, mas não estariam muito distantes dessas pouco recomendáveis acepções. 

A palavra existia em latim — língua que se veio a desfazer em muitas outras línguas, uma das quais o nosso belo português. Herdámos muitas palavrinhas, bem trucidadas pelos falantes ao longo dos séculos, como sempre aconteceu e sempre acontecerá, mas deixámos para trás muitas outras, enquanto inventávamos, importávamos, misturávamos e recuperávamos outras quantas. Uma das palavras que se tornaram raríssimas até desaparecerem da boca dos falantes, com a excepção daqueles que aprendiam o velho latim clássico, foi mesmo o tal «vírus» enquanto veneno. 

Entretanto, a História da Humanidade continuou a pular e a avançar. Já o latim se tinha transformado noutras línguas havia uns bons séculos, quando descobrimos, por fim, que muitas doenças eram provocadas por germes. Hoje, é difícil imaginar um tempo em que não se sabia tal coisa — mas a descoberta não é assim tão antiga (data do século XIX). 

No início, descobrimos as bactérias, pequenas células, quase todas inócuas ou mesmo benéficas, mas que incluem no seu clube uns quantos membros com inclinação para arreliar (ou mesmo matar) seres humanos. No final do século XIX, um cientista holandês de nome Martinus Beijerinck descobriu que algumas doenças eram transmitidas por qualquer coisa ainda mais pequena que as bactérias. Para se referir a estes micróbios (que estão na fronteira entre os seres vivos e os seres não-vivos, pois só sobrevivem usando uma célula de algum ser vivo), Martinus lá foi abrir o velhinho dicionário latino e encontrou a palavra «virus». Decidiu baptizar os pequeníssimos germes com esse velho nome latino. Foi assim que surgiu a palavra actual — um corpo antigo, desenterrado do cemitério das palavras, que um holandês electrizou com um sentido novo, fazendo surgir um útil vocábulo. 

A partir do seu surgimento nos artigos do holandês, a palavra voou até muitas das línguas humanas — e está hoje nas bocas do mundo, por causa do novo coronavírus que nos tem preocupado.

Mas olhemos de novo para a História da palavra: depois de ressuscitada no século XIX, veio a ganhar novos sentidos. Hoje, um vírus pode ser também um programa de computador que se propaga com intuito de danificar, de alguma forma, as máquinas onde se aloja. Esta mutação da palavra «vírus» surgiu no inglês e infectou as outras línguas a partir dos anos 70.

Depois, como tantas e tantas outras palavras, «vírus» também ganhou usos metafóricos: há ideias que são como vírus, como bem sabemos. Armada em adjectivo, a palavra continuou a cavalgar: há doenças virais, há imagens virais, há notícias virais… Há até irritações virais.

As palavras surgem de muitas maneiras: algumas perdem-se no princípio dos tempos, surgidas no calor das interacções diárias entre falantes. Outras são inventadas ou reinventadas por alguém em particular, como é o caso da palavra «vírus» com o significado de germe. Estas invenções e reinvenções fazem-se todos os dias. Uma grande parte desaparece sem deixar rasto — mas algumas palavras caem no goto dos falantes, espalham-se, burilam-se, tornam-se úteis, passam a fazer parte da língua (ou mesmo das línguas).

As palavras são — e esta imagem era quase inevitável… — uma espécie de vírus a contagiar os cérebros dos falantes. Só que, neste caso, até gostamos. 


Marco Neves | Escreve sobre línguas e outras viagens na página Certas Palavras. O seu último livro é o Almanaque da Língua Portuguesa.

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