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O terror voltou ao Afeganistão — mas podem não ter sido os talibãs a causá-lo

António Moura dos Santos
António Moura dos Santos

Desde que os talibãs tomaram o poder que os alertas se sucediam quanto ao crescimento da ameaça terrorista no Afeganistão — dois dias depois da tomada de Cabul, o Conselho de Segurança da ONU advertiu a comunidade internacional para a possibilidade do país passar a ser porto seguro para grupos terroristas.

O aviso não surpreendeu: afinal de contas, foi sob a proteção do regime talibã que a Al-Qaeda terá planeado os atentados terroristas do 11 de setembro, fator aliás que espoletou a invasão de uma coligação de países liderados pelos EUA ao Afeganistão.

Quase 20 anos depois, os mesmos temores regressaram, apesar dos talibãs, de novo no poder, garantirem ter-se moderado de alguma forma. O problema, é que não só o Afeganistão é um país grande e praticamente indomável, como o mero facto de neste momento não ter governo e as operações de segurança estarem concentradas em Cabul abre as portas a outros grupos poderem agir sem freio. Além disso, o panorama do terrorismo mudou nestas duas décadas.

Como bem sabemos, “ali ao lado” na região do Levante entre o Iraque e a Síria, um outro grupo jihadista, também motivado pelo extremismo islâmico, captou as atenções do mundo e dirigiu crimes um pouco por todo o globo, o Daesh (ou Estado Islâmico). Contrariando uma certa tendência ocidental para colocar estes grupos do mesmo lado, é necessário frisar que a Al-Qaeda e o Daesh, apesar de terem fins semelhantes, são grupos rivais: o surgimento em potência do segundo ameaçou extinguir o primeiro.

Serve este contexto para explicar as últimas 24 horas, ou antes até. Há quatro dias, a CNN tinha noticiado quanto à séria hipótese colocada pelo Pentágono norte-americano de haver um atentado no aeroporto de Cabul, ainda repleto de estrangeiros e afegãos desesperados por abandonar o país — ontem, não só o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, como também Estados Unidos, Reino Unido e Austrália reforçaram os alertas.

Essa ameaça, todavia, não partia dos talibãs, mas sim do ISIS-K, o Estado Islâmico da Província de Khosoran. Formado em 2015, este autoproclamado ramo afegão e paquistanês do Daesh está em desacordo com os talibãs por não serem extremos o suficiente e é conhecido por usar atentados suicidas contra civis. Foi o que aconteceu hoje ao início da tarde.

Depois dos avisos, chegaram as consequências. As notícias foram-se sucedendo ao longo do dia: uma e depois outra explosão abalaram Cabul — as confirmações começaram pela imprensa local e redundaram no próprio Pentágono a garantir que houve ataques terroristas. Perante o caos, esperavam-se mortos e feridos. Cortando por entre os relatos que se seguiram uns aos outros em cascata, é isto o que precisa de saber:

  • Pelo menos duas explosões ocorreram, sendo que a primeira teve lugar às 18:24 em Cabul (14:54 em Lisboa), perto de um dos portões do aeroporto de Cabul, e a segunda junto ao hotel Baron, próximo do portão desse mesmo aeroporto — entretanto uma terceira explosão foi sentida na capital, mas ainda não se sabe que estrago causou.
  • O número de mortos confirmado é, na sua estimativa mais conservadora, de 13 vítimas mortais, e, na mais alargada, de 60 óbitos. A maioria são cidadãos afegãos, mas também há vítimas estrangeiras. Aliás, além destes dados, o Pentágono norte-americano adiantou que morreram 12 membros das suas forças armadas.
  • No que toca a Portugal, o ministro da Defesa garantiu durante a tarde — e depois em entrevista durante a noite — que os militares portugueses destacados em Cabul não foram afetados.
  • Apesar dos temores quanto à sua ação extremista junto dos seus adversários políticos e das mulheres, os talibãs não parecem ter sido os autores do ataque. Aliás, o seu porta-voz disse que o grupo "condena veementemente" os atentados.
  • Quem foi então? As suspeitas recaíram fortemente no Estado Islâmico e, ao fim da tarde, os EUA assumiram publicamente que consideravam esse grupo responsável e que iam agir militarmente em conformidade.
  • Entretanto, o próprio Estado Islâmico reivindicou o ataque, adiantando que o seu objetivo em específico era o de atingir afegãos "tradutores e colaboradores do exército norte-americano".
  • Já à noite, Joe Biden veio uma vez mais falar ao país (e ao mundo): assumindo a responsabilidade pelo que aconteceu nos últimos dias, deixou um aviso ao Estado Islâmico: "Nós não vamos perdoar. Nós não vamos esquecer". Passando das palavras às ações, o Presidente dos EUA já terá ordenado um ataque ao Estado Islâmico.

Como acontece com este tipo de eventos de fim incerto, a única previsibilidade aqui é que este texto rapidamente fique obsoleto face às atualizações que continuam a chegar do Afeganistão. Uma coisa é certa: o terror já chegou e é provável que apenas pior nos próximos tempos.

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