
“Alguns dizem-me que parece que afinal têm um estranho em casa”, descreve à agência Lusa a especialista, a propósito do debate lançado pela série da Netflix que aborda o perigo da propagação entre os jovens de ideias misóginas e discriminatórias, nas redes sociais e em grupos fechados na Internet.
A história de Adolescência foca-se, sobretudo, na comunidade ‘incel’ (celibatários involuntários), maioritariamente composta por homens heterossexuais que se dizem incapazes de encontrar um parceiro romântico ou sexual.
Os psicólogos – explica - não usam o termo ‘incel’, mas muitas situações que acontecem na série encontram espelho na vida real de alguns miúdos e os sintomas que veem nos adolescentes que seguem em consultório são idênticos aos manifestados por estes jovens ‘incel’. Reações violentas e desproporcionadas ou uma “tristeza profunda” com o corpo que têm e com o facto de não conseguirem encontrar parceiro são alguns deles.
Tânia Gaspar diz que para quem trabalha na área da saúde mental dos adolescentes a série “não é surpreendente”, pois aborda muitas questões para as quais os psicólogos já chamavam a atenção, como a culpabilidade dos pais e as dificuldades que sentem.
“Pode ser um alerta para coisas que nós [os especialistas] andamos sempre a dizer, mas o importante era fazer alguma coisa com isto, com esta informação”, considera.
Conta que os profissionais desta área se sentem “frustrados, com falta de recursos”, e insiste na necessidade de estruturas para apoiar estes adolescentes, diferentes das dos adultos.
“Era preciso algo num ambiente bonito, aberto, que permita recuperação destes jovens. E não um hospital, cheio de pessoas estranhas”, exemplifica a especialista, que trabalha sobretudo com adolescentes.
Recorda que nos serviços de saúde há espaços para adultos com doença grave, para miúdos com deficiências e alguns centros para toxicodependência, mas deixa um aviso: ”No caso de ser um miúdo com comportamento mais violento ou, por exemplo, com explosões emocionais sem racionalidade, ou ‘borderline’, não temos onde o deixar se precisar de internamento.”
Tânia Gaspar, que coordena desde 2020 o Estudo Health Behaviour in School-aged Children, em colaboração com a Organização Mundial de Saúde (OMS), sublinha a importância de trabalhar na prevenção, nas escolas, mas “usando as áreas da saúde, da educação e social juntas”.
“Tem de ser uma coisa transversal”, afirma a especialista, que faz parte da equipa de saúde escolar da Direção-Geral da Saúde.
A investigadora aponta também a necessidade de os pais terem mais “tempo de qualidade” para acompanharem os filhos e insiste que “para isto, não podem trabalhar até tão tarde”.
“Se tem só 10 minutos por dia, não faz mal. O importante é que nesse tempo esteja mesmo ali, com eles”, diz, acrescentando que a comunidade deveria ter espaços onde os pais pudessem tirar dúvidas, “sem julgamentos”, numa espécie de “aconselhamento parental”.
O ideal, defende, era a equipa de saúde familiar ter sempre um psicólogo, ou seja, a família ser “seguida por um enfermeiro de família, um médico de família e um psicólogo”.
A propósito do protagonista da série, lembra o peso do aspeto físico também para os rapazes: “Das cinco coisas que mais contribuem para a felicidade deles, o corpo é uma delas.”
“Quando chegam aos 12, 13 anos, alguns começam a ganhar músculo e ficam maiores, mas outros não. E as raparigas dão mais atenção aos mais encorpados, deixando os outros de parte”, explicou, numa alusão ao que acontece a Jamie Miller.
Estes miúdos, menos desenvolvidos, uma vez que se sentem menorizados, “têm de se fazer valer de outras formas “ e, por vezes, “acabam por se envolver nesses grupos”.
“Depois, depende de como é o líder. Alguns conseguem manipular o seu grupo de rapazes para executarem tarefas que os miúdos, para serem incluídos no grupo, acabam por fazer”, explica.
Além de mais literacia nas famílias, pede uma escola que envolva mais os alunos, com aulas mais participativas, em estilo debate: “Há professores que ainda usam aquele modelo de estar ali sentado a ler ‘powerpoints’ e ‘slides’, ou até a ler o livro”.
A psicóloga receia que o sucesso da série faça com que os pais “fiquem um bocado histéricos”, mas também tem uma esperança: “Os pais fazem sempre o melhor que podem”.
Segundo dados disponibilizados pela plataforma Netflix, desde a estreia, há duas semanas, a minissérie britânica de quatro episódios já teve 42 milhões de visualizações. Lidera o top 10 das mais vistas em 80 países, incluindo em Portugal.
Raparigas cada vez mais manipuladas pelos rapazes
A psicóloga Tânia Gaspar alertou hoje que a sociedade está a regredir no respeito pelas mulheres, contando que pediatras sentem que as raparigas estão a ser mais manipuladas e criticadas pelos rapazes, devido à sua aparência, sem saberem defender-se.
“A nossa sociedade está a virar outra vez. Tenho várias pessoas, pediatras, que me dizem que estão a voltar a sentir que as raparigas estão outra vez a ser mais manipuladas, criticadas e humilhadas, para estarem controladas face à sua aparência”, alertou a responsável, que pede uma maior aposta no empoderamento da mulher.
Tânia Gaspar, psicóloga que trabalha sobretudo na área da adolescência, afirma: “No fundo é aquela ideia de que as mulheres são para dominar. Aquela questão máscula do poder sobre elas.”
A investigadora falava à Lusa a propósito da série de sucesso Adolescência, da Netflix, que aborda os perigos da propagação de discursos misóginos, discriminatórios e violentos, com o foco na ideologia ‘incel’ (celibatários involuntários) promovida nas redes sociais e em fóruns fechados. A minissérie britânica de quatro episódios teve, após duas semanas desde a estreia, 42 milhões de visualizações, estando no número um do top 10 em 80 países, incluindo Portugal.
Um dos ‘ícones’ da ideologia ‘incel’ citado na série – Andrew Tate – promove o machismo e a misoginia e faz parte de uma comunidade que culpa as mulheres pelos seus problemas de relacionamento.
Estes grupos integram também ideias racistas e de objetificação e violência para com as mulheres e, em casos extremos, a apologia do terrorismo e de homicídios em massa.
Como exemplo desta mudança na sociedade, conta que “quando vão a um ginásio, as adolescentes de 15 e 16 anos são assediadas”. “Há miúdas que deixam de ir, ou vão nas horas menos procuradas, pois não se sentem confortáveis porque os homens tiram fotografias e filmam-nas”, descreveu.
Explica que as raparigas acabam por não se queixar por receio de “ainda serem elas a ficar mal”. “Na verdade, às vezes têm razão”.
“Há casos de miúdas abusadas por primos ou vizinhos, e, na grande parte das vezes, ou elas não dizem à família, ou quando dizem eles não acreditam. Ou então dizem: Olha, isso vai trazer muita confusão”, acrescentou.
A investigadora lamenta que a sociedade esteja a regredir e sublinha que “nada disto está relacionado com o estatuto socioeconómico”.
“Faço clínica privada, onde se paga bem, (…) e também existe isto tudo, de outras maneiras, às vezes muito mais camuflado, por causa da vergonha”, conta.
Insiste na necessidade de mais empoderamento da mulher e reconhece a dificuldade de “não eternizar o estigma”.
“Eu própria, se eu quero ir para um sítio e ser levada a sério, visto-me muito sobriamente, porque quero ser valorizada pela minha profissão, pela minha capacidade social, e nunca por outras coisas”, afirma.
Finalmente, chama a atenção para o impacto da diferença de comportamentos entre gerações: “Tivemos uma geração muito autoritária e rígida e, de repente, isto passou um pouco para o outro extremo.”
“Proibir tudo e ser rígido demais não funciona. Nalgumas famílias aquilo parece a tropa. Mas não ter regras nenhumas também não é a solução”, aconselha.
Num estudo divulgado no ano passado, a Organização Mundial da Saúde alertou para os impactos devastadores que a violência entre parceiros pode ter “na saúde, no desempenho educativo, nas relações futuras e nas perspetivas de vida dos jovens”.
Os dados divulgados na altura indicavam que uma em cada quatro raparigas adolescentes que estiveram numa relação sofreu violência física ou sexual por parte do parceiro.
A OMS realça ainda a “necessidade urgente” de reforçar os mecanismos de apoio e as medidas de prevenção precoce adaptadas aos adolescentes, juntamente com ações para promover os direitos das mulheres e das raparigas, como programas escolares que educam rapazes e raparigas sobre as relações saudáveis e a prevenção da violência.
Adolescentes, violentos e misóginos: o perigo, afinal, está no bolso
Os pais devem aprender a usar as redes sociais para saberem quem os filhos seguem e que ideias propagam porque, alertam especialistas em uso de tecnologias, o perigo não está na rua, mas no bolso.
Tito de Morais, fundador do projeto MiudosSegurosNa.Net. e especialista em parentalidade digital, aponta os encontros que a associação “Agarrados à Net” faz há vários anos nas escolas com pais, alunos e professores para exigir aos pais que deixem de dizer: “De internet percebo pouco, mas o meu filho percebe muito.”
“Se percebem pouco vão ter com os filhos e aprendam”, aconselha o especialista, que alerta para a dificuldade que os sistemas de tradução de linguagem que usam inteligência artificial têm em decifrar a linguagem codificada em que os miúdos falam nas redes sociais.
Este debate, em Portugal e noutros países europeus, ressurgiu após o êxito da série Adolescência, da Netflix, sobre um rapaz de 13 anos acusado de matar uma colega de escola, que voltou a trazer para o debate público o perigo da propagação entre os jovens, nas redes sociais e em grupos fechados na internet, de ideias misóginas, violentas e discriminatórias.
O uso de linguagem codificada – com emojis – levou esta semana a PSP a divulgar uma informação que explicava os diversos significados dos ‘emojis’ usados pelos jovens: uma beringela ou um cachorro podem simbolizar o órgão sexual masculino, uma flor o feminino, um alvo e um cavalo indicam a heroína, o trevo ou uma cabeça de bróculos a canábis, o gelo e o coco a cocaína e o diamante ou um tubo de ensaio as anfetaminas.
“A série fala-nos dos significados de alguns ‘emojis’ usados pelos miúdos, mas muitas das palavras usadas pelos jovens de hoje também têm significados diferentes dos que tinham quando éramos mais novos”, alertou Tito de Morais, exemplificando com um encontro em que participou: “Perguntei e poucas foram as pessoas que sabiam que ‘cenas’pode significar drogas.”
Os riscos são muitos e o especialista acrescenta: “O foco agora está nas questões ligadas à misoginia, mas as pessoas parece que já se esquecerem que houve jovens portugueses que foram lutar pelo exército islâmico”. “A Internet é uma ferramenta de recrutamento para tudo".
Cristiane Miranda, cofundadora do projeto Agarrados à Net, que promove o “bem-estar digital” de crianças, jovens e adultos, combatendo o ‘bullying’, o ‘cyberbullying’ e a violência sexual com base em imagens, alerta: “É cada vez mais difícil, mas cada vez mais importante os pais encontrarem tempo para conversar com os filhos.”
Contudo, defende que não se pode “colocar toda a culpa nos ombros dos pais”, lembrando que se é verdade que devem acompanhar os filhos também “é preciso perceber que os miúdos são seres autónomos e, se tiverem de fazer alguma coisa, fazem”.
“Os pais devem estar atentos e conversar com os filhos, manter essa conexão, e isso vai diminuir a probabilidade destas coisas acontecerem”, acrescenta.
O ideal, defendem, é “manter sempre a porta aberta ao diálogo, sem julgamentos” para “tentar compreender a vida digital dos filhos”.
“Não é controlo parental, é acompanhamento”, sublinha Tito de Morais, acrescentando: “pode acontecer com qualquer família, sobretudo se não acompanharem os filhos”.
“Se não formos nós a transmitir valores aos filhos a internet vai fazê-lo, com o que tem de melhor e de pior”, considera Tito de Morais, lembrando: “em contexto de grupo, os nossos filhos podem ter comportamentos que não se coadunam com os valores segundo os quais os educamos e que promovemos em nossas casas”.
Cristiane Miranda lembra que “não há soluções 100% seguras” e que “há coisas que podem escapar”, alertando: “assim como se preocupam em fazer perguntas quando os jovens saem à noite, também é preciso perguntar sobre a vida ‘online’”. Porque o perigo, mais do que na rua, pode estar no bolso.
Depois do alerta lançado pela série Adolescência, Tito de Morais insiste: “Agora que os pais têm a informação, o importante é o que vão fazer com ela”.
A minissérie britânica de quatro episódios já teve 42 milhões de visualizações, segundo a plataforma Netflix. Está no número um do top 10 desde a estreia, há duas semanas, em 80 países, incluindo Portugal.
Pais admitem precisar de mais tempo e literacia digital para apoiar os filhos
Os pais reconhecem que precisam de mais tempo disponível e mais literacia digital para acompanhar melhor os filhos e pedem apoio para toda a comunidade educativa e mais atenção à saúde mental da comunidade.
Em declarações à Lusa a propósito da série de sucesso Adolescência, da Netflix, que aborda os perigos da disseminação do discurso misógino e violento nas redes sociais e em grupos fechados, Mariana Carvalho, da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), concorda que mais literacia é o caminho.
“Não é fácil acompanhar todas estas questões que envolvem o digital e as redes sociais”, reconhece a responsável, dizendo acreditar que apenas com uma maior sensibilização sobre a boa utilização das ferramentas digitais é possível “desenvolver competências para perceber onde é que estão os riscos”.
Rejeita a proibição do uso dos telemóveis nas escolas - “não é esse o caminho” – e defende que, não só os pais, mas “toda a comunidade educativa deve aprender também a utilizar as tecnologias”.
“Temos promovido alguns ‘webinars’ junto dos pais, mas abertos à comunidade educativa, e é fundamental haver também dentro das escolas, para os alunos, para os professores e para técnicos e assistentes operacionais, porque todos precisamos de saber utilizar a tecnologia da melhor maneira”, afirma a responsável.
A presidente da Confap considera que o facto de “todos usarem as redes sociais acaba por camuflar a falta de literacia digital”: “não é por a população saber fazer uns comentários na rede social que tem literacia digital. Por vezes nem consegue distinguir uma noticia verdadeira de algo que não aconteceu”.
Sobre o tempo de qualidade, concordam que, com as deslocações e os horários de trabalho intensos, sobre pouco tempo de qualidade aos pais e diz que “a escola não consegue responder às necessidades”, sobretudo das famílias monoparentais.
Mariana Carvalho reconhece que o teletrabalho “facilita um pouco”, mas diz que é preciso parar para refletir: “temos de pensar o que queremos enquanto comunidade”.~
A responsável acredita que é “fundamental e imperativa” a criação de gabinetes de apoio à comunidade educativa, “com o foco na saúde mental e emocional”.
“Eu própria e agora enquanto presidente da Confap há três anos de reivindico. Precisamos de equipas multidisciplinares nas escolas para conseguirmos dar o suporte e o apoio na prevenção”, afirma, acrescentando: “Não é quando o dano já chegou. E nós sabemos que está a chegar”.
Apesar de dizer que a série Adolescência “não traz nada novo”, admite que pode alertar consciências: “Até pode trazer aqui alguma informação que nós, enquanto sociedade, não estamos a conseguir transmitir”.
“Pelo menos, que sirva para, de facto, sentirmos que pode acontecer dentro das nossas casas. Para que possamos ter estratégias para trazer segurança para os nossos filhos”, acrescenta.
Diz que muitas vezes os pais “julgam que conhecem os filhos, mas não conhecem”, mas acredita “no exemplo”. Defende que “amor e acompanhamento” são a melhor receita e que não se deve pôr a culpa sempre nos pais.
“Para pais, mães e famílias é importante haver uma cooperação da sociedade. A comunidade, em conjunto, tem de encontrar as melhores estratégias”.
* Por Susana Oliveira, da agência Lusa
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