De Carmen Mola pouco se sabia até há uma semana. Da autora, não da sua obra. Apelidada de a “Elena Ferrante espanhola”, pelo mistério em torno da verdadeira autoria dos livros e por querer preservar a sua privacidade, mas também pelo sucesso de vendas, Carmen Mola julgava-se ser o pseudónimo de uma escritora de novelas policiais negras, nascida em Madrid, professora de liceu, casada e com dois ou três filhos. 

Os seus livros venderam centenas de milhares de cópias com traduções em onze países e direitos vendidos para a adaptação televisiva. Em Portugal está publicado “A Noiva Cigana”, uma edição da Suma de Letras, uma chancela da Penguin Random House, que chegou às lojas em maio deste ano. É esse livro, de 2018, que inaugura uma série que tem como protagonista a singular inspetora Elena Blanco, uma “mulher peculiar e solitária, que gosta de grappa, karaoke, carros clássicos e sexo em SUVs”. Seguiram-se “La Red Púrpura”, em 2019, e “La Nena", em 2020.

“Quem é Carmen Mola? Isso importa? Os seus romances cativam-nos com uma originalidade que nos subjuga e nos faz querer mais, muito mais, quando, horrorizados, percebemos que já estamos na última página”, disse o diretor do Festival Literário Valencia Negra Jordi Llobregat, sendo esta declaração usada no material promocional dos livros — inclusive na edição portuguesa. “A autora, nascida em Madrid, decidiu manter o anonimato”, pode ler-se no mesmo texto que é acompanhado por uma foto a preto e branco de uma mulher de costas.

"Quem é Carmen Mola?”. É, perdão, são, afinal, três homens com idades entre os 40 e os 50: Jorge Díaz, Agustín Martínez e Antonio Mercero. Fim do mistério. A revelação apanhou todos de surpresa, como é visível no anúncio. E foram eles — não o agente, não uma mulher — quem subiu ao palco, onde estava o Rei de Espanha, para receber o Prémio Planeta.

O prémio Planeta, organizado pelo grupo editorial homónimo, distingue manuscritos inéditos, tendo-lhes sido atribuído por La Bestia”. A este soma-se um cheque no valor de um milhão de euros (mais 400 mil euros que o entregue na última edição), um valor semelhante ao do prémio Nobel da Literatura.

“Estávamos fartos de mentir. Por isso pensámos sair do armário em grande”, disse Jorge Díaz ao diário espanhol El Mundo.

créditos: Josep LAGO / AFP

Um nomes simples, espanholito

Em entrevista ao “El País”, Agustín Martínez, Jorge Díaz e Antonio Mercero (filho do responsável por “Verão Azul”, também ele chamado Antonio Mercero ), que já tinham publicado livros e trabalhavam como guionistas, negaram ter recorrido ao pseudónimo de uma mulher para vender mais livros. 

“Não nos escondemos atrás de uma mulher, mas sim atrás de um nome. […] Não sei se o pseudónimo feminino vende mais que o masculino. Não faço a menor ideia, mas não me parece”, disse Antonio Mercero ao jornal espanhol.

“Pensámos que ninguém leria um livro com três nomes na capa, por isso procurámos um pseudónimo”, acrescentou o Agustín Martínez. Não demorou muito até o encontrarem. Entre “nomes de homem, de mulher, estrangeiros” alguém disse “Carmen”. “Assim simples, espanholito”, continua ao escritor. “Carmen é fixe, não?”, isto porque “mola” é calão para o que em bom português podemos traduzir para “fixe". E ficou Carmen Mola.

A ideia de que o nome não “foi uma coisa pensada” é corroborada por Jorge Díaz ao El Mundo. "Poderíamos ter-lhe chamado R2-D2”, disse, referindo-se ao pequeno robô da saga de Stars Wars.

Uma jogada editorial?

“La Bestia, um misto de thriller e romance histórico, não faz parte da mesma coleção da inspetora Elena Branco. Passa-se em 1834, durante a epidemia de cólera em Madrid, e tem como mistério o assassinato de crianças pobres. Com mais de 500 páginas, o livro já tem data de lançamento: 4 de novembro, de acordo com o El Mundo. Agora com selo da Planeta. Isto porque com a atribuição do prémio, e do valor que lhe está associado, vem também a garantia de publicação pela editora.

E não é a primeira vez que a Planeta "rouba" um autor da grande concorrente, o grupo Penguin Random House. Em 2019, Javier Cercas e Manuel Vilas, dois "pesos pesados" da narrativa espanhola contemporânea, e que até então publicaram na Penguin, foram o vencedor e o finalista, respetivamente, do prémio.

"Rouba" porque no site da Random House, Carmen Mola continua a aparecer como autora da casa e a publicação do seu próximo romance, o quarta da saga protagonizado pela inspetora Elena Blanco, intitulado "Las Madres", está anunciado para a primavera de 2022. Ainda que a obra ainda não tenha sido entregue, o processo de escrita "está já muito avançado", garantem os autores.

Sobre o futuro da inspetora e da própria Carmen Mola, esse está na mão dos leitores. “Não sabemos se a Elena Blanco viverá muito mais, depende se gostam do romance ou não. [...] Gostávamos de escrever um novo romance de Carmen Mola todos os anos, seja de que estilo for, mas vai depender de como o leitor o receber", diz Díaz ao El Mundo.

"Golpistas"

A revelação não foi bem recebida por todos quadrantes da sociedade espanhola. Em reação à revelação do prémio, a livraria de Madrid Mujeres y Compañia retirou das estantes os livros de Carmen Mola, considerada uma autora feminista.

O livro fazia também parte das recomendações de leitura feminista do Instituto da Mulher de Espanha, ao lado de Margaret Atwook e de Irene Vallejo.

“Além de usarem um pseudónimo feminino, estes tipos andam há anos a dar entrevistas. Não é só o nome, é o perfil falso com que enganaram leitores e jornalistas. Golpistas”, escreveu no Twitter a deputada Beatriz Gimeno, que já dirigiu o Instituto da Mulher.

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