Tens medo, é natural que tenhas medo. Porventura terás uma doença crónica, um sistema imunitário mais pobre que a pobreza, terás driblado a realidade a vida toda e tens medo porque não és o presidente da república, não podes fazer análises de despiste com facilidade e tão pouco podes ficar em casa, a tratar da lide da casa e de orçamentos, durante duas semanas só porque sim, porque podes.

Tens medo mas não conheces ninguém que tenha vindo da China ou de Itália, mas dás de caras diariamente com centenas de pessoas em salas cujos ares condicionados estão a bombar. Terão sido limpos quando? Não sabes. Mas tens medo. E sabes que não tens liberdade, é coisa relativa, sujeita aos achaques da economia, da política, dos vírus, da comunicação social sensacionalista. Porque gritas para ti que não vais cair nesta ou naquela, que tens dois dedos de testa, lavas as mãos e enquanto esfregas cantas Parabéns a você até ao fim, o que perfaz cerca de vinte segundos na tarefa de deixar a pele limpa, mas não imaculada ou imune às coisas à tua volta.

Tens medo de não ter álcool, pão, leite, tens medo de ler notícias sobre a Síria, sobre os campos de refugiados na Grécia. Vives a medo e pensas, com certa raiva, que afinal não só não és livre como estás sujeito ao que o mundo tem para te dar. E não vale a pena dizer que se a vida te dá limões será melhor fazer limonada (tão irritante esta frasezinha), porque se dá vírus vais fazer o quê? Viroses. Sentes que precisarias de ignorar isto tudo ou de saber tudo o que se passa, o tudo e o nada. E, lá está, tens medo da senhora da mercearia que te diz que tem um cliente que veio de Itália, está fechado em casa, mas vai lá abastecer-se antes de entrar em quarentena. Vais à loja do chinês e há fila para se comprar álcool que já não existe na farmácia. Dás graças por teres filhos crescidos porque não saberias o que fazer se as escolas fechassem todas. E precisas de trabalhar, precisas muito de trabalhar. E por isso, numa gigante pescadinha de rabo na boca, voltas ao início e tens medo.

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