"Capacidade política é a capacidade de antecipar o que pode acontecer amanhã, na próxima semana, no próximo mês e no próximo ano. E ter, depois, a capacidade de explicar porque é que não aconteceu" - Winston Churchill.

Desde que a China anunciou que tinha um “problema” epidémico, em 31 de dezembro, passaram 80 dias. Neste curto prazo de quase três meses, que sentimos como se fossem cem anos, o crescimento foi vertiginoso; a 23 de fevereiro há havia 78.811 casos confirmados em 30 países, e nas semanas mais recentes foi sempre a crescer, nomeadamente na Europa e também nos Estados Unidos, América do Sul e agora também em África. A 19 de março, o mundo estava com 236.420 doentes e já contabiliza 9.790 mortes, em 150 países – dados que hoje já serão outros. Esta velocidade assustadora desatualiza permanentemente as estatísticas e os comentários que enchem a comunicação social e as redes todos os dias.

As razões são de ordem matemática e têm a ver com a natureza – o feitio, digamos assim – das diferentes sociedades.

Quanto à matemática, há muito quem diga que não é a ciência certa para avaliar e prognosticar o fenómeno, mas também é ela que permite às outras ciências, nomeadamente à medicina e à química farmacêutica, mas também à política, apresentarem as suas soluções.

Matematicamente é muito simples; a transmissão dá-segundo uma progressão exponencial, já verificada no terreno. Segundo os chineses, sem qualquer contenção, uma pessoa infeta outras 2,2 por dia. Então, é só fazer as contas: dia 1, 2 pessoas, dia 2, quatro, dia 3, oito, dia 4, 16, dia 5, 32, dia 6, 64, dia 7, 128. Numa semana, 128 casos. Em duas semanas 16.384.

Vários matemáticos têm feito as contas, levando em consideração que, à medida que a coisa alastra, tomam-se medidas de contenção e isolamento. Em Portugal, o mais famoso é Jorge Buescu, que primeiro desvalorizou a pandemia e depois publicou um extenso artigo no “Observador” e apareceu no programa da RTP “Prós e Contras”. Tornou-se uma estrela, mas levou muitos comentadores a dizer que não é com matemática que se pode avaliar a questão. Têm razão, em parte, mas na outra parte não têm; são também as contas que permitem ver a letalidade que o mundo enfrenta. Em termos comparativos de fatalidades, não é a pior epidemia dos tempos modernos, e muito menos dos antigos. Como a minha colega Isabel Tavares enumera aqui no SAPO24, já houve outras que provocaram milhões de mortos.



Ainda na componente matemática, há um artigo de Tomas Pueyo, na plataforma “Medium”, com 40 milhões de visionamentos (à data de ontem) que explica os desenvolvimentos numéricos até à exaustão - e que Francisco Sena Santos desmontou na sua crónica desta segunda-feira no SAPO24 . Em Portugal, outro estudo da Escola Nacional de Saúde Pública, divulgado pela Lusa, que usou os modelos matemáticos para chegar à conclusão que por cada 100 casos em Itália, Portugal terá sete casos. Mas a investigadora que falou com a Lusa acrescentou logo o maior problema destas elocubrações: “Esta previsão é muito fiável a um curto período de tempo, cerca de três a cinco dias. Passado esse tempo é muito difícil prever com exactidão”.

As diferenças, no caso atual, face a outras epidemias ou pandemias são duas: primeiro, a rapidez da contaminação, tanto em números como em área. A globalização, com destaque para as trocas comerciais e para o turismo, significava milhares de voos, dezenas de milhares de barcos e centenas de milhares de camiões e comboios a circular todos os dias, constantemente, entre todos os países do planeta. (Como diz o “Economist”, não surpreende que a aviação, a indústria mais responsável pela globalização, seja a mais atingida). Segundo, havia uma perceção geral (não partilhada pela comunidade científica) de que estávamos num estágio da civilização em que um fenómeno como o de 1918/19 já não seria possível. Não faltam filmes de ficção científica em que equipas dedicadas e cobertas com equipamento espacial conseguem travar epidemias terrestres e alienígenas.

Quanto às diferenças culturais, já lá vamos. Consideremos agora a questão sanitária. O problema imediato, para ontem, é ter equipamentos – os famigerados ventiladores, máscaras, camas, etc. – para tratar de todos os doentes. Ninguém se esquecerá do terrível testemunho do médico italiano que disse que tinham de deixar morrer os mais fracos, porque não havia ventiladores para todos. Isto há uma semana, talvez. O melhor é nem pensar muito como está a situação uma semana depois.

O problema seguinte é desenvolver um retroviral eficiente e uma vacina específica. A vacina é uma hipótese a mais longo prazo; mesmo que tudo corra bem, o desenvolvimento, os testes em amostras, primeiro animais e depois humanas, e a produção em massa, fazem com que não se possa esperar por uma distribuição generalizada em menos de um ano, quando provavelmente (espera-se!) já não faça tanta falta. Provavelmente os retrovirais chegam primeiro. Os japoneses identificaram 77 substâncias possíveis – a grande quantidade não é uma vantagem, uma vez que implica 77 ensaios – mas há um medicamento, há muito no mercado para tratar outras doenças, a cloroquina que está a entusiasmar alguns investigadores e a suscitar críticas de outros, entre os quais o especialista em doenças infecciosas da Casa Branca, Anthony Fauci, que contrariou abertamente o entusiasmo do presidente americano.

As diferenças culturais entre os países também são uma componente importante, que não está incluída nas projeções matemáticas. Os chineses são ordeiros e empenhados, até porque estão habituados a uma governação própria da dita democracia musculada. A 180º estão os italianos e os espanhóis, por natureza pouco submissos à ordem instituída, amantes da socialização intensiva, e a viver em regimes democráticos que tornam difícil impor normas muito restritivas das liberdades. Aliás, é também esse o nosso caso... Mas estas ideias estabelecidas trazem sempre surpresas. Que dizer dos islandeses, um povo considerado ultra-civilizado e ultra-liberal, que tem actualmente uma taxa altíssima de infeção?

A outra calamidade, que já está a ocorrer, será, pós-pandemia, ainda pior, e é económica. Nesta altura dos acontecimentos os governos e autoridades monetárias, tanto nacionais como internacionais, estão a desenvolver e aplicar pacotes de incentivos financeiros e ajudas salariais com valores faraónicos, e todos os analistas consideram que ainda não são suficientes. Neste momento, o Governo alemão criou um pacote de 600 mil milhões de dólares, e o inglês 420 mil milhões. A União Europeia prometeu centenas de milhões de apoio aos estados membros, e em França, Espanha e Itália os governos afirmam que gastarão “o que for preciso”. Os americanos, a quem só agora está a cair a ficha, aumentam o pacote em discussão no Congresso diariamente, a aproximar-e do valor vulcânico do trilião (milhares de milhões de milhões).

Ninguém sabe, realmente, qual o estrago que a paragem do tecido produtivo de um país irá custar. Mas, passada a fase aguda da crise, quando a produção e o trabalho voltarem, há que pagar os endividamentos nacionais e o global, e arranjar fundos para reconstruir o que entretanto foi destruído. Milhões de empresas - setores inteiros em alguns casos - serão massacrados ou não sobreviverão mesmo à crise e há que criar outras; restabelecer os circuitos comerciais, a ajudar as sobreviventes a recuperar. Já é certo que está a começar uma recessão mundial, só não se sabe que dimensões terá.

Há quem diga que será pior do que a maldita Grande Depressão de 1929, mas também há quem veja um a oportunidade para correções que se arrastavam e uma mudança em vários modelos que persistiam apesar de obsoletos ou desfasados com o nosso tempo. Os valores numéricos são de certeza maiores, mas sobre a taxa de desemprego, ninguém arrisca uma expectativa. Como diz Ian Shepherdson, ex-economista chefe do banco internacional HSBC, “vai ser catastrófico. Temos uma economia baseada no consumo discricionário. As pessoas fazem diariamente compras não essenciais, desde vestuários e electrodomésticos até sessões de ginásio, refeições em restaurantes e corridas de Uber.” Segundo ele, todos estes bens não essenciais compõem cerca de 40% do PIB norte-americano. Um valor imenso, tanto em termos de milhares de milhões de dólares com na quantidade de pessoas que emprega. E acrescenta: “As pessoas não querem que o Governo ajude as grandes empresas, que tiveram milhares de milhões de dólares de lucro e pagaram somas gigantescas aos principais gestores. Mas se essas empresas não forem ajudadas, sectores inteiros terão desaparecido em setembro. Estamos numa crise de guerra, não numa situação económica normal.”

Em última análise – perdão, numa primeira avaliação – compete aos políticos tomar as decisões que podem melhorar ou piorar a situação. Quando entra a política, entram em jogo interesses que podem não coincidir com os dos cidadãos, ricos ou pobres. Não devia ser assim mas, infelizmente, é o que é, aqui e na China – ou nos Estados Unidos, ou no Uganda. No caso norte-americano, não falta quem ache que a pandemia é uma invenção da oposição ou uma mentira (“hoax”) para beneficiar as grandes multinacionais. As decisões dos políticos no poder, tanto podem depender da opinião pública – no mau sentido, de agradar e não de resolver – como estar-se nas tintas para ela e servir os interesses do costume. A dialéctica é política e não faltam, nem faltarão, erros colossais que serão pagos pelos mais vulneráveis.

Não somos dos que acreditam que a espécie humana vai mudar com esta crise e finalmente se empenhará a consumir e poluir menos. Passado o susto, os sentimentos serão os mesmos. Mas o tecido produtivo e as teias globais estão danificados. A espécie não muda, mas muita coisa será diferente. Se melhor, ou pior, só saberemos à medida que formos avançando no novo normal.

Para já, o melhor é ficar em casa a ver a Netflix e controlar a despensa.

(Nota: o leitor há-de reparar que não usamos uma única vez a palavra coronavírus. É um exercício de estilo propositado; está tão desgastada que já nem provoca um arrepio...)

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