As expectativas estavam bastante altas para este reboot de Joker, visto que nas últimas décadas, não faltaram exemplos que fizeram justiça à fama do vilão. Vem-nos logo à cabeça Jack Nicholson que, em 1989, personificou em Batman, um mestre do crime focado no controlo da cidade de Gotham; lembramo-nos de Mark Hamill aka Luke Skywalker, que lhe deu voz em séries animadas e em videojogos com o melhor riso maléfico; e é impossível esquecermos Heath Ledger, como promotor do caos e anarquia, em Cavaleiro das Trevas, que venceu o Óscar de Melhor Ator Secundário em 2009. Todavia, também guardamos exemplos de prestações menos memoráveis, como a de Jared Leto em 2016, em Esquadrão Suicida, na última vez que a personagem tinha aparecido no grande ecrã.

Às comparações, rapidamente se juntaram questões em torno daquilo que o filme poderia acrescentar às histórias já contadas e ao universo da DC, bem como críticas de opinadores profissionais que se apressaram a apontar os perigos de legitimação que o filme poderia dar a ataques, como os que têm acontecido, nomeadamente nos EUA, cometidos por homens, brancos, com debilidades mentais ou com posições mais extremas sobre a sociedade. Críticas que ganham eco quando na memória de todos está ainda a estreia, em 2012, de “O Cavaleiro das Trevas Renasce”, quando um jovem de 24 anos entrou por uma sala de cinema, em Aurora, no estado do Colorado e matou doze pessoas e feriu outras 70. Foi, e ainda é, um saldo pesado.

As preocupações existem, mas estamos a falar de cinema. E como cinema que é, não será difícil afirmar que este é o melhor trabalho da DC desde a adaptação de Christopher Nolan do homem-morcego. Realizado por Todd Phillips – sim, o mesmo da trilogia da Ressaca – e escrito também por ele e por Scott Silver com o apoio na produção de Bradley Cooper (também protagonista em A Ressaca), o primeiro sinal do potencial do filme foi a sua vitória no Festival de Cinema de Veneza onde foi premiado com o Leão de Ouro e recebeu uma ovação de oito minutos com o público de pé. O segundo sinal foram as reviews favoráveis de sites de referência como o Rotten Tomatoes ou o Metacritic que elogiaram a nova abordagem à personagem Joker.

Ao contrário de projetos anteriores, este Joker é mais um drama psicológico e menos um filme de ação. Phillips inspirou-se, em parte, na premissa de “The Killing Joke”, uma BD da autoria de Alan Moore e Brian Bolland, que, em 1988, se aventuraram a explorar o passado de Joker como um jovem adulto com dificuldades em concretizar o seu sonho de ser comediante de stand-up. Mas não só. O realizador trouxe para este Joker qualquer coisa dos filmes de Martin Scorcese (que foi também  inicialmente produtor do filme), mestre em personagens complexas psicologicamente como Taxi Driver e Raging Bull, focando-se em figuras que questionam o seu papel na sociedade, curiosamente ambas protagonizadas por Robert De Niro. Talvez por isto encontremos agora De Niro neste Joker representando Murray Franklin, o apresentador que Arthur Fleck/Joker tem como ídolo e referência.

          Mas então quem foi Joker antes de ser Joker? Na década de 80, a cidade de Gotham vive um período decadente, arrasada por problemas económicos e sociais onde o crime não pára de subir bem como o descontentamento das classes mais pobres face ao “sistema”. Arthur Fleck é um homem medicado para a sua esquizofrenia e depressão e tem a chamada “doença do riso” que o faz ter ataques de riso nos momentos mais impróprios. Enquanto aspira ser um comediante de sucesso, trabalha como palhaço em diversos biscates, toma conta da mãe que se encontra doente e tem reuniões regulares com uma assistente social desinteressada à qual tenta relatar os seus problemas.

Tudo isto por si só já teria potencial para levar alguém à loucura, mas percebemos que o que nos leva a Joker é uma sucessão de dias maus em que literalmente quase tudo lhe acontece. Tudo lhe acontece enquanto ele trava uma batalha com a sua própria mente. O que é tudo? Tudo é ser atacado por um bando de jovens enquanto trabalhava como palhaço. Tudo é ser forçado a matar três trabalhadores da Wayne Entreprises que o atacaram depois de um dos seus ataques de riso no metro. Tudo é ser traído por um colega de trabalho e despedido injustamente.  E, como se tudo isto não bastasse, até chega a ser gozado no programa do seu ídolo Murray Franklin, quando um vídeo de uma tentativa falhada sua de contar piadas num placo chega à televisão. Acontece-lhe, na verdade, muito mais, mas os principais momentos que levam à sua transformação no vilão que conhecemos serão aqui cuidadosamente omitidos na defesa do leitor que pretende ver o filme.

Todos estes momentos (os mencionados e os omitidos) levam Fleck a sentir-se rejeitado pela sociedade, a ter dificuldade em ser ouvido e a conseguir que as pessoas reparem nele pelas boas razões. E, quando reparam nele, não é pelas melhores razões. Como aquela vez em que matou três empregados da Wayne Entreprises, e desencadeou um movimento contra o “establishment” depois de o CEO da empresa, Thomas Wayne (pai de Bruce Wayne aka Batman) ter afirmado que o culpado só podia ser alguém “com menos posses”. E assim, tendo a violência como resposta para ter uma voz e uma plataforma para se exibir, assistimos ao nascimento de Joker.

A procura de uma voz, se excluirmos o universo fantástico onde se desenrola este drama, acaba por ser o tema central através do contraste entre a comédia, a violência e a construção da personagem. Para alguns, Arthur pode ser visto como alguém inerentemente com boas intenções, que acabou vítima das suas condições psicológicas e do contexto em que vivia. Para outros, Arthur já tinha tudo para se tornar o vilão que conhecemos e não havia muito que pudesse ser feito. O filme não glorifica nem justifica a violência. Aproveitando o contexto violento exacerbado pelos traumas de Joker, propõe-nos refletir sobre o papel da sociedade na integração de indivíduos que se sentem completamente excluídos, utilizando o exemplo de um aspirante a comediante sem jeito para tal.

Noutra perspetiva, numa era em que as redes sociais criaram um espaço para qualquer pessoa poder ter uma voz, verdadeira ou artificial, e que os comediantes já não são bobos da corte e vêem as suas opiniões, às vezes, mais escrutinadas do que políticos e outras personalidades de maior responsabilidade na sociedade, há a fina ironia de utilizar um palhaço criminoso mal-sucedido no humor.  Uma das cenas finais do filme não podia ser mais contemporânea, quando Joker questiona se “a mesma sociedade que define o que é certo e errado também deve determinar o que tem piada e o que não tem?”. Aí estamos nós confrontados com a discussão atual sobre os limites da comédia e sobre se a nossa liberdade de expressão interfere com a liberdade das pessoas à nossa volta. Por não ser reconhecido pelas suas piadas ou boas ações, Fleck acaba por assumir uma postura mais “drástica” e a conseguir atenção pela sua figura, no seu traje clássico de palhaço com a cara pintada, o cabelo esverdeado e o fato roxo. Depois, com uma personalidade mais assustadora e louca, impulsionada pelos seus problemas mentais, adaptando as suas palavras, finalmente consegue chegar às pessoas com uma mensagem mais populista “sem filtros” onde se apresenta como o destemido, sem medo de identificar o que está mal com a sociedade.

Em duas horas de filme, Joker sai vitorioso no desenvolvimento da personalidade complexa de Arthur Fleck, na construção do ambiente que o rodeia e na abordagem inteligente e fiel à sua lista de temas onde-importa-por-o-dedo-na-ferida. Sem descurar o entretenimento e o suspense que os fãs da DC e de cinema no geral procuram, atinge o objetivo de qualquer boa história – mostrar uma ou mais realidades e fazer-nos pensar. Num modo de apostas para os Óscares, será uma surpresa se Joaquin Phoenix não for nomeado para Melhor Ator e se o argumento do filme também não merecer uma nomeação.

Joker estreia hoje, 3 de outubro, nas salas de cinema em todo o país.

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