
As primeiras queixas são de 2016, mas a última denúncia, de 2023, foi a gota de água para o partido, que afastou Juan Carlos Monedero dos cargos que ocupava. Com 62 anos, é alvo de várias acusações de ter um comportamento inadequado com funcionárias do partido e alunas do curso Ciência Política, da Universidade Complutense de Madrid (UCM).
Já em 2024, Íñigo Errejón, também fundador do Podemos, foi acusado de assédio sexual e forçado a sair da política. Pouco tempo depois, voltam a surgir denúncias de abuso sexual, agora relativas a Juan Carlos Monedero , que deixam o partido de esquerda debilitado.
As vítimas relatam situações em que o deputado se aproximou para "toques indesejados e beijos não solicitados" . Além disso, uma estudante do último ano da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da UCM conta que Monedero era conhecido como “tocador e baboso” e tinha comportamentos com as mulheres desconfortáveis. Face aos relatos, a UCM abriu uma investigação oficial.
Em setembro de 2023, a secretária de Feminismo do partido, Ángela Rodríguez, recebeu emails a alertar que “há anos que Juan Carlos Monedero se dedica a apalpar e incomodar mulheres jovens na esfera do partido”. Este ano, a pressão mediática dos casos obrigou o Podemos a responder, que até agora se tinha mantido em silêncio para evitar a exposição pública das vítimas, segundo a notícia avançada pelo Expresso.
O deputado ainda não foi ouvido pelo tribunal. Ione Belarra, secretária-geral do Podemos, disse ao Expresso que foi aberta uma investigação dentro do partido: “Afastámos Juan Carlos Monedero no momento em que tivemos conhecimento dos testemunhos das suas vítimas, porque queremos pô-las no centro, protegê-las e proteger a sua vontade. Ter em conta as mulheres e o que querem é fundamental para nós. Quiseram discrição, anonimato, por isso atuámos como atuámos”.
Ainda assim, depois de conhecidas as denúncias, Juan Carlos Monedero manteve os cargos que ocupava na direção da emissora de TV La Red e na direção do Instituto República e Democracia, think tank do partido. Continuou, também, a representar o Podemos no parlamento e nos atos políticos.
Em resposta, o deputado nega qualquer acusação: "Há doze anos, desde que fundámos o Podemos, não tive um mês na vida sem processos e julgamentos, todos com base em denúncias falsas, todos arquivados, todos orquestrados para me prejudicar”.
Outras acusações a Juan Carlos Monedero
Lola Sánchez, eurodeputada do Podemos entre 2014 e 2019, também acusou Monedero de assédio. No diário La Razón, partilhou no passado sábado o momento que em, no encerramento da campanha eleitoral para as europeias, em maio de 2014, “Monedero esteve toda a noite muito insistente e baboso comigo. Teria sido uma noite muito bonita se Juan Carlos não ma tivesse estragado. Num dos bares, de copo na mão, acabou por me encostar à parede.”
Anos antes, em 2016, foi suspenso da Universidade Complutense de Madrid sem salário durante seis meses por ter feito trabalhos de assessoria para governos da Bolívia, Equador, Nicarágua e Venezuela sem ter pedido autorização à reitoria. Como multa, teve de pagar à UCM 42.500 euros, 10% do que recebeu com estes trabalhos.
Nesta altura, Juan Carlos Monedero já era conhecido por ter comportamentos inusitados com alunas. No campus de Somosaguas, onde o professor e político dava aulas, circulavam expressões que sugeriam a mesma ideia: “Tutorias com Monedero, só de porta aberta”. E cartazes com a sua foto e o aviso: “Assediador”.
O discurso feminista que fica nas bancadas parlamentares
“Estamos a ver e a viver, por estes dias, um retrato, uma radiografia de um feminismo da esquerda que demonstra ser absolutamente de pacotilha”, reforça Cuca Gamarra, secretária-geral do Partido Popular (PP, centro-direita), principal força da oposição. “Este cinismo e hipocrisia fazem muitíssimo mal às mulheres. Dizem uma coisa e fazem o seu contrário”, acrescenta.
Nem o Governo, nem o Podemos reagiram. A vice-primeira-ministra Yolanda Díaz, do Sumar, uma coligação de grupos à esquerda do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, centro-esquerda) com este no Governo, foi a única que dedicou umas palavras às vítimas e a exigir que se investigue “tudo o que for preciso”.
Em relação ao processo de Íñigo Errejón, de 42 anos, também não houve atualizações. O deputado deixou o cargo de líder parlamentar do partido Sumar e os outros cargos a que estava associado. As vítimas descreveram-no como "um monstro, por trás da figura de político normal".
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