Aos quatro anos começou a ter aulas de natação por indicação médica, para melhorar o seu desenvolvimento em termos musculares, de coordenação. Com nove anos, "como uma nova experiência e para ocupação do tempo livre", entrou para as férias desportivas no Clube Náutico de Ponte de Lima, de onde é natural e hoje uma das principais referências quando nos lembramos da vila mais antiga de Portugal. Depois dele, talvez só o arroz de sarrabulho tenha maior notoriedade.

Nesse verão foi convidado pelo seu atual treinador, o professor Hélio Lucas, a ficar na equipa de competição. Do rio nunca mais saiu. Virou muito caiaque até lhe apanhar o jeito, mas hoje a pagaia é quase a extensão do seu corpo.

Só "saiu" de Ponte de Lima para, em 2018, assinar pelo Benfica. Ainda que sempre tenha dito viver "única e exclusivamente para a modalidade", apenas nesse momento, confessou ao Podcast "Planeta Eleven", se sentiu um atleta profissional.

Conquistou mais de meia centena de medalhas nacionais e uma centena de medalhas internacionais — a 100ª conseguida a 27 de setembro de 2020 durante a Taça do Mundo de Szeged. No total... é fazer as contas ou ver o histórico no site do próprio.

A sua primeira medalha nacional venceu-a em 2004, em K2 Cadete, ao ganhar as três etapas do Campeonato de Promessas (atual C.N. de Esperanças).

Entre os principais títulos contam-se o de vice campeão olímpico, em K-2 1000 m, nos Jogos de Londres (2012), juntamente com Emanuel Silva, e o de campeão mundo, em K1 1.000 m e K1 5.000 m, nos Mundiais de canoagem em Montemor-o-Velho (2018).

Nessa longa lista falta-lhe um: o título olímpico em K-1 1.000 m. Podia ter sido nos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016, e ainda não foi desta, em Tóquio, onde terminou com a medalha de bronze ao peito.

Rio de Janeiro, 18 de agosto de 2016

O dia mais duro da sua carreira, o dia das algas. Quem acompanha a carreira do canoísta lembra-se certamente deste momento. Fernando Pimenta também não o esquece.

Em pranto. Foi assim que o atleta se apresentou perante os jornalistas depois de ter falhado a medalha olímpica, para a qual, repetiu várias vezes, tanto tinha trabalhado.

Arrancou da pista 3 na lagoa Rodrigo de Freitas. Começou forte e aos 250 metros liderava a prova, com 0,92 segundos de vantagem para o espanhol Marcus Walz (que viria a ser campeão olímpico). Aos 500 metros continuava na frente, mas aos 750 metros já tinha caído para quarto. E quando passou a meta era quinto, com o tempo de 3.35,349 minutos. Em prova estava um adversário sem dorsal: "apanhei algas e folhas na parte da frente do barco".

"Fiz um arranque supertranquilo, consegui tomar a frente da prova e no momento em que ainda estava a ganhar avanço aos adversários entrei numa zona com folhas de árvore e, infelizmente, algumas ficaram agarradas à frente do barco. Perdi velocidade para tirar essas folhas da frente. Depois perdi o controlo do barco porque algumas devem ter ficado agarradas ao leme. E a partir daí foi sofrer, para tentar minimizar os estragos. É frustrante. São quatro anos da minha vida, em que passei por imensos obstáculos e desafios, e magoa-me não poder ter a merecida recompensa devido a fatores que não posso controlar", disse à data.

Até há pouco tempo não conseguia ver o vídeo desta final. Chorou durante uma hora e meia, sentado numa cadeira, sozinho numa sala, com o treinador à porta. "Depois disso desliguei, nem queria ouvir falar em desporto porque foi o dia mais duro da minha carreira", recordou ao podcast da Eleven Sports. Seguiram-se meses de profunda tristeza, sem vontade de treinar ou de ver canoagem.

Além da desilusão na prova, com a qual até teve pesadelos, fica outra má recordação: a das críticas, em grande parte de pessoas que não "fazem ideia da realidade".

Ao Observador relatou essa mágoa: "Criticaram-me de alto a baixo, se calhar sem nunca terem visto canoagem na vida, mas conseguiram ser especialistas e treinadores de bancada de segunda categoria".

Mas Fernando Pimenta não desistiu, recuperou a confiança e voltou a remar. Com as algas do Rio fez sushi em Tóquio. Diferente? Sim, e mais frio na competição, já o assumiu por várias vezes.

A sangue quente reage, e é voz ativa, quando o assunto é o apoio (ou a falta dele) ao desporto, seja ele a canoagem ou outro. Pimenta não tem receio de colocar sal naquilo que considera uma ferida. "Com pouco fazemos muito", disse recentemente ao Observador.

"Gostava muito de poder sair de um treino intenso e ir logo recuperar, com uma massagem ou hidroterapia (...) Interromper este processo de recuperação torna as coisas muito mais duras, é aí que vemos atletas, como eu, a ter lesões, que podem simplesmente terminar uma carreira desportiva. Lutamos para que um dia isto seja possível na nossa modalidade e no desporto em geral".

Sabe que as suas vitórias têm um peso na modalidade que pratica, mas diz ser preciso mais do que títulos para que outros Fernandos Pimentas surjam e rasguem os rios. No entanto, lamenta, "já não vou colher os frutos do que estou a plantar". "Mas quero fazê-lo pelos mais novos, vejo-os um pouco perdidos e alguns a abandonarem a alta competição. Se não houver apoios vamos perder muitos atletas", disse ao "Planeta Eleven".

O atleta que passava mais tempo fora do que em casa, em estágios e provas, tem agora uma motivação extra para regressar. Chama-se Margarida, nasceu em dezembro do ano passado, e ao falar nela, já em Tóquio, chegou a emocionar-se. "Provavelmente a maior medalha que podia ter já a tenho, uma Margarida. Os resultados desportivos são importantes, mas das coisas mais importantes é a nossa vida pessoal", disse antes da partida. Quando esta terça-feira o pai Pimenta subiu ao pódio, ela esteve com ele.

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