Pontos, pontos, pontos. Era tudo o que interessava às duas equipas que hoje se iam defrontar em Guimarães.

Depois de tanto o Vitória com o Eintracht Frankfurt terem entrado com o pé esquerdo na fase de grupos da Liga Europa, era imperativo pontuar na corrida ao segundo lugar. Sim, porque neste grupo já era esperado que o Arsenal reinasse senhor e isolado — e o “varrimento” que hoje deram ao Standard de Líege é sintomático desse favoritismo, pois já tinham despachado os alemães no jogo anterior por 3-0.

Quanto ao Vitória, a equipa de Ivo Vieira saiu da Bélgica com um sabor mais amargo que o mais negro dos chocolates, pois foi a melhor equipa em campo, mas já se sabe que no futebol isso pouco vale quando não se marcam golos (e, perdoem-me a lapalissada, quando se sofrem também).

Recorde-se que os vimaranenses tinham chegado à fase de grupos da Liga Europa com uma campanha absolutamente extraordinária. Antes do desaire frente aos pupilos de Preud’homme, o Vitória vinha invicto, pelo que a atitude teria de ser a tratar o jogo como uma anomalia e fazer os devidos ajustes para que não voltasse a acontecer.

Os jogos seguintes — conquistas contra o Tondela e o Paços de Ferreira e um empate que podia ter sido uma vitória contra um Benfica frouxo na Luz para a Taça da Liga — deram razão à noção de que ao Vitória bastava uma dose extra de afinco para ultrapassar o Eintracht Frankfurt em casa, até porque esta equipa alemã não é a mesma que eliminou o Benfica no ano passado nesta prova e dessa frente de ataque temível só ficou Flip Kostic.

Sentimentos patrióticos à parte, André Silva não é Luka Jović nem Sebastien Haller ou Ante Rebic, e se Gonçalo Paciência passou metade da época passada no banco é porque estes senhores assim o remeteram a esse lugar. Mais, porque é preciso dizê-lo: o favoritismo aparente com que a equipa de Adil Hutter chegou a Guimarães deve-se mais ao seu ADN teutónico e ao seu histórico do ano passado na competição do que ao atual momento de forma. Veja-se que este Eintracht Frankfurt só ganhou um dos últimos quatro jogos, está há cinco a sofrer golos, e ocupa o nono lugar da Bundesliga, onde os duelos que venceu foram pela margem mínima.

Ora, tínhamos então no Estádio D. Afonso Henriques uma versão inferior — “downgraded” se preferirem o anglicismo, “herabgestuft” se o vosso coração for germânico — do Eintracht, e isso rapidamente ficou patente. O problema é que, tal como aconteceu na Bélgica, o Vitória voltou a carregar e a marchar e a batalhar (e outros verbos bélicos que queiram aqui introduzir), mas não a marcar. E como sofreu, perdeu.

Fiel ao seu modelo de rotação de jogadores, Ivo Vieira mudou meia equipa depois do confronto com o Paços de Ferreira, se bem que foi um onze muito próximo daquele que se bateu com o Standard. Face a esse jogo, o capitão Pedro Henriques ocupou o lugar de Bondarenko e Marcus Edwards estreou-se a titular na posição que normalmente é de Rochinha.

Quanto ao Eintracht Frankfurt, se já não vinha a demonstrar estar na maior das suas forças, muita gente em Guimarães deve ter feito as suas rezas nas capelinhas ao saber que tanto o guarda-redes Kevin Trapp como o capitão Hasebe se lesionaram no mesmo lance durante o fim de semana.

Em campo, posicionaram-se duas equipas com modelos de jogo muito diferentes: os portugueses procurando gizar jogadas de ataque bem trabalhadas, os alemães fazendo uso da sua famosa intensidade para se lançar em raides à baliza contrária. Deste choque entre as ideias de Ivo Vieira e Adi Hutter, começou o madeirense por levar a melhor.

Apesar de haver muito poucas oportunidades de golo flagrantes de parte a parte — remates de longe do Vitória, um balão por cima da baliza do pé de André Silva — na primeira meia hora de jogo foram os vimaranenses a dominar o encontro, tendo em Lucas Evangelista o motor das suas jogadas e em Mikel Agu o para-choques que ia detendo o Eintracht Frankfurt.

Vitória de Guimarães Eintracht Frankfurt
créditos: MIGUEL RIOPA / AFP

Contudo, apesar do domínio, aos conquistadores faltou sempre o toque final, algo que já tinha ficado aparente na Bélgica. Boas triangulações? Sim. Movimentos sem bola a fazer desmarcações? Também. Aproveitamento dos espaços que os alemães iam deixando à retaguarda? Pois claro. Mas golos, senhores, é preciso golos, e isso nem Leo Bonatini, nem Marcus Edwards, nem Davidson conseguiram fazer.

Mas não é que não tenham ficado perto. Aos 16 minutos, naquela que foi uma das melhores jogadas do encontro, Marcus Edwards avançou para a área, temporizou e deixou para Sacko, que centrou rasteiro. A bola foi parar ao pé de Bonatini e o brasileiro atirou ao poste direito, tendo o esférico ressaltado para o lado esquerdo, tendo o seu conterrâneo Davidson atirado por cima.

Estes são os “e se’s” do futebol. Marcando, o Vitória, a jogar em casa, tinha excelentes oportunidades de controlar o jogo. Só que não, ocorreu o oposto. Depois de ameaçar com um remate de Durm, o Eintracht Frankfurt marcou mesmo aos 36 minutos, fruto do primeiro canto que obteve. Perante os seus colegas avançados (claramente desinspirados), foi N’Dicka — sim esse mesmo, o central que recebeu vermelho direto no jogo em que João Félix se mostrou à Europa com um hattrick — que saltou entre os centrais e elevou os alemães no marcador. O Vitória ainda tentou replicar essa fórmula num canto de que dispôs logo de seguida, mas a bola apenas penteou Agu e os vimaranenses foram para o intervalo a perder.

No segundo tempo, os conquistadores voltaram a entrar com vontade de disputar a partida, mas quando não falhava o passe, era N’Dicka ou Hinteregger a limpar os lances. O Eintracht ia gerindo um jogo que o Vitória pecava em não abanar, já que Bonatini nunca mais registou um lance de registo depois do remate ao poste (tarda em justificar a contratação) e os extremos também estiveram em dia “não”.

E como um mal nunca vem só, quando Ivo Vieira se preparava para mudar o jogo, o lateral Sacko lesionou-se e uma das estrelas da equipa que vinha para dar força ao ataque, Rochinha, foi forçado à tarefa ingrata de defender à direita. Esse foi o princípio do fim para o Vitória, já que a equipa ficou desequilibrada defensivamente e sem folgo para atacar. Aliás, se os vimaranenses conseguiram disputar a partida taco-a-taco até ao fim, foi porque tiveram em Miguel Silva um guarda-redes destemido que parou dois golos feitos (de Kostic e de André Silva).

Já com a dupla de avançados Bruno Duarte (substituindo Bonatini) e André Pereira (que fez as vezes de Davidson) em campo — entrando Bas Dost por Gonçalo Paciência do lado dos alemães —, o Vitória ainda fez um forcing final, com o avançado brasileiro a estar próximo da igualdade, especialmente ao cair do pano, quando fez um grande remate que passou ao lado do poste. Sem sucesso.

Apesar de poder reclamar vitórias morais, a equipa de Guimarães continua sem pontuar na Liga Europa. Seguem-se dois duelos seguidos contra o Arsenal e, a bem da sua continuação na prova, é bom que os vimaranenses arranjem munições.

Bitaites e postas de pescada 

O que é que é isso, ó meus?

Dói escrever isto, porque o Vitória de Guimarães devia mesmo ter vencido este embate. Num jogo onde a atuação global da equipa foi boa, os arquitetos da sua queda foram invariavelmente Tapsoba e Pedro Henrique. Bastou uma desatenção num canto para N’Dicka, enfiado entre os dois centrais vimaranenses, marcar o golo que ditou a derrota da equipa portuguesa.

Miguel Silva, a vantagem de ter duas pernas

É verdade que na última crónica europeia do Vitória de Guimarães, esta distinção também foi para guarda-redes, mas não, quem escreve estes textos não é um Buffon frustrado que acabou atrás duma secretária. Lucas Evangelista habilitar-se-ia a receber este troféu, não fosse o jovem guardião do Vitória ter feito um par de defesas fenomenais para manter os vimaranenses em jogo. Prova de que a conquista do lugar não foi obra do acaso, Miguel Silva deu o corpo às balas germânicas e saí com mazelas. Pena o seu esforço ter sido em vão.

Fica na retina o cheiro de bom futebol

Marcus Edwards tem tudo para ser craque, mas como tantos jovens jogadores tecnicamente dotados, perde-se em habilidades em vez de manter o jogo objetivo. Quando o fez, contudo, o Vitória quase marcou. O primeiro lance de grande perigo dos conquistadores aconteceu quando o inglês combinou com Sacko e este centrou rasteiro para Bonatini atirar ao poste. 

Nem com dois pulmões chegava a essa bola

Não foi uma noite boa para os avançados vimaranenses, mas nem por isso foi melhor para Gonçalo Paciência e André Silva. Os portugueses na frente da turma germânica tiveram pouca bola e ainda menos oportunidades, mas o espelho dessa noite desinspirada foi quando André Silva tentou sair em contra ataque e levou a bola para fora de campo pela linha lateral, um flagelo que afeta milhões de aficionados de simuladores de futebol quando exageram no botão de corrida em vez de passar a bola.

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