Os alertas desesperados de pais da classe média tomam as redes sociais gritando que uma crise se aproxima. Destacaria cinco desses alertas que a imposição de isolamento agudiza:

  1. a dificuldade de compatibilizar o teletrabalho com o ensino dos filhos à distância que obriga à prestação de cuidados por turnos o que interfere na qualidade da atenção ao outro e na qualidade do trabalho profissional e escolar que se produz;
  2. o tamanho exíguo das habitações, fomentado nos últimos anos pelo estado e pelas autarquias em conluio com outros profissionais para favorecer o mercado imobiliário, mostra a impossibilidade atual de no espaço doméstico criarem-se espaços físicos que favoreçam o convívio e o exercício da atividade autónoma e livre de distrações;
  3. a infoexclusão, que é afinal uma realidade em Portugal e que agora se revela em todo o seu esplendor nas manifestações de dificuldade e, consequentemente, na desigualdade no acesso a ligações de Internet com qualidade e na necessidade de partilhar equipamentos tecnológicos também por turnos. Aparentemente, muitos desses equipamentos estavam até à pandemia mais vocacionados para o entretenimento individual e menos para trabalhar e estudar. Outro aspeto, é o facto de muitos casos desses equipamentos se encontrarem obsoletos, comparativamente, por exemplo, com os equipamentos utilizados nas empresas;
  4. a perspetiva de desequilíbrios no orçamento familiar na medida em que a permanência no domicílio vai fazer aumentar as despesas da luz, do gás e da água;
  5. o regresso da ideia dos pequenos e terríveis, com as quais vai ser preciso conviver para além do fim de semana, perspetivando doses cavalares, diárias, de necessidades de atenção acima do normal e com níveis, subsequentes, de repressão ainda maior. Perspetivado pelos pais não tenho dúvidas de afirmar que isto também é amor.

Centrando neste último ponto, afirmaria a necessidade de ideias claras e urgentes para proteger os pais e os filhos no presente. Com essas ideias pode-se começar também a preparar o futuro, ou antes, a armadilhar positivamente o futuro dessas relações, mas com dispositivos que libertem mais harmonia familiar e, com isso, também mais amor – antídoto possível porque com a dúvida a tristeza instala-se, os interesses habituais enfraquecem e as perturbações, como as do sono, podem manifestar-se com mais força.

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É por isso tempo das famílias pensarem estrategicamente naquela que será a sua visão de família e dos passos necessários para a concretizar. Uma das ferramentas possíveis é a co-construção (entre pais e filhos) de um roteiro de atividades de pendor “tradicional”, que favoreça o estreitamento de laços entre todas as peças do sistema familiar ao mesmo tempo que auxilia os mais novos a libertar a sua energia e com ela a sua expressão criadora. Assim se poderá repor o equilíbrio familiar e prevenir a ansiedade de avarias futuras.

Para as gerações de pais com filhos pequenos não será de todo impossível pensar num ambiente educativo pré-digital. Foi nesse ambiente em que todos crescemos apesar dos computadores pessoais, das consolas e dos jogos portáteis fazerem parte do quotidiano das famílias da classe média portuguesa desde o arranque da década de 80. Falo antes do período de tempo anterior a 1995, ainda antes da democratização do acesso massivo à Internet.

Até 1995 as relações entre todos eram naturalmente mais próximas e a dimensão emotivo-afetiva, cognitiva e experiencial da vida humana jogava toda na relação com o outro. As vantagens eram óbvias para o desenvolvimento genérico da criança em aspetos tão simples como as capacidades de aprendizagem, a motricidade física e grossa, a construção e/ou ampliação da cultura geral, o desenvolvimento de competências de comunicação e o fortalecimento dos laços intergeracionais.

Apesar de nesta época de pandemia entidades internacionais como a EUROCHILD disponibilizarem kits com recursos de apoio às famílias e a organizações com crianças, proponho acrescentar outras soluções educativas complementares, tradicionalmente associadas a outras infâncias, mas com a capacidade de destronar exemplarmente as ferramentas digitais, naquilo que têm de pior, e que passa pela sua capacidade de fomentar o conflito intergeracional e o isolamento do outro.

As atividades propostas passam por usar o que já temos em casa e que incluem livros, papéis, canetas, tesoura, régua, tintas, pincéis e cola.

Algumas notas preambulares:

Todas as atividade de expressão criativa com crianças possuem uma finalidade educativa, é importante não sucumbir à facilidade - aprender implica tempo e muitas vezes a capacidade de pensar sobre problemas complexos.  Dê tempo ao tempo. Varie as atividades e caso resultem não deixe de concluir cada uma. Comece logo a demonstrar e só depois explique. Faça as escolhas de acordo com o estado de espírito da criança. Uma atividade mais movimentada ou mais sossegada pode não se ajustar ao momento. Aposte na descontração evitando demasiadas regras. Entregue-se à diversão e lembre-se que quando um adulto e uma criança colaboram a noção de “coisa disparatada” adquire uma nova dimensão. Se antes de avançar para a atividade tiver dúvidas ou lapsos de memória, então sim, espreite um dos milhares de tutoriais disponíveis on-line em torno do “como fazer”.

E lembre-se sempre de que uma época de isolamento não é necessariamente uma época de distanciamento, muito menos de distanciamento ou de socialização familiar à distância.

Por fim, apresente esta lista às crianças e converse, deixe-os decidir.

1.

Jogos tradicionais

Para além dos sempre entusiasmantes jogos de sociedade existem muitos outros que se podem improvisar com materiais fáceis de recolher. Muitos possuem nomes de animais. Do jogo do galo ao jogo do gato e do rato ou ao caracol, tenham presente a cama de gato que para jogar não exige mais do que um simples cordel.

O Rapa é um jogo tradicional, clássico do norte do país muito associado à noite de Natal, mas apropriado para qualquer momento familiar. O dominó e as damas são dos mais populares. O xadrez merece muitas horas de dedicação e os seus benefícios são inquestionáveis. Quem não se lembra dos jogos do prego, das pedrinhas, dos berlindes, das caricas, do anel ou então do elástico? Os vizinhos de baixo de certeza que não se vão importar de ouvir pancadinhas no teto. Do jogo do stop, à batalha naval não faltam pretextos para escoar as energias. E quanto aos jogos de cartas? Do Magic aos tradicionais sueca e burro, as possibilidades são infinitas. E porque não jogar a feijões?

2.

Magia e ilusionismo

Fantasiar, procurar explicações mágicas para os gestos e para os objetos, aprender truques, são algumas das vantagens onde a destreza das mãos e pequenos dispositivos mecânicos poderão ser fáceis de conceber, mas que irão exigir muito treino até se alcançar a subtileza desejada nos gestos. E prepare-se, a expressão de ordem será – “hocus pocus, tontus talontus, vade celerita jubileis!”.

3.

Expressão plástica

Nem tudo aquilo que parece complicado é. E lembre-se, ninguém melhor do que as crianças para descomplicar. Aqui a palavra de ordem é ser criativo sem perder de vista os objetivos. Podemos favorecer a criatividade com projetos que passem pela construção de objetos em cartolina ou cartão: caravelas portuguesas, quebra-cabeças tridimensionais, bonecos e bonecas articuladas, candeeiros, planadores... E porque não começar já a preparar o verão? Construam um catamaran de cartão que pode ser testado numa banheira.   

Outras opções para ocupar o tempo passam por aeromodelismo ou até por aprender a desenhar. Porque não construir de modo colaborativo uma banda desenhada com as crianças?

Decorar objetos já existentes é outra opção. Os exemplos poderão incluir porta-retratos, vasos ou candeeiros aos quais podem ser coladas folhas pintadas e flores secas ou lacadas. 

Outra ideia é a construção de herbários criativos e com isso cultivar ainda mais a proximidade informada com a natureza. Ou então, fazer encadernações ou rotular de modo criativo e engraçado vasilhames e recipientes em geral. A isto podem-se e devem-se acrescentar outros materiais como pano, madeira, plástico, cortiça, tudo o que aparecer e que a criança sugerir.

4.

Contar histórias

Vamos enviar para a trituradora as visões psicologizantes e sociologizantes dos contos maravilhosos ou de fadas e vamos olhar para eles como aquilo que são: documentos históricos, fruto da tradição oral, onde o exercício da pregação e da lição de moral fazem parte do processo de aculturação de todas as épocas e onde fantasia e inteligência andam a par. Inteligência essa que as crianças também possuem e que não é demais relembrar.

Contos de Grimm ou Perrault, contos e lendas tradicionais portuguesas, mitos e lendas universais ou de figuras bíblicas. Todas essas histórias constituem pretextos para pais e filhos lerem uns aos outros e, sobretudo, conversarem. E porque não lançar o desafio de continuar a história ou então de a recontar? As palavras de Francisco Vaz da Silva, conhecido investigador no domínio dos contos de fadas, diz-nos muito sobre o valor insubstituível desta ferramenta: “Através das suas múltiplas variações, estes contos de adversidade e regeneração sugerem que a crise é necessária ao crescimento e que a adversidade fornece alento e inspiração. Os contos maravilhosos são, ontem como hoje, um importante recurso espiritual.”

No final, porque não eleger uma narrativa favorita e construir em cartão o teatro e todas as personagens? Lembrem-se de cobrar bilhetes à entrada.

5.

Cozinhar

A possibilidade de envolver toda a família na confeção das refeições traduz-se em vantagens particulares para as crianças. O contexto atual de isolamento pode ser o pretexto ideal para iniciar as crianças na cozinha. Numa primeira fase a criança pode ajudar a separar e a lavar os alimentos, a misturar ingredientes e posteriormente a mexer no forno ou até descascar alimentos. Manter a supervisão é essencial. Com isto os conhecimentos sobre a qualidade da comida alargam-se e é muito natural que a criança rapidamente comece a sugerir aos adultos o que é mais saudável para servir à mesa.

Preparar biscoitos, mousse, omeletes, bacalhau à Brás, molhos ou frutas em conserva são opções sempre divertidas e didáticas para no fim saborear em conjunto. 

6.

Colagens

A colagem enquanto exercício criativo entre a pintura e a escultura ajuda as crianças a desenvolverem as suas competências artísticas. Incentivar de modo livre a mistura de materiais, do rasgar e do picotar de diferentes imagens em papel, poderá representar para a criança uma aula divertida sobre arte contemporânea que estimula a imaginação e a perceção visual do mundo. A Fundação Júlio Resende promove atualmente um passatempo a que chamou: “Fico em casa com o lugar do desenho” e que desafia as crianças a produzirem um desenho, fotografia, vídeo, poema ou colagem inspirada no universo do pintor Júlio Resende. Porque não abraçar este projeto e auxiliar a criança a colocar em prática uma ideia da sua autoria? 

As colagens também podem ser pretextos para descobrir histórias familiares. Para tal sugere-se a construção da árvore genealógica familiar ou a construção de álbuns de fotografias organizados com colagens criativas e com fotos comentadas pelas próprias crianças.

7.

Escrevinhar

Estimular a escrita desde cedo. Algumas ideias poderão passar pelo registo em formato diário de tudo aquilo que se viveu ao longo de mais um dia em família para mais tarde recordar. Outra ideia é escrever cartas e postais elaborados pela criança para enviar aos familiares e amigos que por razões de saúde e ou pelas contingências atuais se encontrem distantes.

8.

Dominar a agulha

Distantes vão os tempos em que a unidade curricular de têxteis era de frequência obrigatória nos 2ºs e 3ºs ciclos. Era aí que se aprendiam atividades tão prosaicas como bordar a ponto cruz ou a ponto lançado. Onde se faziam tapetes e macramés. Onde se aprendia sobre bordado de Viana e até a pontear meias. Eis o momento para recuperar todo esse saber. Recuperem-se os ensinamentos da enciclopédia da agulha para se reaprender a fazer bordados, bainhas abertas, rendas, malhas, corte e costura... um saber que não ocupa lugar e do qual necessitamos todos os dias, em todas as idades, e até ao final da nossa vida e daqueles que nos são mais próximos.

9.

Torneios charadísticos

Aqui o entretenimento e a ginástica intelectual dominam. O objetivo é estimular a capacidade de raciocínio e alargar a cultura geral. Enigmas figurados, logogrifos ou charadas em frase ou em verso são opções que podem mesmo ser construídas em conjunto. Confusos? se já não sabem do que aqui se fala, vamos então pesquisar.

E das tradicionais adivinhas, alguém se lembra?

Aqui vai uma para relembrar:

Uma casa sem janelas

Nem portas para o caminho

Para o dono sair dela

Tem que abrir um buraquinho

Pois claro! É o ovo.

10.

Recuperar a árvore de Natal e outros enfeites

O Natal é a época que mais magia traz para o espaço familiar. Fica também a ideia de armar uma árvore de Natal para estes meses que se avizinham, recuperando as boas memórias passadas e antecipando já alguma da magia que se irá viver em dezembro. O resto fica entregue à imaginação que nunca tira férias nem faz quarentenas.

Assim os dias passam de forma mais sã e no final as famílias sairão mais fortalecidas.

E lembrem-se: colaboração é a palavra de ordem. Sem colaboração não há educação.

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