É impossível discutir o futebol deste século sem mencionar o nome de José Mourinho. O treinador português é um nome tão proeminente no nosso país como Luís Figo ou Cristiano Ronaldo, e lá fora é um verdadeiro marco do desporto pelo estilo que adotou — não se esqueça o caro leitor de que a alcunha ‘Special One’ foi atribuída a Mourinho por… Mourinho — e pelos troféus que conquistou.

Apesar de tudo, aquilo que o técnico conseguiu, a forma como se olha para a sua história, está longe de ser linear. À beira de disputar a quinta final europeia da carreira (esta noite, às 20h00) diante dos neerlandeses do Feyenoord, pela AS Roma, aquele que é o nono clube que orienta como treinador principal desde o início da carreira, ainda há quem insista em olhar para o trajeto de Mourinho de uma forma exasperadamente simplista.

Há o que o timoneiro de 59 anos fez no FC Porto (uma Liga dos Campeões, uma Taça UEFA, dois campeonatos nacionais, uma Taça de Portugal e Supertaça Cândido de Oliveira), Chelsea (duas ligas inglesas, interrompendo um jejum de 50 anos na Premier League, uma Taça de Inglaterra, duas Taças da Liga inglesa e uma Supertaça inglesa), Inter de Milão (uma Liga dos Campeões, duas ligas italianas, uma Taça de Itália e uma Supertaça italiana), Real Madrid (uma liga espanhola, uma Taça do Rei e uma Supertaça espanhola) e o regresso ao Chelsea em 2013, onde voltou a vencer a Premier League; e depois há tudo o resto.

Devo ressalvar que mesmo esta divisão dos factos não será unânime, com muitos a colocar o fim da caminhada de sucesso do português no triplete conquistado em 2009/10 pelo Inter, relegando para segundo plano o recorde de pontos conquistados na La Liga vencida com os Merengues ou o facto de ter marcado presença em três meias-finais consecutivas da Champions com o clube de Madrid, na sua passagem pela capital espanhola, ou ainda ignorando a liga conquistada pelos Blues no regresso a Londres. Para muitos, todo este parágrafo foi o anunciar da queda de Mourinho, substituído no duelo mediático contra Pep Guardiola por Jurgen Klopp, opositor do catalão, primeiro na Alemanha, com o Borussia Dortmund e depois em Inglaterra com o Liverpool, e colocado nas prateleiras como alguém que ‘não soube acompanhar a evolução do futebol’ ou que ‘não saiu no tempo certo’.

Mas declarar a ‘morte’ de Mourinho é manifestamente exagerado. Se é verdade que o português tem estado longe das lutas pelos campeonatos de Inglaterra ou Itália, nos últimos anos, também é verdade que estes anos têm sido tudo menos irrelevantes. Quando chegou ao Manchester United, em 2016/17, o setubalense venceu três títulos: uma Supertaça inglesa, uma Taça da Liga inglesa e uma Liga Europa. Na temporada seguinte terminou a Premier League em segundo lugar, à frente do Liverpool de Klopp e levou os Red Devils à final da Taça de Inglaterra, que haveria de perder para o Chelsea. Desde a saída do Special One, há três anos, que o United não conseguiu voltar a ficar tão bem posicionado na liga ou sequer voltar a ganhar um título.

No capítulo que se seguiu, em Londres, à frente do Tottenham, esteve à beira de conquistar o primeiro título do clube desde 2008, ao chegar à final da Taça da Liga inglesa, tendo sido despedido antes de a poder disputar.

O capítulo da capital inglesa foi, provavelmente, o menos proveitoso da carreira de Mourinho e pode servir de sumário para ilustrar o que correu menos bem com o técnico. Intenso na abordagem ao plantel, o português encaixa num estilo de treinador em que o lado emocional se equivale, ou chega mesmo a superar, a dimensão tática da equipa. Mesmo sem jogarem um futebol esplendoroso, as equipas do português mostravam uma capacidade muito acima da média. No FC Porto, Mourinho tinha jogadores dispostos a ir para a guerra com ele; no Chelsea, montado, em parte, em cima do ADN daquele Porto europeu — em nomes como Ricardo Carvalho ou Paulo Ferreira, ou outros que o conheciam, como era o caso de Tiago, que chegou a Terras de Sua Majestade proveniente do Benfica, de contratações escolhidas a dedo por José Mourinho, como foi o caso maior de Didier Drogba, ou o simples acaso de ter encontrado no clube 'guerreiros' como John Terry ou Frank Lampard, aconteceu o mesmo.

Em Itália, as palavras de Samuel Eto, ponta de lança daquela equipa, serão um bom resumo: "Estou farto de explicar que este senhor [Mourinho] é uma das melhores pessoas que existem no mundo do futebol. Quando anunciei a minha retirada, ele foi a primeira pessoa que me escreveu. O primeiro. E as pessoas têm de saber disto, a vida muitas vezes não é justa. E o futebol é como a vida. Os que merecem o respeito de todos por vezes não o têm, mas no que diz respeito a Mourinho, nós matávamos por ele".

Desde que foi para o Real Madrid, e sobretudo depois, José Mourinho parecia num loop de um guião de um mesmo filme: chegava e conseguia um impacto moral e motivacional brutal no plantel, que passou a sentir que podia vencer tudo, seguido de um desgaste emocional e motivacional brutal desse mesmo plantel perante as dificuldades sucessivas, o que afetava a ligação com alguns jogadores, muitos deles peças-chave dos balneários, o que, por consequência, levava à saída do técnico.

Mourinho precisa de homens que vão para a guerra com ele. No Tottenham não os encontrou, mas na Roma, contra todas as expectativas, depois de um início de temporada incoerente, que foi do oito ao oitenta, começou a mostrar que estava a conseguir formar esse grupo. Um dos melhores exemplos disso mesmo talvez seja Tammy Abraham, goleador da equipa, único jogador inglês a superar esta temporada a fasquia dos 25 golos numa temporada, que recebeu um grande voto de confiança com o treinador a desembolsar 40 milhões de euros para o tirar de um papel de titular irregular no Chelsea para peça chave da equipa italiana, numa das ligas mais difíceis do mundo para um avançado.

A época de estreia na capital italiana esteve longe de ser de sonho, tendo terminado com um modesto sexto lugar na Serie A e uma participação na Taça de Itália que se ficou pelos quartos-de-final. Mas foi adocicada por uma prestação europeia a fazer lembrar o Mourinho de outros tempos. É difícil não ver as imagens que se seguem ao apito final da segunda mão das meia-finais frente ao Leicester e ver a euforia de Mourinho, como naquela corrida em que se lançou quando venceu o jogo mil da carreira aos 91 minutos, transformada em lágrimas de emoção e não perceber que ele nunca se foi embora, que ele nunca ‘morreu’, que ele está sempre ali com a emoção de uma primeira vez.

Na conferência de imprensa de antevisão ao jogo desta noite, questionado sobre a possibilidade de se tornar apenas no terceiro técnico a conquistar três grandes títulos europeus de clubes diferentes — igualando Giovanni Trapattoni, campeão português pelo Benfica em 2005, e ao alemão Udo Lattek, ambos vencedores de Taça dos Clubes Campeões Europeus, Taça UEFA e Taça dos Vencedores das Taças — e o primeiro a vencer todos os que estão atualmente em disputar, Mourinho respondeu assim: "Se eu ganhar, serei o primeiro a ganhar todos os troféus europeus, mas isso só se eu ganhar. É uma final. Não tenho mais nada em mente até amanhã [quarta-feira]. Esta final é como a primeira para mim — nada mudou”.

O que a AS Roma andou para chegar à final da Liga Conferência?

A Roma venceu o Grupo C da Liga Conferência Europa, com 13 pontos, mas não se livrou de uma pesada derrota por 6-1 frente aos noruegueses do Bodo/Glimt.

Nos oitavos de final, a equipa romana ultrapassou os neerlandeses do Vitesse (empate 1-1 em casa e vitória 1-0 fora), vingando depois o desaire com o Bodo/Glimt nos quartos de final (derrota por 2-1 fora e vitória de 4-0 em casa).

Nas meias-finais, a Roma superiorizou-se os ingleses do Leicester (empate 1-1 fora e vitória 1-0 em casa), garantindo a presença na final.

O momento serviu para o técnico português recuar ao passado: “A história do 'Special One' é uma história antiga. Foi quando eu estava no início [da minha carreira]. Quando se tem mais maturidade e estabilidade, pensamos mais nas pessoas e menos em nós próprios. É uma história antiga, não acredito em magia – quando se chega a uma final depois de uma temporada de trabalho, o trabalho está feito. É o momento da equipa, não o momento de um indivíduo”.

A AS Roma, que tem no palmarés europeu uma Taça das Cidades com Feira (o equivalente à atual Liga Europa) conquistada em 1961, pode voltar a ganhar um título continental 61 anos depois. Ou mesmo num plano mais geral, voltar a vencer o primeiro título desde a Taça de Itália de 2007/08. Este é o contexto necessário para entender a possível dimensão do feito.

O que se seguirá é uma incógnita. O rumo que o projeto romano tomar ditará a forma como poderemos avaliar esta nova vida de José Mourinho: quanto dinheiro terá para investir? Quanto tempo terá para trabalhar? Mas à beira de mais uma final europeia, aquele que saiu vencedor das quatro já disputadas, duas Ligas dos Campeões, uma Taça UEFA e uma Liga Europa, não está nada mais, nada menos do que a continuar a viver o futebol à sua maneira. Pronto a vencer com quem quer vencer com ele.

No final de contas, Mourinho está onde sempre esteve, a encarar o futebol à sua maneira, com a sua evolução, com a sua forma de ser tão encorajadora como devastadora. Está a fazer tudo como se fosse a primeira vez. O problema pode estar mesmo nos adeptos que, por culpa do sucesso do próprio, ficaram mal habituados. Hoje, às 20h00, ficaremos a saber.

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