ÁGUA. O Matias, o meu filho mais novo, decidiu que lavar as mãos é muito divertido. Nada a dizer, só a agradecer. Mas o que ele faz é chegar-se ao belo do bidé, abrir a torneira e começar a empurrar a água com a mão para ver se faz um repuxo em condições. Caos aquático em toda a casa de banho e uma das muitas estranhezas deste tempo: dois pais, de mãos na cabeça, a dizer ao filho para parar de lavar as mãos. Lá vai um de nós buscar a esfregona, enquanto outro extrai o filho da casa de banho, tentando não escorregar. O miúdo, claro, faz uma curta birra de grande intensidade, até se esquecer dos prazeres da água. Entretanto, há outro filho algures em casa.

BOLA. Se o Matias-que-lava-as-mãos tem dois anos, o Simão tem sete — e se há coisa de que gosta é jogar à bola, o que se aconselha nestes dias de pouco exercício. Só que em casa, no meio das estantes e das molduras, a bola tem uma certa tendência para o desastre. Lá vamos os dois ao pátio do prédio, para uma meia-hora diária de futebol a dois. O meu filho está feliz nesses minutos: está a jogar com o pai, que não tem outro remédio que não seja aprender a dar um pontapé de jeito, e não se lembra nem do vírus nem do medo. Quando voltamos, vai lavar as mãos com o irmão atrás e logo avançam os dois para transformar o sofá num barco de piratas ou a cama num trampolim.

CHUVA. Logo a abrir esta estranha Primavera, choveu. E, não sei bem porquê, soube bem olhar para a chuva a cair nas ruas vazias. Passava um triste carro de vez em quando, um autocarro vazio, um ciclista a desafiar a água e os micróbios. O Matias chegou-se à janela, olhou para a água e levantou as mãos, num sinal de que queria ir lavá-las.

DESCOBERTAS. Enquanto o Matias está a inundar o bidé, o Simão descobre as maravilhas do Tintim, que a Netflix traz até à nossa sala. Esquecido da bola, sonha com aventuras. E, fechados em casa, os territórios por descobrir são inesperados. Temos duas varandas, mas quase não usamos uma delas, cheia como costuma estar de roupa a secar. Pois, hoje, a Dora e o Zé (meus cunhados), que vivem do outro lado da rua, vieram até ao passeio por baixo dessa desprezada varanda visitar-nos a uma cautelosa distância. Lá fomos os quatro para os ver. O Matias ficou pasmado: descobriu a varanda como se fosse um novo país. Não tem praia, não tem museus, mas tem os tios a acenar lá em baixo. O Simão, armado em Tintim, saltava e corria, como se a varanda fosse o Karaboudjan. A Zélia conversava com a irmã à varanda e eu tentava que o gato não fugisse, irritado como anda, sem perceber por que razão não lhe desamparamos a loja todo o santo dia.

ESCOLA. Todas as semanas, os miúdos não têm escola durante dois dias. Durante as férias, chegam a ser meses. Pois, agora, bastaram duas horas fora da escola e já o Simão sofria de desalmadas saudades dos colegas. Combinámos entre os pais uma conversa virtual entre todos os miúdos. Foi o caos cibernético. Nos vários quadradinhos do ecrã, tínhamos lutas de irmãos, miúdos a jogar consola, conversas cruzadas em que ninguém se entendia, uma das crianças a rodar sem parar na cadeira (era o Simão), outra com vergonha de ver os colegas em pequenos quadrados pixelizados, alguns gritos desencontrados... No fim, o Simão estava muito feliz, a imaginar-se com os colegas no recreio cá de casa e a pedir mais encontros destes. Numa das noites em que lhe estava a contar histórias, percebi o grande problema: ele tem medo de que a escola não abra durante mais de um ano... Lá lhe expliquei que o isolamento não havia de durar assim tanto tempo. Para sossegar, ele quis ver num mapa o caminho até à escola — só para garantir que eu não me esquecia quando fosse altura de voltar. Quem diria que teríamos saudades do trânsito matinal? Entretanto, lá vamos aprendendo a viver sem sair do mesmo sítio.

(Para a semana continuo pelo alfabeto fora. Por hoje, tenho de ficar por esta letra: o Matias está aqui ao meu lado a pedir para lavar as mãos.)

Marco Neves | Escreve sobre línguas e outras viagens na página Certas Palavras. O seu último livro é o Almanaque da Língua Portuguesa.

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