“Eu estou sabendo que lá na foz do Amazonas, do rio Amazonas, o senhor está pensando no petróleo que tem lá debaixo do mar. Eu penso que não [devia explorar], porque essas coisas, na forma como estão, garantem que a gente tenha o meio ambiente, a terra com menos poluição e menos aquecimento”, disse Raoni num encontro em que recebeu Lula da Silva no Parque do Xingu, no estado brasileiro do Mato Grosso.

“Se isso acontecer, eu sou pajé [chefe espiritual] também, eu já tive contacto com os espíritos que sabem do risco se a gente continuar trabalhando dessa forma”, acrescentou o indígena, citando consequências “muito grandes” para o planeta que a humanidade pode não conseguir depois reverter ou parar.

Raoni, que subiu a rampa do Palácio do Planalto acompanhando Lula da Silva no dia da posse para o seu terceiro mandato, elogiou o governante dizendo que ambos lutam pelas pessoas e  pediu-lhe que não repita erros que cometeu no passado.

O líder indígena também sugeriu que Lula da Silva escolha um sucessor.

“Quero pedir ao senhor para pensar no seu sucessor, que tem que ser o próximo Presidente da República, para continuar seu trabalho de proteger os povos indígenas e o nosso território”, disse Raoni.

Já Lula da Silva, que foi à aldeia Piaraçu, no Xingu, para conceder a Raoni a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito, a mais alta condecoração do Estado brasileiro, afirmou que estava ali para o homenagear e também para escutar e encaminhar soluções, mas não respondeu aos pedidos do líder indígena.

“Reconhecemos os direitos e temos a exata noção do papel indispensável dos povos indígenas para a preservação da floresta e para nosso enfrentamento à mudança do clima. Reconhecemos e amamos os povos indígenas. E isso é muito visível quando temos uma oportunidade como a de hoje, de sobrevoar a região e ver do alto o verde e o respiro que o território indígena entrega ao planeta”, afirmou o Presidente brasileiro.

“Sem a proteção dos povos indígenas, o cuidado com a floresta e os rios, a crise climática traria eventos ainda mais extremos de secas e inundações para toda a população brasileira, sem exceção. Vocês são fundamentais para atingirmos a meta de ‘zerar’ o desmatamento na Amazónia até 2030”, acrescentou.

No evento, outro líder indígena, o cacique Tapi Yawalapiti, agradeceu ao Governo brasileiro pelo apoio aos povos indígenas, mas pediu que “mais seja feito” e, principalmente, que avance o processo de regularização das terras reivindicadas.

Lula da Silva respondeu a essa exigência dizendo, num discurso que leu para facilitar a tradução aos indígenas presentes, que o Governo trabalha para demarcar e homologar terras indígenas, retirando não indígenas e combatendo o crime organizado em processos bem-sucedidos de “desintrusão” dos territórios ocupados pelos povos originários.

“Sabemos que ainda há muito a ser feito, mas as nossas políticas convergem nesse sentido de assegurar integralmente os direitos indígenas”, concluiu o Presidente brasileiro.