Geert Hofstede é o sociólogo alemão que definiu as chamadas Dimensões Hofstede que caracterizam um país numa série de categorias, como a relação com o poder, com o individualismo, com a incerteza, com a diferença de género e com o futuro. Sem surpresa, aquela em que Portugal mais se destaca é a da incerteza, tendo a pontuação máxima e sendo descrito como um país onde as pessoas tentam evitar ao máximo o risco, resistindo à inovação (enquanto mudança) e onde a segurança é um fator importante de motivação pessoal.

Tudo isto parece indicar que Portugal não seria o local ideal para um empreendedor lançar o seu negócio e ser bem sucedido. Contudo, se há algo que vários momentos da história do nosso país - e a última década, em particular - nos ensinaram é que quando colocados numa situação complicada, conseguimos, em muitos casos, fazer o que é necessário, ou mais que isso. O ecossistema de startups portugueses atual é prova disso com o número de projetos e de novas empresas com impacto nosso dia-a-dia, quando comparamos com os anos seguintes à crise financeira de 2008.

Com o cenário de recessão causada pela Covid-19, é normal que os fantasmas de tempos passados possam assombrar não só startups, mas também investidores. Uma fase de desacelaração económica costuma trazer consigo maior risco e volatilidade, que leva investidores a pensar duas vezes antes de decidirem financiar projetos/empresas onde vêem potencial e a querer reunir o máximo de informação possível.

Para startups ainda embrionárias, isto são más notícias visto que para conseguir investimento por parte de investidores dependem de alguma “fé” no seu produto e no seu modelo de negócio, uma vez que, na fase em que estão, simplesmente ainda não existe informação suficiente. Menos dados, significa ainda mais risco, o que pode levar investidores a não financiar um projeto que, noutro contexto, talvez estivessem dispostos a apostar ou que façam mais exigências às próprias startups para investirem nelas e dar-lhes a escala que necessitam para se tornarem lucrativas.

Um tempo de maiores riscos mas também de oportunidades

O resultado prático deste clima de risco acrescido traduz-se em várias respostas. Os cenários mais prováveis passam por: startups terem de dar mais equity a investidores/fundos para conseguirem o investimento que necessitam, sacrificando a sua independência; valorizações de mercado mais baixas por cederem mais equity por valores mais baixos; menos rondas financiamento, por o montante disponível para investimento por parte de fundos ser inferior; esforço maior para conseguir rondas de investimento (mais meses de operação, mais parceiros a usar o serviço, maior número de clientes a usar o serviço no dia-a-dia).

Por outro lado, também existem oportunidades das quais startups podem tirar proveito nesta altura. Numa indústria competitiva, startups que consigam ultrapassar os obstáculos à sua frente, podem aproveitar para adquirir concorrentes que estejam a passar maiores dificuldades e aumentar a sua escala. No que respeita à inovação, será mais necessária do que nunca e as boas ideias que resolvam problemas efetivos podem ter uma rápida taxa de adoção. O metro quadrado de espaço de escritório para incorporar os seus colaboradores estará mais barato, até porque a tendência nas próximas semanas será cada vez mais de trabalho remoto, o que não exclui a possibilidade de startups fazerem um investimento no seu futuro. E, por último, também devido à quarentena, as despesas de viagem são inferiores e são substituídas por horas de reunião em plataformas como o Skype, o Zoom, o Teams, o Hangouts e outras semelhantes.

O retrato em Portugal

Em Portugal, de acordo com o Scale Up Report de 2019, o financiamento externo é predominante para as startups (mais de 60%), no entanto, o doméstico é essencial para as para as primeiras etapas de uma empresa à procura de crescer, portante, uma crise de confiança por parte de business angels e pre-seed investors iria afetar o tecido empresarial português.

Os principais hubs são Lisboa, Porto e Coimbra que incubam não só o maior número de startups, mas também o maior número de pessoas empregadas em empresas do género. Logo, os efeitos de uma crise gerada pela Covid-19, que ponha em risco a atividade destes negócios e os empregos de milhares de pessoas, especialmente em Lisboa e no Porto (que têm sido as regiões mais afetadas pelo vírus) fazer-se-ia sentir no imediato.

70% do investimento é originário de venture capital e as indústrias mais financiadas são as tecnologias de informação (50%), o retalho (20%) e a saúde (13%), tudo áreas essenciais num período de quarentena em que a) o teletrabalho e o fluxo eficiente de informação se tornam cruciais, b) em que com o risco de andar na rua, as pessoas recorrerão cada vez ao comércio eletrónico para conseguirem os produtos de que necessitam e c) em que precisamos de práticas e instrumentos de saúde que nos permitam combater esta epidemia de uma maneira eficaz que permita ajudar o maior número de pessoas.

As startups estão dependentes do mercado europeu e global e numa situação de proteção de fronteiras para conter o vírus, mais do que nunca precisarão de medidas governamentais de apoio, num país que é considerado dos mais burocráticos em procedimentos e requisitos que são exigidos a empresas.

A última grande crise financeira levou a que a economia portuguesa desse um passo em frente em termos de inovação. Será que nestas semanas de tantas dificuldades iremos a assistir ao nascimento de startups como Airbnb, Uber, Pinterest ou Square, tudo projetos lançado entre 2008 e 2009, que hoje em dia servem milhões de clientes no mundo inteiro?


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