Diário de um pai em casa. Dia 39


Esta crise de saúde pública deixou a nu que, provavelmente, tenho um guarda-roupa demasiado variado, em espécie e em número, para as minhas necessidades. Para já, presentes. E, quem sabe, futuras, daquele amanhã que ainda tarda em chegar. Talvez, não sei. Logo se verá.

Desde 11 de março que estou acantonado em casa. Desde esse dia que, salvo honrosas exceções, fui reduzindo a quase zero as dúvidas existenciais sobre o que vestir. É um não-assunto, em 90 por cento das ocasiões.

Tenho, no leque de escolha autoimposto, três variações. Três mudas, para três atos, para desdobrar-me em três personagens, tal como as peças teatrais. Parecem muitas escolhas, mas são poucas.

São elas, a roupa de casa, a que utilizo para as saídas à rua (supermercado, farmácia e padaria) e, por fim, as destinadas à prática de exercício físico. Todas partilham do mesmo principio: estão reduzidas ao mínimo olímpico.

Roupa de casa. Nunca a expressão popular, “roupa de andar por casa” ganhou tanto sentido e significado para o modus operandi de pesquisa no armário. Opções: meia dúzia de polos/t-shirts a uso, um casaco com capuz e um hoodie, duas camisas em rotação esporádica e um par de calças. Os ténis estão quase colados aos pés. E, garanto-vos, já gastei muita sola a palmilhar o casario.

Nas saídas esporádicas para comprar bens de primeira necessidade, aí, a minha vida está muito mais facilitada. Tenho umas calças, uns ténis e um casaco. Faça sol ou faça chuva. Duas peças estão, em permanência, penduradas no corrimão das escadas. Os sapatos ficam também à porta, como na entrada para uma Mesquita. O polo/t-shirt é a mesma de casa. Que serve para o que se segue.

Por fim, a roupa das corridas “higiénicas”, como lhe chamam agora. Um calção, ou calça (para os dias de chuva) e uns ténis são a minha segunda pele. Tal como a anteriores peças, não entram dentro de casa, a não ser para a lavagem sazonal, por razões de higiene. Uma vez lavadas, regressam à “casa de partida”. Fazem companhia a um casaco com capuz ou hoodie, utilizado para o pré e pós corrida, que, findo a dita, permanece neste imenso armário fora de portas.

Como disse no início, neste percurso de escolhas tem havido honrosas exceções. Hoje foi uma delas. Tinha marcado entrevista com uma eurodeputada para falar sobre inovação, digitalização, investigação e energia verde na Europa e os efeitos e consequências do covid-19 na política europeia. A conversa estava aprazada via Skype.

Compus-me. Queria ficar bem na fotografia. Barba feita, casaco e camisa engomada. As calças, meias e sapatos, não aparecem no ecrã, logo, indiferente se faziam o casamento que, à partida, se impunha se fosse presencial.

Recorri ao escritório do meu pai para ter paz de espírito. Escolhi o melhor ângulo para evitar mostrar estantes repletas de livros. Não foi nada fácil.

A entrevista acabou, no entanto, por realizar-se pela via mais analógica. Foi feita por telemóvel. Só com som e sem imagem. Senti-me demasiado vestido, por um lado. E, acima de tudo, senti um cheiro de regresso à normalidade que tanto anseio.

Depois de um par de horas a recuperar trabalho acumulado, no regresso a casa, ainda fui a tempo para aceder a um pedido do meu filho mais novo, o António. Aniversário de uma miúda da escola. Todos chamados à plataforma às 17h00.

Bati à porta do Zoom para ir à festa aos quadradinhos cantar o “parabéns a você” entoado por vozes desgarradas e desafinadas. Tudo bem até aqui. Até que, reparei. Era uma festa temática. Estavam todos de chapéu.

A roupa, sempre a roupa. Eu que me tinha vestido para estar à altura de uma conversa com uma representante de Portugal em Bruxelas, que na véspera tinha entrevistado, de manga curta, um presidente de uma Fundação de renome, vi-me na contingência de desembrulhar gavetas à procura de um apontamento para compor o dress code.

Azar dos Távoras. Só tinha, e tenho, um chapéu estilo Peaky Blinders. Não combinava, em nada, com as auréolas burilais na cabeça, das meninas ou bonés de pala para trás, dos meninos. O António não quis ser gangster e entrou em cena sem chapéu. Sem perder um minuto que fosse.

Uma nota final. No 3º e último andar do meu prédio, onde moramos, temos um verdadeiro “estendal” de roupa pendurada para ser utilizada nas saídas à rua, além de uma sapataria à porta de casa. Visto de baixo, com vista para a clarabóia, parece a terra dos guarda-chuvas flutuantes (Umbrella Sky Project).

Todos, com uma exceção, guardam ali, por longos períodos, a indumentária do corpo e a sapataria que não entra em casa por questões de saúde pública ou que ali aguarda, de quarentena, autorização para ir para a máquina de lavar a roupa. A honrosa exceção é a minha mulher. Raramente, mas mesmo muito raramente, repete duas vezes seguidas a mesma roupa. À segunda ida à rua, tem como destino o tambor da máquina. Mulheres...

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