É velho o debate sobre se algum humano alguma vez tocou o solo lunar. Michael Collins esteve perto — mas não o fez. Fazia parte do trio que, em 1969, rompeu o céu a caminho dessa bola luminosa que aparece à noite, incendiada de luz pálida pelo sol que atravessa o espaço. Se Buzz e Neil desceram da nave para pisar a areia cinza da Lua, Michael foi o homem que ficou para trás, a segurar o "navio" enquanto os outros dois saltitavam com a gravidade reduzida.

Michael morreu hoje, aos 90 anos.

Apesar da idade, Collins foi, nos últimos anos, o mais ativo dos veteranos da missão Apollo 11 (agora, só Buzz Aldrin ainda está vivo) e aquele que mais poeticamente evocou as memórias da aventura lunar.

"Quando partimos e a vimos, ah, que esfera incrível", contou em 2019 em Washington, por ocasião da comemoração do 50.º aniversário do marco espacial.

"O Sol estava atrás dela, ela estava iluminada com um círculo dourado que tornava as suas crateras realmente estranhas, devido ao contraste entre o mais branco dos brancos e o mais preto dos pretos". "Mas por mais esplêndida e impressionante que fosse, não foi nada comparado com o que víamos pela outra janela", continuou. "Ali estava aquela ervilha do tamanho de uma unha, uma coisinha tão linda envolta no veludo negro do resto do universo".

Colocar o planeta em perspetiva é meio caminho para perceber o diminuto que somos. Se tantos mil milhões de mundo cabem numa ervilha, o nosso papel na vastidão aparente é ínfimo, ainda que cada um tenha o seu próprio universo, constelação de relações e objetivos.

É por isso que o caminho para a liberdade em Portugal não nos deve fechar os olhos ao drama que continua em vários lugares do mundo, com a covid-19 a crescer noutros lados, como é o caso da Índia. A pandemia de covid-19 provocou, pelo menos, 3.137.725 mortos no mundo, resultantes de mais de 148,6 milhões de casos de infeção, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

Em Portugal, morreram 16.973 pessoas dos 835.563 casos de infeção confirmados, isto segundo o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

Saramago escreveu, no Conto da Ilha Desconhecida, que "é preciso sair da ilha para ver a ilha". Michael saiu da ilha Terra e viu-nos de um outro modo. Percebeu-nos num diferente contexto, pequenos, minúsculos. Falta sermos todos minúsculos e apoiar quem, mesmo se do outro lado da ervilha, precisa da nossa ajuda.

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