Fiz um tweet há três semanas que dizia “A nova música do Valete está excelente. É importante em 2019 continuar a retratar a mulher como propriedade do homem e o homem como um atrasado mental. Fazia falta isto, de facto.”

Não insultei ninguém (creio), não disse que incentivava directamente a violência doméstica (parece-me), não disse que o Valete devia ser processado (acho), não disse que ele ou algum artista deviam ser proibidos de fazer o que bem entendessem com a sua arte (se bem consigo ler o que eu próprio escrevi). Mas a partir do tweet, foram dezenas e dezenas de mensagens e até vídeos no YouTube dirigidos a mim, por pessoas que, pela sua construção frásica, ortográfica e até pelo modo de raciocinar, se percebia logo que são intelectualmente superiores, daquelas que sofrem do talento de Dunning-Kruger, claro está. Entre tantos “és um c*nas!”, “enfia o politicamente correcto no cu” ou “queria ver se fosse com a tua namorada, ó filha da p*ta”, houve outros tantos “queres proibir!” ou “dizer que não faz falta é censurar!”. Fiquei confuso. Então eu andava aqui há anos a achar que “não gostar” era só “não gostar”, mas afinal é querer proibir, e ninguém me dizia nada? Escandaloso. É que reli o meu tweet meio milhão de vezes e não estava a perceber o drama todo, mas de facto depois fui à Wikidummypedia e percebi que criticar algo é querer proibir automaticamente que exista.

Entretanto, até percebi que o próprio Salazar só dizia coisas como “não gosto muito de bacalhau” e o bacalhau era logo proibido pela PIDE. Tempos horríveis os que se viviam antes, exactamente como os que se vivem agora. E por causa disso, como eu disse que não gostava da música, é perfeitamente natural que as pessoas façam logo uma pequena extrapolação (obviamente lógica e coerente para os intelectuais) e assumam que eu criei, ou pelo menos assinei, uma petição contra o trabalho do Valete, mesmo que eu não a tenha criado, promovido, ou sequer assinado.

Queiram desculpar-me a minha ignorância em todo este assunto. É que o meu trabalho é criticado constantemente e só agora é que percebi que, assim sendo, as pessoas estão constantemente a querer proibir-me de trabalhar neste vil ataque à minha liberdade de expressão. Foi preciso que as pessoas usassem a sua liberdade de expressão para defender a liberdade de expressão dos artistas para me ensinarem que eu não tenho o mínimo direito a usar a liberdade de expressão para criticar nenhum artista, mesmo que eles possam usar a sua liberdade de expressão, não só para o defender, como também para me criticar a mim. É confuso, é. Por isso é que demorei tanto a perceber.

Agora, eu não sei se então não devemos alargar isto a tudo. Acabar com toda a qualquer crítica. Seja a arte, seja a um restaurante no Zomato, seja a um condutor da Uber e se calhar até mesmo aos TPC dos miúdos na escola. É proibir a crítica porque a crítica proíbe a arte e o resto. Ah, a beleza dos paradoxos encanta-me.

Encerro assim este assunto para mim, sobre uma música que por mais que eu não goste, nunca me passaria pela cabeça proibir ou punir. Assunto este que nunca foi sobre mim, por mais que muitos o queiram fazer parecer.

Agora, livrem-se é de criticar esta crónica.

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

- Gomorra: Temporada 4 já estreou. Série incrível.

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