CAPÍTULO I

Eu sou porque eles foram

«Tudo aquilo que não chega à consciência,
regressa sobre a forma de destino.»
CARL JUNG

As raízes da família – O legado que nos é deixado

Todos temos algo a dizer a respeito da (nossa) família. Na maioria dos casos, sentimos uma ligação a ela simplesmente porque foi nela que nascemos. Mas esta ligação é, muitas vezes, sentida de diferentes formas.

Há pessoas que consideram que a família é vital para a sua existência e não são capazes de (sobre)viver sem ela. Outras que julgam que a família é sagrada e se deve aceitar todos os mandatos.

Outras consideram preferível manter as devidas distâncias, por precaução.

Existem as que, por um qualquer motivo, nunca conheceram a sua família.

Há ainda pessoas que apenas privam com a família de coração.

Ou as que cortaram definitivamente relações com a sua família. São tantas as situações.

Se olharmos para esta questão, e recuando bem atrás no tempo, pertencer a um grupo ou família traz-nos uma forte sensação de proteção. Mesmo que seja de um modo inconsciente.

Na verdade, quando estamos em grupo, temos mais hipóteses de sobreviver às agruras da vida, tratando-se de um sentir bem arcaico e visceral.

De uma forma ou de outra, a família deixa em nós um legado. Dela herdamos feitios, características físicas, gostos, valores e princípios, compromissos, mas também tristezas, zangas, ressentires, dores e traumas. Ao nascermos, é-nos entregue um pacote completo, não nos sendo permitido escolher apenas uma parte. Mesmo que tenhamos cortado relações ou que nunca tenhamos tido contacto com ela, o facto é que somos o resultado de todas elas e de todos eles. Somos porque foram um dia. 

Maria João Lopo de Carvalho junta-se ao É Desta Que Leio Isto no próximo encontro, marcado para dia 13 de dezembro, uma quarta-feira, pelas 21h00. A autora traz "Os Cinco e o quadro desaparecido", editado pela Oficina do Livro.

Para se inscrever no encontro basta preencher o formulário que se encontra neste link. No dia do encontro receberá um e-mail com todas as instruções para se juntar à conversa.

"Os Cinco" é uma das mais conhecidas e bem-sucedidas séries literárias para crianças e jovens da autora britânica Enid Blyton, publicada e traduzida em vários países. Com o passar dos anos, deu origem a outras histórias, com as mesmas personagens, escritas por diferentes autores noutros países, como Sarah Bosse (Alemanha) e Claude Voilier (França).

Esta série literária de aventuras, escrita por Blyton entre 1942 e 1963, tem agora continuidade em Portugal pela mão da autora Maria João Lopo de Carvalho, pela Oficina do Livro (grupo Leya), a editora que detém os direitos e publicou os 21 volumes da coleção.

Maria João Lopo de Carvalho tem 61 anos, foi professora de Português e Inglês, criou uma escola de língua inglesa, trabalhou em publicidade e na Câmara Municipal de Lisboa e tem mais de 70 livros publicados, entre obras para adultos e para os mais novos.

Deixo-te aqui palavras de Thich Nhat Hanh, monge budista, pacifista, escritor e poeta vietnamita: «Se olharmos para uma criança, é fácil ver nela a mãe e o pai, a avó e o avô. A forma como olha, a forma como age, as coisas que diz. Até as suas capacidades e talentos são as mesmas que as dos pais. Se por vezes não conseguimos compreender por que motivo a criança age de uma certa forma, é útil recordar que ela não é uma entidade separada. É uma continuação. Os seus pais e antepassados estão dentro dela. Quando caminha e fala, eles também caminham e falam com ela. Ao olharmos para a criança, podemos estar em contacto com os seus pais e antepassados, mas, de igual modo, ao olharmos para o progenitor, podemos ver a criança. Não existimos independentemente. Entre-somos. [...] O que quer que façamos, os nossos pais estão a fazê-lo connosco. [...] Somos a continuação de todos os nossos antepassados. Graças à impermanência, temos a hipótese de dar uma boa direção à nossa herança.»*

Aqui reside precisamente a nossa liberdade. Encontra-se dentro de nós a possibilidade de fazer à nossa maneira. Para tal, bastará seguir o caminho de consciência, levando luz a todas estas histórias e vivências herdadas. Despertando suavemente e aos poucos.

Como é importante cada pessoa ser capaz de encontrar a sua própria identidade e individualidade, no seio da família!

A alma da família e o seu karma

Carl Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, escreveu, no livro Memórias, Sonhos, Reflexões: «Enquanto fazia a minha árvore genealógica, entendi a estranha semelhança do destino que me conecta aos meus antepassados. Tenho fortemente a sensação de estar sob a influência de coisas ou de problemas que foram deixados incompletos ou sem respostas pelos meus pais, pelos meus avós e pelos meus antepassados. Parece-me que, frequentemente, existe nas famílias um karma impessoal que se transmite de pais para filhos. Sempre pensei que teria de responder a questões que o destino já propusera aos meus antepassados, sem que estes lhes houvessem dado qualquer resposta; ou melhor, que deveria terminar ou simplesmente prosseguir, tratando de problemas que as épocas anteriores haviam deixado em suspenso.»

Provavelmente também já sentiste este karma familiar. Até ao nascimento das minhas filhas, julgo nunca ter pensado em nada semelhante. Tinha outras preocupações e prioridades. Mas, depois de ter sido mãe, e à medida que a Maria e a Francisca foram crescendo, passei a reparar em pequenos pormenores. Como se o emaranhado de fios que nos liga umas às outras se tivesse começado a mostrar. Aos poucos, fui tomando consciência de que existia algo mais. Que, de certa forma, o meu caminho se encontrava ligado a quem havia caminhado antes de mim. E que perdurava, também, nelas. À medida que fui explorando, mais e mais, entendi que não era apenas eu que reparava. Na verdade, quem estivesse disponível para olhar para a sua história, veria as ligações, tão óbvias e evidentes.

A terapia transgeracional

A Terapia Transgeracional veio, há mais de oitenta anos, trazer um contributo para explicar todos estes sentires e sensações. Pretende investigar os comportamentos, as emoções e as crenças que são transmitidos, de geração em geração, dentro de uma dada família. Identificando se as dores e os traumas atuais de um membro podem encontrar-se relacionados com eventos passados ocorridos na sua família.

Na verdade, entende-se que os traumas pessoais se encontram, na grande maioria das vezes, relacionados com traumas antigos, vividos em gerações anteriores. A proposta é recuar-se no tempo, chegando até ao trauma originário. Permitir-se assim que a pessoa entenda de que forma a história familiar pode afetar a sua vida atual, dando-lhe ferramentas que possibilitem libertar-se de legados disfuncionais e pesados.

Faz parte de um processo, que implica disponibilidade e consistência. Roma e Pavia não se fizeram num dia. Tomar consciência dos padrões que repetimos e dar-lhes um novo significado traz uma maior leveza e bem-estar, melhorando a nossa qualidade de vida.

Esta ligação profunda à família não é uma novidade contemporânea, havendo registos da sua existência desde a Antiguidade. As primeiras tradições xamânicas, por exemplo, consideravam esta ligação aos antepassados. Já na Bíblia se podem encontrar referências à influência das gerações passadas na vida dos descendentes. No Livro de Ezequiel (18:2) refere-se: «Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos é que ficaram embotados.»

As origens de cada um são verdadeiramente importantes. Uma árvore não vive sem as suas raízes. Como poderemos nós fazê-lo?

Estamos todos interligados. Com os outros e com a nossa família. As feições, cor dos olhos, fisionomia, feitios, profissões passam de geração em geração. É tão frequente ouvir dizer-se: «tens os olhos da tua mãe», «tens o feitio da tua avó». O mais surpreendente é que as dores, as emoções, os traumas, as perdas, os segredos também passam de geração em geração. São como «batatas quentes», como dizia Anne Ancelin Schützenberger, psicóloga, psicoterapeuta e professora universitária, que passam de mão em mão, queimando todas pelas quais passam. E, até serem trazidos à consciência, os mesmos factos repetem-se uma e outra vez.

Livro: "Eu Sou Porque Eles Foram"

Autor: Sara Larcher

Editora: Pergaminho

Data de Lançamento: 16 de novembro de 2023

Preço: € 17,70

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A terapia transgeracional vem, assim, dar uma ajuda no sentido de sarar as feridas emocionais que são transmitidas entre gerações, permitindo que cada pessoa viva de forma mais plena e saudável.

A transmissão transgeracional diz, assim, respeito ao que é secreto, não dito, calado e muitas vezes não conhecido, em regra respeitante a alguma dor que não é elaborada. Anne Ancelin Schützenberger afirmou: «o que não se exprime em palavras, imprime-se e exprime-se em dor». Aquele conteúdo não integrado e não mostrado, de forma verbal ou simbólica, acaba por ser passado às novas gerações, que se sentem «colonizadas» ou «alienadas» por ele.

Já a transmissão intergeracional consiste na informação e conteúdo que são transmitidos, dentro das famílias, através da aprendizagem dos seus costumes e da própria tradição. É feita diretamente, de forma consciente e, por vezes, até verbalmente, de membro para membro, entre gerações que se conhecem. As recordações que guardamos da nossa avó, por exemplo, dos momentos em que cozinhava ou quando nos contava histórias, fazem parte deste conteúdo tão rico e que, também, nos é transmitido. Conhecer estas narrativas da família, e perpetuá-las para as gerações seguintes, é tão vital para os descendentes, que passam a ter acesso às suas raízes.

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