A sensação que decorre dos números do aumento de infectados é a de que a situação está mais ou menos controlada. Com tantos elogios vindos do estrangeiro à forma como os portugueses estão a lidar com a pandemia, é natural que queiramos vislumbrar o fim disto tudo. Não queremos só uma luz ao fundo do túnel, queremos meter uma terceira, ultrapassar um Renault Scenic pela direita, fazer disparar o radar e encostar na berma para urinar no fim do túnel.

Lembram-se da passagem de ano? Bons tempos. Se às 23h51m11s de dia 31 de dezembro de 2019 estavam a ouvir a banda R.E.M, mais concretamente a sexta música do quinto álbum deste conjunto norte-americano, entraram da forma mais acertada em 2020. Isto porque terão passado o primeiro segundo deste fatídico ano a cantar aos altos berros "It's the end of the world as we know it". De facto, o mundo como conhecíamos, das duas uma, ou acabou ou fez a barba e por isso se o virmos na rua já não o reconhecemos minimamente.

Para além de todas as consequências laborais e financeiras que o pós-Covid vai trazer, a forma com nos divertimos será diferente, no mínimo, durante largos meses e, no máximo, para sempre. Fatalismos a esta hora do dia? Parece que sim. Alguém duvida que, numa fase inicial após o levantamento das medidas, os restaurantes só poderão operar a meio gás? Surgirão formas bizarras de recomendar estabelecimentos. "Já foste àquele tasco? Falam-me muito bem. Está sempre a trinta e um, trinta e dois por cento da sua capacidade. É um fenómeno de popularidade."

Depois, quem é que poderá sair à rua? Foi tão simples convencer os idosos a ficar em casa quando ninguém podia laurear a pevide, impedi-los de sair quando os jovens já estão a virar imperiais vai ser facílimo. Se há uns anos eram os jovens que falseavam fotocópias do Cartão de Cidadão para entrar em discotecas, agora essa fraude vai ser cometida por velhos à procura de serem admitidos no Jardim da Estrela.

A constante referência ao regresso à normalidade é um excelente isco. Neste caso, talvez seja mais correto referirmo-nos ao regresso à anormalidade. Uma espécie de Regresso ao Futuro em que o Marty McFly não pode conviver com Doc Brown, uma vez que este se encontra no grupo de risco. É difícil ficar radiante com a perspectiva de um futuro próximo, distante do passado recente mas melhor que o presente, algo parecido com um passado distante e nada a ver com as expectativas que há uns anos tínhamos para este futuro que na altura era longínquo. Tantos tempos verbais que já não domino bem. Quando começa a telescola?

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