Romancista e dramaturgo, poeta na juventude, com uma passagem relativamente fugaz pelo cinema como cineasta e argumentista, o escritor austríaco Peter Handke considera-se, aos 66 anos [em 2009, na altura da entrevista, atualmente tem 76 anos], um prosador para quem “não escrever é muito importante”.

Começou por estudar Direito, mas abandonou a universidade antes de terminar o curso e publicou aos 22 anos o primeiro romance, “Os Moscardos”, em 1965. Assim iniciou uma prolífica carreira como escritor.

Em Portugal, onde se encontra para participar na 3.ª edição do Estoril Film Festival - com exibição hoje às 19:30 do filme “A Mulher Canhota”, que realizou a partir do seu romance homónimo - estão publicadas 13 obras suas, entre romances, como “Uma Breve Carta para um Longo Adeus” e “A Tarde de um Escritor”, assim como várias peças de teatro.

“Ainda agora não sei se sou escritor, mas a literatura tem sido toda a minha vida. Interrogo-me sobre se a literatura me tornou uma pessoa melhor… Um pouco melhor, não muito, mas um bocadinho. É suficiente, talvez”, disse Peter Handke em entrevista à Lusa.

Observando que é míope por ter lido muito, o escritor defendeu que “qualquer autor que escreva um livro, mesmo um livro pequeno, mesmo uma só página que nos abra o mundo, é um bom escritor”.

“Para mim - precisou - os escritores mais importantes quando eu era novo foram William Faulkner e Dostoievski e Franz Kafka, claro, mas também os chamados pequenos autores se tornaram muito importantes e são, por isso, uma espécie de fortificação para mim”.

E poetas? “A poesia é muito estranha, é o essencial da mente humana, são palavras mágicas. É isso a poesia, para mim. De momento, não sei como está”, referiu.

“Olhe para o Prémio Nobel: desde há muito tempo que não há um verdadeiro poeta como vencedor do Nobel. Adónis não é [vencedor], a poetisa dinamarquesa Inger Christensen, que morreu no início deste ano, também não… só prosadores ou escritores um pouco políticos. É uma pena que não haja poetas, à luz da humanidade”, comentou.

Inquirido sobre se sabia que se diz de Portugal que é um país de poetas, Handke respondeu: “Há um que eu conheço, muito bom, que é Fernando Pessoa. Os outros, não conheço muito bem”.

Quanto a prosadores - acrescentou -, “tentei ler Saramago e Lobo Antunes mas não cheguei a acabar. Saramago parece-me muito inteligente, demasiado inteligente para mim. Existe um raciocínio por detrás do seu olhar… Para mim, ele não é suficientemente inocente”.

Peter Handke considera-se, agora, “um escritor de prosa” que escreveu poesia “quando era jovem” e que gostaria de voltar a escrevê-la.

“Gostaria de escrever poesia como [o espanhol] Antonio Machado fez. Estou a pensar que quando for muito velho posso escrever poesia. Ainda não sou suficientemente velho. Não sei porquê, é o que sinto”, indicou.

Para o autor de “Poema à Duração”, “há uma idade para a poesia: tem de se ser muito novo e, depois, tem de se esperar… pela sabedoria e intensidade e tristeza e alegria, tudo junto”, porque “a poesia precisa não só de inocência, mas talvez de culpa e de inocência, as duas juntas”.

O escritor, que se considera agora “um prisioneiro da literatura - mas, por vezes, um feliz prisioneiro da literatura”, porque é esse o seu caminho, admitiu que “é normal não escrever absolutamente nada durante meses e meses”.

“Fico apenas observando e ouvindo e zangando-me e entrando, às vezes, um pouco em desespero. Não escrever é muito importante para mim”, sublinhou.

Contrapondo-se a alguns escritores que sentem a angústia da página em branco e que escrevem com método, como um dever, várias horas por dia, Peter Handke declara: “Sou uma espécie de amador”.

“Não fico nada infeliz quando não estou a escrever. Mas escrever pode tornar-se uma necessidade. Quando não faço nada durante meses, a vida perde o sentido para mim. E então tento encontrar algum tipo de luz ou de escuridão, escrevendo. É uma forma de expedição: como um explorador que inicia uma viagem para ir ao centro de África, eu vou ao centro de mim mesmo. É como que uma viagem interior”, descreveu.

(Por: Ana Nunes Cordeiro da agência Lusa)

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