Dentu Zona, que em crioulo significa “no bairro”, é o nome da loja cultural criada pelo português de ascendência cabo-verdiana Vitor Sanches e o amigo Zeca no bairro Cova da Moura, onde a música, as bancas com peixe e a venda ambulante de donetes (argolas de massa doce) ajudam a matar as saudades de Cabo Verde, país de origem da maioria dos moradores.

Como Cabral, Vitor disse acreditar que a luta também se faz através da cultura e por isso não descansou enquanto não juntou num espaço as suas várias manifestações: literatura, música, artesanato, roupa e informação.

Para isso, contou com a ajuda de vários amigos, numa manifestação de “djunta mô”, que em cabo-verdiano significa “juntar as mãos”.

“Somos vários para poder subir todos juntos”, disse à agência Lusa.

“Ao entrares no bairro, já sabes que é um bairro muito real, que faz parte de Portugal, do Portugal de hoje em dia. A zona mostra muito isso e a loja vem mostrar ainda um bocadinho mais”, referiu.

No pequeno espaço repleto de palavras de ordem e fotografias de líderes africanos estão disponíveis livros de autores negros – para comprar ou consultar –, como a moçambicana Paulina Chiziane, que visitou a Dentu Zona e fez questão de oferecer alguns exemplares autografados.

Mas também os escritos de Amílcar Cabral, de Mário de Andrade, Grada Kilomba ou Frantz Omar Fanon dão vida às prateleiras da loja, não faltando várias referências aos heróis das independências em África.

Para Vitor Sanches, o passo mais importante foi dado com o nascimento do espaço no bairro, quebrando a distância entre a comunidade e os livros, e mais tarde com a criação da biblioteca, que permite a sua leitura a quem não tem dinheiro para comprar livros.

As atividades desta loja cultural incluem ainda a exposição de artesanato de moradores e a audição ou venda de discos, como um que acompanha o livro “Cantigas de Trabalho - Tradições orais de Cabo Verde”, de Oswaldo Osório, editado em 1980 pela Comissão nacional para as comemorações do quinto aniversário da independência de Cabo Verde.

Feiras, festas e um cineclube dedicado a personagens negras fazem igualmente parte da programação deste espaço, onde a atualidade é sempre um bom motivo para debate.

“É uma ocasião em que as pessoas se reúnem, compram livros, outro tipo de arte e ao mesmo tempo também conversam de coisas muito importantes, como a situação na Palestina e em outros países”, observou.

Um simples livro de Angela Davis – um ícone da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos – pode ser o mote para uma conversa sobre algumas das causas ali patentes, como a feminista ou o combate ao racismo.

A Dentu Zona fez ainda nascer uma marca de moda – a Basofo, que quer dizer “uma pessoa com estilo e atitude, o que é muito importante para as pessoas negras, porque empodera”.

A criação desta linha de moda surgiu da “necessidade de empoderar as pessoas” e o pente foi o símbolo escolhido para a representar, por ser muito mais do que isso, significando a própria “identidade”.

Dentu Zona
créditos: Lusa

“Uma das coisas que mais vendo aos jovens é o chapéu de Amílcar Cabral"

T-shirts, sweatshirts – com imagens e frases da causa feminista e antirracista – sacos, lenços e chapéus, muitos deles ornamentados com os coloridos panos africanos, estão à venda no recinto, onde não faltam bonés e modelos de um chapéu muito especial, o popular súmbia, que se tornou o símbolo de Amílcar Cabral.

“Uma das coisas que mais vendo aos jovens é o chapéu de Amílcar Cabral, é um item revolucionário”, disse.

Mas Cabral também mora na Cova da Moura: “Encontras Cabral em cada esquina, em cada beco. É importante a presença de Cabral aqui na zona, porque é uma raiz, um emblema muito forte. Temos de replicar as caminhadas de Amílcar Cabral”.

“Não só Cabral, como também a Titina Sila”, afirmou, referindo-se a Ernestina "Titina" Sila, uma guineense combatente pela independência da Guiné-Bissau.

E acrescentou: “É muito importante falar de Cabral, fazer essa cena do centenário, mas não só. (…) Também queremos falar sobre a morte de Amílcar Cabral. (…) Precisamos de saber o que aconteceu com Amílcar Cabral”, cujo centenário de nascimento se assinala este ano.

É com visível orgulho que Vitor Sanches indica várias pinturas de Cabral nas paredes das casas e ruas da Cova da Moura, muitas delas com os nomes da ilhas e cidades de Cabo Verde, mostrando que “Cabral ka muri” (Cabral não morreu, em crioulo).