Carlos Moedas falava aos jornalistas à margem da conferência “O Passado, o Presente e o Futuro das Cidades”, no âmbito do Salão Imobiliário de Portugal, que decorre na FIL, no Parque das Nações, em Lisboa.

“Foi uma proposta feita pelos vereadores da oposição. Eu votei contra, todos os vereadores dos Novos Tempos [coligação PSD/CDS-PP/MPT/PPM/Aliança] votaram contra, e penso que é uma proposta que mostra a soberba e que, de certa forma, a própria oposição não está a perceber aquilo que as pessoas querem em Lisboa, que é poder decidir, é poder falar com elas”, disse o social-democrata.

O autarca, eleito no ano passado sem maioria absoluta, sublinhou que quer ser “o presidente da câmara que luta pela sustentabilidade, pelas modificações que são precisas de fazer na cidade”, mas que não o faz “contra as pessoas”.

“Já tive de manhã todas as pessoas da Avenida da Liberdade a perguntar o que vai acontecer, porque vamos fechar a Avenida da Liberdade em dias que têm o comércio aberto. Tudo isto é grave, porque é estar a fazer contra as pessoas. Temos de caminhar para uma cidade mais sustentável, que estamos a fazer em muitos aspetos”, referiu.

A Câmara de Lisboa aprovou na quarta-feira uma proposta do Livre que determina a redução em 10 quilómetros/hora (km/h) da velocidade máxima de circulação permitida atualmente e a eliminação do trânsito automóvel na Avenida da Liberdade aos domingos e feriados.

A proposta obriga o executivo a "reduzir em 10 km/h a velocidade máxima de circulação permitida para: 30km/h nas vias de 3.º, 4.º e 5.º nível da rede viária, para 40km/h nas vias de 2.º nível e para 70km/h nas vias de 1.º nível".

Em reunião privada, a iniciativa "Contra a guerra, pelo clima: proposta pela redução da dependência dos combustíveis fósseis na cidade de Lisboa" foi aprovada com sete votos contra da liderança PSD/CDS-PP, duas abstenções dos vereadores do PCP e oito votos a favor, designadamente cinco do PS, um do Livre, um do BE e um da vereadora independente eleita pela coligação PS/Livre.

Segundo Carlos Moedas, o caminho da sustentabilidade da cidade tem de ser feito com as pessoas e os comerciantes da Avenida da Liberdade “não merecem” o que foi decidido “numa altura de recuperação económica”, depois de dois anos “a sofrer por causa da pandemia”.

“Não merecem que de repente haja uma decisão unilateral dos vereadores da oposição”, reiterou, lembrando que foi a coligação Novos Tempos que ganhou as eleições, uma situação que, afirmou, “a oposição ainda não percebeu”.

No seu entender, os lisboetas devem agora “reclamar da imposição”: “A oposição é que criou este problema, de um dia para o outro. Faz um voto contra aquilo que o presidente quer e contra o que as pessoas querem para marcar o ponto.”

Carlos Moedas sublinhou que agora é necessário “falar com todos os que estão na Avenida da Liberdade, com os comerciantes, com a oposição, e negociar”.

Além disso, destacou, é necessário ter essa capacidade de dialogar “daqui para a frente”, sem a oposição a considerar que governa.

“Isso não é democracia, a democracia era todos falarmos. Não podemos fechar o trânsito de um dia para o outro, não pode ser. Não pode, depois da pandemia”, acrescentou.

Questionado acerca da possibilidade de a situação ser revertida, para o trânsito na Avenida da Liberdade voltar a fechar somente no último domingo do mês, como tem acontecido, Carlos Moedas deixou apenas como resposta: “Vamos ver, vamos ver”.

Entre as medidas aprovadas na quarta-feira está a reativação do programa "A Rua é Sua", alargando a outros locais da cidade e prolongando o período em vigor, nomeadamente através da "eliminação do trânsito automóvel na Avenida da Liberdade em todos os domingos e feriados (anteriormente apenas último domingo de cada mês)".

Foi decidido ainda que o corte do trânsito automóvel aos domingos deve ser alargado a todas as freguesias, aplicando-se a "uma artéria central (ou mais) com comércio e serviços locais, para que todos os fregueses de toda a cidade possam experimentar fazer as suas deslocações de proximidade a pé de forma segura e confortável sem necessitar do automóvel próprio", lê-se na proposta do Livre, sugerindo também a promoção de consulta e participação pública para a transformação definitiva dos espaços nas diferentes freguesias, no sentido de alargar as áreas pedonais.

A proposta do Livre defende ainda a promoção da utilização dos transportes públicos que privilegie a articulação e harmonização a nível metropolitano, bem como a "tendencial gratuitidade"; o incentivo às formas de mobilidade suave, alargando o alcance da rede Gira, da rede de BiciParks e da rede ciclável; e o reforço dos incentivos e dos objetivos relativos às frotas partilhadas de empresas constantes do Pacto de Mobilidade Empresarial para a Cidade de Lisboa (PMEL), quer de veículos automóveis, quer de velocípedes partilhados.

Cidadãos Auto-Mobilizados satisfeitos com redução da velocidade máxima de circulação na capital

“Estamos muito satisfeitos com esta aprovação. A nossa associação, como membro da Federação Europeia de Vítimas na Estrada, há vários anos participou numa petição internacional para a redução da velocidade em toda a União Europeia nas zonas urbanas para 30 km/h. Na altura não chegou a ter o número de assinaturas, mas nós temos proposto sempre a redução da velocidade em meio urbano”, disse o representante da ACA-M.

Manuel João Ramos lembrou os dados que indicam que mais de metade das pessoas atropeladas a 50 km/h morrem.

“É muito importante que a velocidade reduza para 30 km/h em meio urbano, para que os automóveis possam conviver com os chamados meios suaves de locomoção, e cada vez mais há promoção de meios suaves de locomoção como trotinetas e bicicletas. Não podemos continuar a ter 50 km/h sobretudo em zonas partilhadas, que podem ser mortais”, realçou.

Quanto à eliminação do trânsito automóvel na Avenida da Liberdade aos domingos e feriados, "estamos muitos satisfeitos com a proposta, mas receamos que todas estas iniciativas tenham como foco a promoção turística e isso é que me parece negativo. […] O objetivo deve ser a proteção dos peões”, sublinhou Manuel João Ramos.

Na opinião do presidente da ACA-M, deveriam ser tidas em conta as zonas onde as pessoas vivem: “70% da população de Lisboa não vive no centro histórico.”

[Notícia atualizada às 15:59]